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Pinter pelos Artistas Unidos

Comemoração & Quarto

Primeira peça de Harold Pinter pelos Artistas Unidos. Texto de Jorge Silva Melo

Francisca Cunha Rêgo
15:00 Segunda, 7 de Junho de 2010
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O Quarto, de Harold Pinter
O Quarto, de Harold Pinter
Jorge Gonçalves

O Quarto é a primeira peça de Harold Pinter. Um casal toma o pequeno-almoço. Ela fala, ele está absorto. A vida quotidiana num mundo ameaçado. A peça conta com a tradução de Pedro Marques, e interpretações de Lia Gama, João Miguel Rodrigues, Cândido Ferreira, João Meireles, Sylvie Rocha, Carlos Paca. Em Comemoração três casais iniciam um diálogo que se torna numa guerra de palavras. José Maria Vieira Mendes traduz a peça que tem as interpretações de Alexandra Viveiros, Américo Silva, António Simão, João Meireles, Pedro Carraca, Sílvia Filipe, Sylvie Rocha, Tiago Matias, Vânia Rodrigues. Ambas as peças são uma co-produção dos Artistas Unidos/ Teatro Municipal de Almada.
E a encenação está a cargo de Jorge Silva Melo que escreve: "Harold Pinter. Um universo de incertezas, contradições, mentiras, invenções, não-ditos, uma escrita sucinta, rarefeita. E um diabólico domínio da lingua que lhe permite, com quase nada, criar tensões. Numa segunda-metade do século XX dinamitada por tantas vanguardas, Pinter insistiu sempre no realismo presencial do teatro: um sofá é um sofá e ele gosta de quartos de três paredes. Os seus celebrados diálogos são coloquiais e muitas vezes anódinos. Mas um "bom dia" dito por uma personagem sua pode ser um jogo mortal e não uma fórmula de cortesia.
O seu ramo não é o da psicologia. Não temos passado para muitas personagens, nem motivação para os seus actos. Filho do "behaviourismo" dos "Assassinos" de Hemingway, O Serviço, um dos seus primeiros textos, é uma constatação. Ora, como é que um actor se pode limitar a constatar? Limitar-se a estar presente, sem as armadilhas das intenções profundas? (...)
Mais tarde, Pinter, começando um novo ciclo na sua obra, depois de em 1970 ter encenado no Mermaid Theatre de Londres uma peça de James Joyce, Exilados, peça então esquecida, debruçou-se sobre esta estrutura ibseniana e veio sobrepor ao teatro da surda ameaça com que as suas peças iniciais foram rotuladas, um teatro da memória, os intrincados torcidos e tremidos da memória de que são exemplo Paisagem e Há Tanto Tempo. Parece ter deixado de haver perigo ou o perigo está dentro de nós, num passado nunca lembrado mas sempre presente. A que também não é alheio o trabalho que fez com Joseph Losey ao tentar adaptar Proust ao cinema (que dará, em 2000, a adaptação cénica Remembrance Of Things Past).
Porque a sua escrita é viva, se move imparável numa tentativa cada vez mais acerada de abranger o mundo pantanoso, houve quem se surpreendesse com a clareza política de alguns dos seus textos dos anos 80/90 de que Um Para O Caminho é famoso exemplo. Mas esta clareza, esta economia, esta brutalidade rarefeita vinham de trás, de muito longe: e os pobres diabos ameaçados de O Serviço ou de Feliz Aniversário estavam no mesmo universo onde o poder é arbitrário. Só que agora quem entra em cena é o ameaçador, quem toma a palavra e vai até à boca de cena não é o ameaçado. E também Harold Pinter dá voz (e deu corpo ao representá-lo ele próprio) ao torturador..."

Teatro Municipal de Almada de 9 a 20 de Junho

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