A luta de classes está a voltar, sob nova forma, mas com a violência de há cem anos: agora é o capital financeiro a declarar guerra ao trabalho
3:27 Quarta, 2 de Junho de 2010
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Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os actores sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos. Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista.
Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de protecção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acumulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos laborais (facilitar despedimentos, reduzir indemnizações).
A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul. A Europa está a ser vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da devastação social.
O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 mil milhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 mil milhões para salvar o sistema financeiro europeu? A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho.
O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois factos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia.
A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
Bem analisado por Boaventura Sousa Santos.De facto,verifica-se que
se em cada País da chamada União Europeia,há profundos fossos a
separar as classes sociais,consequentemente também os há na UE.
São o egoísmo,o fariseísmo,o cinismo,enfim á a pulhice humana que
domina,mascarada de popular,mas cheia de demagogia para levar
o Povo à certa.E de facto consegue atingir os seus fins,utilizando,
por exemplo,não só o fanatismo religioso,mas também o fanatismo do Futebol,que divide a Plebe em facções inimigas que se agridem
brutal e inconscientemente,para gozo da Burguesia que adopta o
lema «dividir para reinar».Pois aqui na Holanda,há 19 Partidos Políticos que concorrem às Eleições para o Parlamento,no dia 9 dêste mês e alguns dêstes Partidos,são umas «capelinhas»locais.
Ora isto só demonstra que o povo está muito desunido.Mas claro
está que serão os Partidos da Alta e da Média Burguesia,que detéem
o Poder Económico,que irão ganhar a maioria de Votos para formar
o próximo Governo,que será de Coligação de dois ou mesmo três Partidos defensores do Liberalismo Económico,do Livre Mercado,
e da Horda mercenária da NATO.
Com populismo e demagogia,
muita mentira,verdade parece,
mas em liberdade e democracia,
cada Povo tem o Governo que merece.
"Não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe."
Essa agora...
Então, mas o que é que impede a economia portuguesa de produzir quanto queira? (assim ela tivesse 'a arte e o engenho'.) Vá lá, Professor, eu sei que o senhor sabe, diga-nos na próxima crónica, valeu?
Nunca comentara qualquer texto. Nem o vou fazer. Mas creio que este escrito bem se pode harmonizar com o que escrevi e se encontra aqui igualmente em discussão.
Bem haja, pela voz de cidadania e reforço da opinião pública
O Brasil que decola às custas do mal-estar social.
É interessante para mim, brasileiro, ver a "Visão" dos portugueses sobre a derrocada européia, agora tornada pública e patente no mundo todo - já que me parecem efetivamente os mais inteligentes daquele continente (dentre os países do bloco UE e que não foram comunistas). Querem defender uma postura de identidade do modo de sociabilidade europeu, o que é bastante equivocado. A Europa não tem essa unidade, o modo de sociabilidade europeu foi constituído num modelo essencialmente competitivo. Em Paris tem-se a sensação de que todas as nacionalidades estão competindo entre si, de que todo mundo queria protagonizar a união européia.
A intuição do Boaventura Santos é correta: ele percebe que o que se anuncia no modo de produção capitalista vai custar a carne do povo. Ele percebe que não é bom o novo esquema protagonizado pelos BRIC. Mas ele propõe algo que nao pode mais ser proposto hoje, que é o estado de bem estar-social. Este não pode mais existir na Europa porque as antigas colônias europeias ou estão "decolando" (Brazil takes off), ou servindo a quem decola. Os europeus cometeram o pecado capital de transferir os centros de produção industrial pras colônias. A Europa nao é autosustentável, autônoma na reprodução da vida. Esse é o problema. Um efetivo bem-estar social só pode existir quando o lugar for autônomo! E esse lugar autônomo será SEMPRE uma utopia A MENOS QUE (se e somente se) trate-se do lugar MUNDO (totalidade).
Quero dizer, portanto, que o bem-estar social só pode existir num modo de produção global que não seja orientado pelo capitalismo. Podem fazer birra, podem chamar os sindicatos, podem chamar as feministas e o circo todo: nao vai adiantar NADA! É a história real dos movimentos reais que chegou para debochar fatalmente a utopia européia do bem estar no capitalismo! (Espetáculo ímpar da falência das gentes européias acostumadas a pensar que podem configurar um lugar à parte dentro do modo de produção capitalista, um receptáculo dos fluxos de mais-valia).
O capitalismo é, pelas regras genuinas de seu funcionamento, um movimento GLOBAL (e não é à toa que ele promoveu a globalizaçâo). O capitalismo e todas as suas manifestações tem essa direção, a mundialização. E qualquer que seja a superação dele, mesmo as parciais (estado de bem-estar social), SÓ PODEM EXISTIR DE MODO AUTO-SUSTENTÁVEL NUM MOVIMENTO GLOBAL. Convido a todos visitarem o blog http://brasilescarlate.bl... . São tratados os temas desta decolagem do Brasil, e o custo disso em carne humana. A reflexão tem que ser feita mundialmente.
"Cidadãos europeus, Uni-vos!" Este era o slogan afixado num cartaz do Partido Comunista da Grécia, aquando das recentes manifestações dos gregos contra a austeridade imposta pelo capitalismo financeiro por causa do deficit das suas contas públicas. Boaventura Sousa Santos exprime-se bem, é eloquente! Mas o que ele propõe já demonstrou que não é durável. Mais do que voluntarismos, naturalmente louváveis, revoluções que descambam para ditaduras com muita facilidade, são necessárias mudanças que serão talvez lentas, mas que me parecem mais duráveis e portanto mais efectivas.
