O Povo vota em quem mais lhe ordena ou então não vota em quem lá estava e lhe não fez as individuais vontades. O Povo não tem qualquer tipo de critério, ideologia ou sentido comunitário. O Povo é muito pouco educado e desata a ter desastres de automóvel assim que chove, o Povo bate nas crianças e na mulher quando o seu clube ou a selecção nacional perdem. O Povo bate na mulher e nas crianças mesmo que o seu clube ou a selecção ganhem. Ou mesmo que não joguem. O Povo discute política, futebol, gajas, etc. sempre com um qualquer sentimento de frustração, sempre de lado, sempre ao balcão ou à mesa de um café, a falar de perfil. O Povo acha que o que é preciso é que o país tenha alguém providencial, de pulso firme e que meta toda a gente na ordem, principalmente os tais, os aqueles que ele, Povo, não conhece, que ele, Povo, não frequenta, políticos, paneleiros, estudantes universitários ou outros por ele nem sempre classificados. Por outro lado tem uma contradição (entre muitas) que consiste em gostar de gostar, de aplaudir, de votar (alternativamente - à esquerda, direita, esquerda assim-assim, direita híper-reaccionária, etc., não interessa, o Povo não tem ideologia, já se disse) de votar em pessoas razoavelmente noticiadas na imprensa escrita ou na televisão, em pessoas tristemente colunáveis, em pessoas oportunistas, em pessoas em que ele, Povo, hipoteticamente se revê - nos espertos, nos vígaros, nos que conseguiram ser alguém, ter poder - assim uma espécie de heróis de banda desenhada de outrora (sem ofensa para os heróis da banda desenhada de outrora) mas uma espécie de heróis algo diferente, pois é suposto aos heróis da banda desenhada terem o estatuto de bons, abnegados, corajosos, etc. O que não acontece com estas personagens existentes, embora também elas sejam mitos mas de mais do que comprovada desonestidade, oportunismo e ausência completa de escrúpulos. O Povo não sabe o que quer dizer escrúpulos nem tem de se preocupar com isso, o Povo sabe, lá no fundo da sua desinformação e ignorância de quase tudo, que eles - os tais que aprecia, os tais em quem vota e que aplaude freneticamente pelas ruas desta imensa aldeia que é Portugal - são corruptos, desonestos, suspeitos, demagogos baratos. Não é bem assim, o Povo sabe lá o que é um demagogo, ainda por cima barato, o Povo vota nuns e quatro anos depois vota nos outros e quatro anos depois vota outra vez nos mesmos e assim sucessivamente, sempre à espera não se sabe bem de quê, talvez safar-se dos impostos, sacar o mais possível, aumentar o poder de compra, há um mistério às vezes no Povo que o torna fascinante e até mais interessante de se analizar.
Nos intervalos da decisão de voto, o Povo come, arrota, dorme, cospe e deita papeis para o chão, lê o Dia e o Correio da Manhã e vê talk-shows e telenovelas e tudo o que a televisão lhe oferece solícita, excepto programas de música clássica, culturais ou de informação - que aliás são poucos ou nulos, para descanso, simplicidade e facilidade de decisão, na escolha da hora e do canal respectivo. O leitor: ALTO! Mas que texto tão reaccionário, tão classista, tão irresponsável é este? Será de um gajo de direita? De esquerda não é, com certeza, uma pessoa bem formada, informada e de esquerda não subscreve uma coisa destas, assim, digamos, tão fascizante. Mas de direita também não pode ser! Ninguém de direita, inteligente e no seu pleno juízo, escreveria coisas tão horríveis como esta, o povo, de tão vilipendiado, não gostaria, sentiria revolta ao menos por uma vez e vingar-se-ia de algum modo. O autor: Vamos por partes, há que ter calma, nada de juízos precipitados, deixem-me intervir. Para já, vamos lá a saber: o que é isso de Povo? Esta expressão é usada há séculos, todos os dias, ao longo de toda a nossa História, monarquia, ditadura, revolução, sempre e até aos dias de hoje. Digamos mesmo que há uma abusiva utilização do termo, às vezes com estranhos e contraditórios sentidos. Mas então o que é o Povo, o que é realmente isso de Povo? Afinal qual é o significado desta palavra tão curta, tão simples, que todos conhecem tão bem e que ninguém se atreve a definir? Serão as pessoas que estão numa igreja, a ouvir a missa?É toda a gente que está num estádio de futebol a aplaudir ou a vaiar?São as pessoas que enchem o Teatro de S. Carlos, ou uma sala de cinema?São os habitantes de Lisboa, do Porto, de Coimbra, de Passos de Ferreira?Os ocupantes de um transporte público, de um elevador de um autocarro?Os telespectadores alarves de um espectáculo de música pimba?Os telespectadores atentos de um filme de culto?As pessoas que cruzam a Av. da Liberdade? A Av. dos Aliados? E quantas?Qual o mínimo de pessoas necessário para se lhes chamar Povo? Dez? Quinze? Vinte, cem mil, dois milhões? Quatro pessoas num táxi (ou numa carroça) são povo? Isto não é fácil. Estas questões são pertinentes e supostamente não têm uma resposta adequada. Ou seja, há Povo que cospe para o chão e Povo educado que o não faz. Haverá Povo absolutamente inculto, ignorante de quase tudo mas também existe Povo que pensa, que pesa, que possui uma cultura geral, bom senso, equilíbrio.
