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Crónica Gestão de Fraude

Chegaram as Auditorias "milagrosas"!

Mais uma crónica da secção Gestão de Fraude, desta vez da autoria de Nuno Moreira

5:16 Quinta feira, 10 de Dez de 2009
Chegaram as Auditorias "milagrosas"!

O leque de empresas supostamente envolvidas na teia de negócios do processo 'Face Oculta' não parou de aumentar. E são empresas com departamentos de Auditoria Interna, sujeitas também a Auditoria Externa /Revisão Oficial de Contas e até empresas cotadas, sujeitas a supervisão pela CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários).

Temos "filtros" para todos os gostos mas, reconheçamos, pouco eficazes a detectar a Fraude.

Porquê que a rotina habitual do trabalho de Auditoria (Interna e Externa), habitualmente, não detecta a fraude? Porquê que a Auditoria só chega a conclusões acerca da avaliação do risco de fraude ou acerca de situações de fraude efectiva, em trabalhos de carácter extraordinário, "contratados" para o efeito?

A grande maioria não percebe, e é indispensável explicar, sob pena de a nossa sociedade se permitir duvidar do valor da função de Auditoria.

É benéfico a sociedade estar atenta, pressionar e "puxar" pela função de Auditoria, contribuindo para a sua evolução mas o gap entre o que a sociedade crê que são as responsabilidades dos Auditores e a responsabilidade efectiva e actual da função de Auditoria não pode ser excessivo, sob pena desta importante função sair descredibilizada.

A Auditoria "Tradicional" que conhecemos tem limitações no confronto directo com a Fraude, desde logo, pelo facto dos seus standards não lhe atribuírem actualmente uma responsabilidade primária no seu combate. Mas também, limitações que decorrem da sua própria metodologia e pressupostos, nomeadamente, por ser governada pela "Materialidade" e recorrer a técnicas de amostragem; aliás, assumido na "segurança razoável" (reasonable assurance) das suas conclusões.

Mas então, porquê pedir uma 2ª vez a estes Auditores para realizarem, agora, uma Auditoria diferente, "Milagrosa", perspectivando mesmo concluir, com "segurança "absoluta", acerca de situações de Fraude? Será que da primeira vez não atenderam à Fraude?

Não tenho qualquer dúvida que temos em Portugal, de uma maneira geral, excelentes profissionais, excelentes Auditores. O problema prende-se, sobretudo, com o objecto e objectivo de uma Auditoria "Tradicional" e os de uma Auditoria da Fraude (proactiva e reactiva), os quais são bem distintos e que, no segundo caso, implicam uma abordagem específica e competências pessoais significativamente mais abrangentes.

A propósito do processo "Face Oculta", temos vindo a assistir a solicitações de trabalho a que podemos denominar de Auditorias da Fraude, neste caso reactivas, mas que se insistiu em pedi-las aos Auditores "Tradicionais". Não creio que sejam tão eficazes como o desejado!

Não porque os respectivos profissionais não sejam competentes, mas porque estão "formatados" e vocacionados para outro tipo de Auditoria, a qual faz parte do seu dia-a-dia e onde têm muito mais experiência.

Os nossos Auditores não podem querer ser "Super-Homens" e ao ter delegado, desde início do século passado, a responsabilidade (primária) pela prevenção e detecção da fraude ao Órgão de Gestão das Empresas, indicia claramente a consciência e o reconhecimento dessa limitação.

Assim, colocam-se necessariamente 2 alternativas à Auditoria "Tradicional", cuja opção terá que ser rapidamente tomada:

  1. Está disposta a recuperar uma responsabilidade primária no combate à Fraude, a qual já assumiu até finais do século XIX ?
  2. Entende que esta responsabilidade deve permanecer no Órgão de Gestão das Empresas ?

 

Na primeira alternativa, pelo referido anteriormente, urge tomar uma decisão adicional. Olhando a algumas boas experiências no contexto internacional, em Portugal, ou a função de Auditoria cria uma especialização dedicada especificamente ao fenómeno da fraude ou teremos de criar uma classe profissional autónoma e preparada para o efeito, cujos alicerces não deixarão de se sustentar parcialmente na Auditoria.

