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Coitadinha de Angola...

Você acaba de contribuir com 14 euros para ajudar as finanças de Angola

7:55 Quinta, 28 de Janeiro de 2010
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1. Parabéns, caro leitor! Você acaba de contribuir com 14 euros para ajudar as finanças de Angola. Temos de ser uns para os outros. Portugal vai emprestar 140 milhões de euros a Angola. Já estávamos endividados, ficamos um bocadinho mais - dá 14 euros por cada português. Repetimos o acto do estadista de setecentos que, para disfarçar a penúria das finanças nacionais, mandou cobrir meia dúzia de barricas cheias de sal com moedas de ouro e mostrou-as ao diplomata estrangeiro, fazendo-as passar pelo tesouro nacional. O conto do vigário diplomático parece agora virar-se ao contrário. Ninguém sabe se e quando reavemos o dinheiro. Fidalgo falido, Portugal espreme os últimos trocos do porta-moedas e faz figura de rico: na tranche do FMI para Angola, de 2,35 mil milhões de dólares, o nosso país contribui com 200 milhões, tanto como o Brasil. Somos o pelintra a fazer figura em casamento rico: damos uma prenda igual à dos padrinhos e ficamos a pão e água o resto do mês.

Para que quer Angola, país com um crescimento do PIB previsto de dois dígitos, em 2010, produtor de petróleo, Eldorado africano, que compra, em Portugal, mundos e fundos, tantos milhões de dólares, com esta urgência toda? Aparentemente, para evitar uma ruptura de divisas. Em 1892, os credores europeus exigiram ao presidente do Conselho de D. Carlos, José Dias Ferreira, o direito de supervisão sobre as Finanças portuguesas, antes de nos emprestarem mais dinheiro. Obviamente, Portugal recusou essa perda de soberania e preferiu a bancarrota. Ora, os fluxos de créditos para Angola deviam ser acompanhados pelos credores. O percurso do dinheiro e a sua aplicação deviam ser supervisionadas, à imagem da exigência que nos foi apresentada, a nós, no passado.

Percebe-se a intenção. Portugal evita ser totalmente preterido pelos angolanos, nos negócios, a favor dos brasileiros. Com a concorrência acrescida de espanhóis, franceses e chineses, o nosso país tem de fazer das tripas coração e continuar a pagar toda a espécie de "imposto revolucionário" que Luanda volta e meia nos exige. Quem lucra? Para não falar de outros "esquemas", lucram, por exemplo, a GALP e boa parte da banca nacional. A dependência de Angola obriga a vergar a cerviz. Nós é que não vemos nenhum.

2. Manuel Alegre escolheu um timing estranho para lançar a sua candidatura. Fê-lo quando as atenções mediáticas estavam viradas para o terramoto no Haiti e, internamente, para a discussão do Orçamento do Estado. Alegre sabe que só ganha com o apoio do PS, e, portanto, avança antes que o PS arranje outro. Sabe, ainda, que, depois de apoiar Sócrates, antes das últimas legislativas, o primeiro-ministro lhe deve um favor. Mas sabe, igualmente, que não pode, a partir de agora, atacar o Governo com a verve do costume. Sócrates também sabe isso e, das duas uma: ou prolonga o mais possível o silêncio em torno do apoio do PS, à espera do movimento de Cavaco Silva, mantendo Alegre na expectativa e controlado, ou apoia-o imediatamente a seguir à aprovação do Orçamento, para dar uma piscadela de olho à esquerda (contrabalançando o entendimento com a direita...) e comprometendo, desde já, o candidato. No fundo, Alegre e Sócrates precisam um do outro. E Louçã, que, na ânsia de entalar o PS, se precipitou a apoiar o poeta, terá de esperar sentado que Alegre acompanhe o Bloco, na futura marcação ao Governo socialista. Até porque o apoio bloquista "já cá canta".

Palavras-chave  sexto sentido, opinião, Filipe Luís
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mais votados ▼
Um país de pelintras generosos!
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 13:33 | Quinta, 28 de Janeiro de 2010
Caro Filipe Luís,
Vamos então por partes, que o seu artigo é excelente.
Portugal vai emprestar 140 milhões de euros a Angola, apesar da nossa dívida externa já ultrapassar os 100% do PIB (e as ameaças das agências de 'rating' ). Ou seja cada um de nós contribuiu com 14 euros... que depois nos vão ser devolvidos?? a "penates" ou seja através das empresas e dos negócios do costume, em artigos de "griffe" , já que as elites do regime angolano constituem hoje 30% do mercado de luxo português.

2. Manuel Alegre: como vai ele articular a sua candidatura, se ao anunciá-la o que fez foi condicionar o partido em que milita? O Bloco de Esquerda viu uma oportunidade de ouro de "entalar " o PS ao apoiar Alegre. Mas não é um dado adquirido que, no interior do Bloco, o nome de Alegre seja consensual. Os apoios que recolheu até agora ...valem o que valem... valem pelo menos algum desconforto a JSocrátes, que se limita a dizer ...que a seu tempo tratará do assunto presidenciais.
Sara
    Re: Um país de pelintras generosos!   
Filipe Luís (seguir utilizador), 1 ponto , 19:15 | Quinta, 28 de Janeiro de 2010
    Re: Um país de pelintras generosos!   
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 12:24 | Sábado, 30 de Janeiro de 2010
    Re: Um país de pelintras generosos!   
Filipe Luís (seguir utilizador), 1 ponto , 15:58 | Quarta, 3 de Fevereiro de 2010
Só 14€? Quero investir mais...
olhameste (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 15:56 | Quarta, 24 de Março de 2010
Sr. F. Luís, desde quando emprestar dinheiro é fazer caridade? Não tem estado atento aos

resultados da banca em Portugal, Pois não?

Não quero ser mal educado, mas o que aqui escereve sobre o empréstimo a Angola, não tem ponta por

onde se lhe pegue. Ao que percebi, a informação sobre este malfalado emprétimo é parca, o que

ajuda a entender o que aqui escreve, ou seja, explica mas não justifica.

De há uns anos para cá que em Angola se trabalha com linhas de crédito estrangeiras, primeiro do

Brasil, depois, em grande força, da China e agora, timidamente, de Portugal.

Como funciona? É simples, por ex: O brasil empresta 1.000.000usd e o governo angolano gasta esse

dinheiro adjudicando obras a empresas brasileiras a trabalhar em Angola. No caso da China, o

governo angolano nem precisa de se preocupar em pagar o empréstimo, basta que permita que os

chineses explorem petróleo e diamantes que permitam pagar o empréstimo. Ora veja lá bem, eles

emprestam, fazem o trabalho e encarregam-se de receber o dinheiro, sem estórias de filantropia e

perdão de dividas. Não é bom negócio? Fazem a festa, lançam os foguetes e panham as canas...

Claro que esta não é a melhor altura para fazer um empréstimo, com esta crise... só agora abrimos

os olhos, o governo só agora percebeu que emprestar dinheiro não é caridade, é o negócio dos

bancos mas parece que ainda há muita gente que não se apercebeu disso.
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