Há gente (leia-se Povo) desonesta que se farta e outros haverá que são honestos, que têm valores. Mas a questão subsiste, subsistirá sempre. O que é o Povo?
(Houve um indivíduo, esse sim, raccionário com certeza, que afirmou em tempos, existir a palavra
Público, esta com definição. Público não é mais do que o Povo, um pouco mais bem vestido - sic.
Um cretino pretensioso, em suma).
Fui eu, confesso-o. Portanto.
Já deviam ter percebido, os que me lêem, que aquele texto acima, naturalmete não se vos referia, leitores amigos. Nem se refere a ninguém, trata-se de pura ficção.Vocês são Povo também (como eu) mas são pessoas que não agem como atrás descrito, naturalmente. O texto é lido (e está com certeza a ser lido) por pessoas de esquerda, pessoas inteligentes e cultas, pessoas (Povo, porque não?) que não se revêem naqueles arquétipos. É sempre assim, é ou não é verdade? Ora vêem como a tal palavra, que todos conhecem, é uma arma de vários gumes, uma palavra aparentemente simples, banal, afinal difícil, afinal discutível - embora utilizada à exaustão e ao exagero por toda a gente. Eu diria que é uma palavra perigosa, pois pode dar (como deu, tenho a certeza) origem a sentimentos de revolta aos que leram o texto acima.
Claro que eu poderia, eu deveria era tê-lo escrito de outra maneira, como por exemplo:"O Povo (salvo algumas e honrosas excepções) vota em quem mais lhe ordena ou então em quem lá estava e lhe não fez as individuais vontades. O Povo (salvo naturalmentealgumas e honrosas excepções) não tem qualquer tipo de critério, ideologia, sentido comunitário. O Povo(salvo evidentemente algumas e honrosas excepções) é muito pouco educado e desata a ter desastres de automóvel assim que chove, o Povo (salvo com certeza algumas e honrosas excepções) bate nas crianças e na mulher quando o seu clube ou a selecção nacional perdem. O Povo (salvando ainda assim algumas e honrosas excepções) bate na mulher e nas crianças mesmo que o seu clube ou a selecção ganhem. Ou mesmo que não joguem. O Povo (salvaria aqui algumas e honrosas excepções) discute política, futebol, gajas, etc. sempre com um qualquer sentimento de frustração, sempre de lado, sempre ao balcão ou à mesa de um café, a falar de perfil".Etc.e por aí fora.
Os pressupostos e todo este raciocínio pedregoso e escorregadio ocorreram-me ao final das últimas eleições autárquicas, mas nunca as publicaria, pois o Povo, o Bom Povo Português linchar-me-ia com toda a certeza, com aquela competência e sabedoria populares que todos lhe reconhecemos. Adeus, querida Berta, saudades aos pequenos, que daqui a quatro anos, já podem ir votar, já que não basta ler, escrever e contar para serem uns homenzinhos.
Leio o seu artigo e quando chego ao fim apetece-me lê-lo outra vez. Não imagino outra maneira de reflectir a realidade deste povo. Porque o povo não se divide em categorias distintas. A única divisão que pode eventualmente ser feita é em função dos valores materiais e mesmo essa não retira a um rico o privilégio de ser povo nem a um pé rapado o selo da nobreza. Podemos ter um rico cheio de canudos, com uma instrução de fazer inveja, mas com uma cultura capaz de por os cabelos em pé a um pobretanas imbuído de um supremo carácter e de uma educação exemplar.