A maior associação profissional mundial (ACFE - Association of Certified Fraud Examiners), sedeada nos EUA, desenvolve-o autonomamente. A especialização também é uma opção válida; se os Médicos se especializam, se os Juristas também e se até os Técnicos Oficiais de Contas, falam já em formar "colégios de especialidade", porquê que a Auditoria há-de resistir?

Sobretudo, urge tomar uma decisão e avançar rapidamente num combate efectivo à Fraude e não com soluções de compromisso!

Na segunda alternativa, caso a Auditoria não queira formal e publicamente assumir uma responsabilidade primária no combate à fraude, então, inevitavelmente, a gestão de topo das nossas empresas vai ter que assumir de uma vez por todas uma responsabilidade que já é sua, por delegação da função de Auditoria.

Não tenham receio em criar departamentos internos de "Gestão de Fraude" e formar adequadamente a respectiva equipa. Se recearem denominá-los desta forma, chamem-lhe "Gestão de Risco" ou "Auditoria Interna e Gestão de Risco" mas não descurem nunca uma responsabilidade primária no que respeita ao fenómeno da Fraude. A relação custo /benefício destas "equipas", que se desejam multidisciplinares, será certamente favorável às empresas e, sobretudo, à nossa sociedade. Desde logo, por uma questão de responsabilidade social!

Temos desde 2008 em Portugal, sendo também inédito a nível europeu, uma formação especializada em "Gestão de Fraude" pela Universidade do Porto, a qual prepara inclusive para a certificação pelos EUA como Certified Fraud Examiner, bem como, um Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), o qual, naturalmente, tem estado atento a esta e a outras questões, em especial, no desejo de contribuir e ser parte activa na busca de alternativas válidas no combate à fraude em Portugal. Assim queiram os decisores deste país e, em menor escala, os responsáveis pela gestão das nossas empresas!

Palavras-chave   Crónica   Gestão de Fraude
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Auditorias
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 13:32 | Quinta feira, 10 de Dez de 2009
As fraudes, os conflitos de interesse e a corrupção existem nas relações entre empresas e instituições públicas. Mas também existem dentro das empresas, na banca, em vários grupos profissionais...
De facto, enquanto houver pessoas que, com a sua decisão, podem fazer com que outros ganhem ou percam milhões de euros, há incentivos à corrupção. Enquanto houver pessoas a gerir e a dispor de dinheiro que não é seu,... há incentivos a que o tornem seu. O que podemos fazer? Em primeiro lugar é importante que as decisões sigam regras claras e conhecidas por todos, fazendo com que o "decisor" pouco possa beneficiar, atrasar ou prejudicar alguém.
Em segundo lugar aumentar a transparência, impedindo a permeabilidade dos "decisores" a presentes, cunhas, comissões e outros pagamentos.
Em terceiro lugar criar práticas de gestão preventivas, fazendo rotação de trabalhadores que decidem certas compras ou vendas, fazendo depender de mais do que uma pessoa a relação com cada fornecedor ou cliente.
Em quarto lugar fazer fiscalização...fiscalizar quem fiscaliza e quem é responsável por compras, contratações ou atribuições de licenças. Fazendo por ex. auditorias externas ...específicamente dedicadas à detecção da "fraude interna".
Quantas empresas têm estas medidas de controlo implementadas? A verdade é que muitos dos problemas de fraude e corrupção acontecem mesmo ao nosso lado.
Cumprimentos,
Sara
Auditorias
Maria Trindade (seguir utilizador), 1 ponto , 11:03 | Quinta feira, 10 de Dez de 2009
Da leitura do texto, ficamos com a esperança que há condições de evitar no futuro , as fraudes que se tem verificado permanentemente, o problema será mentalizar empresas e governos que têm de tratar este assunto com urgência e seriedade.
Não pode ser deixado ao critério das Empresas a gestão das fraudes,tem de ser um imperativo público.
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