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Haiti - Janeiro 2010

O nosso leitor José Leitão enviou-nos este texto

É este o grito de dor e o coro dos mortos, que me rasga o peito no dia da desgraça, onde tudo cai em cima dos desvalidos, e levanta o pó da miséria, e o pálido brilho de vidas que jazem nos escombros, deixando voar as suas almas por caminhos não esperados.

Oh... secretas moradas destroçadas, que escrevestes rasgos e traços, como se a primavera fosse arrasada, pelos temporais lançados pelas mãos da tempestade.

Não é este o fruto amaldiçoado, não é esta a hóstia que deste aos crentes, nem foram as rezas dos domingos que deixaram o pássaro em paz, nem os filhos de Deus! Foi a verdade crua e nua que entrou nas casas sem bater à porta, arrasando o olhar de tristeza, transformando os quartos do amor em vultos baços, gelados e caídos nas poças dos seus sangues.

São os ventos da desgraça que agitam as palavras do poeta, que declamam sobre as águas encrespadas, desse mar de placas criminosas que nos naufraga no mar e na terra.

Sinto-me triste, muito triste e zangado no meio do pingar do sangue anunciando o silêncio do medo, num derradeiro uivo de sofrimento até ao gélido roxo da morte.

Não posso afastar-me das aves de asas manchadas, que querem partir no voo da esperança, e aí juntarei a minha voz ao gemido dos inocentes.

15 de Janeiro de 2010 

 

José Leitão - Ukkotta  

José Leitão
14:03 Segunda, 18 de Janeiro de 2010

O Canto da Cotovia

Um poema enviado pelo nosso leitor António Miguel dos Santos

Cada vez que canto

cala-se a cotovia

e cala-se a solidão

entre nós e quem nos ouvia.

 

 

É um maldito este estar

este de não ouvir

nem sequer o chorar

da própria solidão a rir.

 

 

Vai-te embora

que eu já fui

já fui e estou agora

a expulsar a agonia

no pranto que não se cala

e me impede

de ouvir a cotovia.

 

 

Vou esperar

se não seu canto

uma cotovia a voar.

António Miguel dos Santos
10:25 Quinta, 14 de Janeiro de 2010

Carta de um leitor

Um Mundo de bolso

O nosso leitor Álvaro José Ferreira fez um cometário sobre o artigo Um Mundo de Bolso, em que Manuel halpern fazia uma revisão musical dos anos zero

Caro Manuel Halpern,

 

Li o seu artigo intitulado "Um Mundo no Bolso", na última edição do "JL", em jeito de balanço da música portuguesa (não erudita) da primeira década do séc. XXI (que na verdade só termina no final de 2010) e tomo a liberdade de lhe comunicar que estou genericamente de acordo consigo. Apenas lhe faria uma observação. Gostaria que tivesse prestado mais atenção à música tradicional/folk que, tal como fado, teve um grande florescimento na década inaugural do presente século. A década de 90 terá sido a década de maior apagamento, embora nela tenham surgido grupos/intérpretes tão importantes como Navegante, Gaiteiros de Lisboa, Frei Fado d'El Rei, Realejo, Danças Ocultas, Quadrilha, Amélia Muge e Filipa Pais, mas é efectivamente já no século XXI que a música de raiz tradicional ganhou um novo impulso, depois do período áureo que se registou no pós-25 de Abril de 1974 até meados da década de 80, com grupos/intérpretes como Almanaque, Brigada Victor Jara, Vitorino, Teresa Silva Carvalho, Janita Salomé, Terra a Terra, Raízes, Vai de Roda, Pedra d'Hera, Ronda dos Quatro Caminhos, Xaranga, Rosa dos Ventos, Disto & Daquilo... sem esquecer os Trovante pelo importante contributo que deram ao movimento sobretudo com o álbum "Baile no Bosque" (1981). De facto, foi após o ano 2000 que apareceu e/ou se afirmou um acrescido lote de grupos e músicos de assinalável qualidade, uns mais ligados à tradição portuguesa outros mais cosmopolitas, por assim dizer. Cito-lhe alguns: Galandum Galundaina, Roda Pé, Dazkarieh (que por acaso até referiu no seu texto mas muito de fugida), Roldana Folk, Mandrágora, Mu (estes dois já distinguidos com o Prémio Carlos Paredes), Ginga, Banda Futrica, Segue-me à Capela, Moçoilas, Manuel d'Oliveira, Lúmen, Chuchurumel, Diabo a Sete, Pé na Terra, Fol&ar, Gnomon, Monte Lunai, A Barca dos Castiços, Roncos do Diabo, Ventos da Líria, Assobio, etc. (estes e muitos outros podem ser vistos e ouvidos em http://www.myspace.com/lugaraosul). Para a pujança e fulgor do movimento, além de importantes festivais e certames musicais (de que o FMM de Sines talvez seja o mais mediático), é de primordial importância o papel desempenhado por editoras independentes (Açor/Emiliano Toste, Vachier & Associados, Ocarina e Hepta Trad, por exemplo) sem as quais excelentes discos não teriam vindo a lume. Digna de menção é igualmente a dedicação de alguns realizadores de rádio, designadamente Luís Rei ("Terra Pura"), João Sá ("Folklândia"), Carlos Norton ("Sopa da Pedra"), Jorge Costa ("Multipistas") e Octávio Fonseca ("Os Cantos da Casa"), que em rádios locais e na internet (com o podcast) vêm prestando um serviço de divulgação que é de toda a justiça enaltecer. O que não pode deixar de se lamentar é a atitude de marginalização e menorização das rádios nacionais (incluindo a pública Antena 1) face a este interessantíssimo fenómeno da nossa vida musical, instrumentalizadas que estão pelas majors, que, como é sabido, enjeitaram por completo a música tradicional/folk e apenas se empenham em promover um género que está completamento gasto e estafado - a pop. Talvez não seja um acaso que o florescimento das músicas de raiz (fado e música tradicional) coincida precisamente com a decadência do género de feição menos identitária. Algo está a mudar na música portuguesa e ainda bem que assim é.

 

Cordialmente,

 

 

Álvaro José Ferreira

Álvaro José Ferreira
19:51 Domingo, 10 de Janeiro de 2010
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