Aliás, o kizzaka já o disse "o que é que impede a economia portuguesa de produzir quanto queira?. Vá lá, Professor, eu sei que o senhor sabe". Mas eu vou dizer mais.
O saber e o conhecimento é que libertam os cidadãos e os povos e lhes dão capacidade para se conduzir e afirmar. Quanto mais qualificados e em maior número forem os cidadãos mais aptos estarão para se unir e lutar. O sistema docente não pode afirmar que não tem nada a ver com o insucesso escolar e o abandono escolar. O sistema docente tem que "arrastar" o sistema discente para a necessidade e a urgência de adquirir os conhecimentos e de os proporcionar. Para isso tem que motivar e estar motivado. Não pode dizer que a culpa deste estado de coisas é do aluno, dos encarregados de educação e do governo. Tem que agir, pode agir, tem (deve ter!) cultura para essa atitude!
É sabido que muita da corrupção, talvez a maior parte da corrupção, tem origem nos orgãos de decisão das empresas, e também nos decisores políticos.
Há escolas de Economia e Gestão, penso que o INSEAD é uma delas, que já estão a incluir nos seus curricula matérias de Ética e Deontologia de modo que os seus formandos vão adquirindo conhecimentos e saberes mostrando as vantagens e méritos dum comportamento baseado no respeito por tais saberes e conhecimentos.
"É de pequenino é que se torce o pepino". E se queremos gestores e decisores socialmente responsáveis, e políticos que moldam o seu comportamento por regras baseadas na Ética e na Moral(não tem a ver com religião), então o sistema de ensino deve saber inculcar nos futuros responsáveis respeito por essas regras.
O colunista, docente numa escola de Economia, o que é que acha acerca da matéria?
Este bem-aventurado Boaventura vive não sei em que galáxia,mas decerto não é na Terra.Este sociólogo--falta-lhe tudo para filósofo -- adianta uns preceitos de esquerda à Fourier,esquecido que estamos no século XXI e as realidades são estas .Esta dos europeus unidos contra os financeiros é de uma ingenuidade espantosa.Com se os europeus (ou portugueses ou quem seja) alguma vez se unissem e tivessem os mesmos interessses.Depois,enfia-lhe os do costume,homessexuais,imigrantes,etc,como se estes também não fossem tão diferentes un dos outros e com interesses até opostos.Depois,vem com o fantasma do fascismo,mas passa por cima do comunismo à Eataline,à Jong IL,à Fidel,decerto para ele grandes promotores de bem-estar.Eu espero que este Boaventura nem tenha conta num banco e não receba nada por tão perspecazes afirmações.Portanto, estou à espera: ou os europeus se unem atrás da bandeira de Boaventura --- e a Europa muda;ou vem aí o fascismo.E eu,francamente,não sei o que será pior.
E quem é o culpado ? É só a direita? Ou a esquerda, que com a sua loucura e arrogancia, proporcionou a "gestão dos contra-golpes" a quem nunca aceitou perder...,?
Será que os temas politiqueiros e a usurpação, da palavra gasta das "lutas" , não tem feito apenas e só, criar um caminho aberto para que se promovam, a destruição do movimento sindical,da militancia sindical e da não adesão a cauas laborais? A criação de um clima de alheamento e afastamento dos reais problema que as classes media e baixa , se debatem , sirve à direita, para tecer praticas de sua promulgação e clara execução de politicas direitistas e sem terem consonancia com o que a OIT deveria promover e defender?
Assistir-se a atitudes de confronto como na GRECIA, só porque uma certa esquerda, não abdica dos seus metodos e não cresceu, para com o que a CRISE lhe fez, perceber que é no dialogo que vencerá estes impasses.
Não me parece Meu caro, que a velha estrategia de LUTA, sem rumo e só por interesses estrategico partidarios, venha a ser proficua ou valorizativa, para a classe trabalhadora; em face do que temos assitido, é claramente condenatoria, de grande parte da conquistas de Abril.
Os tempos são outros e como tal, as tecnicas de contestação, têm que ser outras e NUNCA voltar aos processos já causticados,fazendo e parecendo ser uma imagem(...) de força, mas que nada resulta , apenas e só, o desgate dos que ainda acreditam no espirito da Revolução de Abril.
Hoje em dia não há fenómenos isolados. Estamos perante um complexo sistema de vasos comunicantes e não é evidente ( ou sequer fácil ) aferir onde está a fuga.
A Europa chega ( devagar ) à conclusão que a globalização tem custos insustentáveis.
Não é possível deslocalizar a produção para o exterior ( onde a mão de obra é paga a preço de escravidão, países sem a factura da segurança social ou sistemas de saúde ) e na Europa continuar tudo como dantes.
Esta "solidariedade" Europeia tem como beneficiários empresas transnacionais e não os cidadãos Europeus ou os pobres e explorados trabalhadores desses países para onde se deslocaram as fábricas até há anos Europeias.
A globalização é impossível se não houver regras comuns aos países. É um conceito romantico mas de consequencias trágicas para os países desenvolvidos. Trata-se de nivelar por baixo e não o inverso.
Para a Europa significa um retrocesso civilizacional de muitas décadas.
Não foram acautelados os interesses da Europa.
Compete aos Europeus parar o processo.