O povo é mesmo isso. Podemos dizer que o povo é isto ou aquilo (salvo honrosas excepções) e vamos dizê-lo tantas vezes até que a sua evolução nos permitirá rectificar e um dia possamos dizer que o povo é isto ou aquilo (salvo vergonhosas excepções). Chegaremos a esse dia? Poderá ser uma utopia.
Para que o não seja é preciso que o povo seja esclarecido (ricos e pobres), que a verdade paire em cada atitude, que se lute contra a corrupção, contra a hipocrisia, contra a mentira, contra a ganância. É preciso revolucionar as mentalidades, modificar os conceitos, modelar a Justiça, consciencializar as pessoas de que é preciso puxar o futuro no mesmo sentido, em função dos interesses gerais e não em função dos interesses de grupos.
Não vou viver o suficiente para poder dizer-lhe um dia que este povo não será o mesmo que descreveu em 2010 com uma clareza que magoa, que fere mas que é tão real que nos confunde e nos envergonha.
Embora tivesse ouvido dizer de alguém com Curso Académico que o Povo não existe,mas sim pessoas,(princípio individualista),eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (86anos),pertenço ao Povo,isto é,àquela classe que também se
chama Plebe.Sei que há muita gente que gostaria que existissem,
como na Idade Média,as três Classes Sociais-Clero,Nobreza e Povo,
mas com o Capitalismo e o Liberalismo,houve muita gente da Plebe
que,devido à sua esperteza ou talento p'ró negócio legal ou ilegal,
conseguíu subir na escala social e tornar-se Fidalgo )filho de algo).
Conta-se um caso dum fulano do Povo que era guarda-livros e que
na Ilha de S.Tomé e Príncipe se distinguíu na recepção dada ao
Príncipe português em visita oficial àquela colónia e houve alguém
que propôs ao Rei D.Carlos que fôsse dado um título nobiliàrquico
ao dito senhor cujo nome era José Constantino ou coisa parecida.
E o Rei D.Carlos fez a seguinte observação:-Mas quem é êste José
Constantino que nem da Silva é?!Em todo o caso foi-lhe concedido o
título de Conde de Valefôr.Não admira que isto tivesse acontecido,
pois o célebre pirata Francis Drake,também recebeu o título de Sir.
Francisco Pizarro era guardador de porcos e ficou na História como
um dos célebres Conquistadores da América latina.Êstes Senhores deixaram de pertencer ao Povo para pertencerem à »Nobreza».
O povo é um conjunto de indivíduos que trabalham e lutam pelos seus direitos, a que chamam Democracia.
O povo são os trabalhadores, que trabalham no campo, no mar, são os operários das fábricas de texteis, de calçado, de automóveis, dos estaleiros navais, da construção civil, são os calceteiros... é todo aquele que trabalha,em troca de um salário, para sustento da família e para se divertir em horas de laser! o povo gosta de trabalhar e de se distrair, desde que se sinta em Liberdade, isto é, receber salário justo, igual ao dos outros trabalhadores que exercem o mesmo tipo de profissão!
Quando o povo deixa de ser livre, ou seja trabalha mais e ganha menos do que outros que têm melhor patronato, o povo fica rebelde, sem maneiras, vive agitado, cospe para o chão, bebe demais para ficar inconsciente, bate nos filhos, na mulher,implica com os vizinhos e aponta o dedo aos políticos, porque não lhes dão oportunidade de ter uma vida digna; então alguns (desculpem o termo), vão para o gamanso: entram em conflitos com as autoridades, vão presos e entram na marginalidade com o maior dos sucessos! outros lamentam-se apenas e esperam nas filas de voto que algo se modifique, são os pacientes(que têm paciência), alguns vivem nos bancos dos jardins e hospitais!
Isto é o que eu defino por Povo! agora pergunto: - será que podemos passar sem ele??? e como!!!
O meu povo é português como eu... somos todos! "os barões assinalados", como dizia - Luís Vaz de Camões.
Sr. Carlos Reis, admiro-o pela sua ousadia de ter escrito este artigo, ainda não lhe tinha agradecido! os caracteres não chegaram, por isso não o fiz ontem, mas ainda estou a tempo, espero que o meu comentário já feito, esteja quase, à altura das suas ideias, que eu acho de muito valor, há coisas na vida que queremos dizer e que são difíceis de interpretar, mas "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena" - Fernando Pessoa.
Cumprimentos.
Pressinto, neste e noutros artigos, e nos respectivos comentários, a demonstração de grande cultura e superior intelecto de muitos comentadores e articulistas. Contudo, pressinto também, mais do que esperaria, muito azedume, desilusão, pessimismo, eu diria quase compulsivos, relativamente ao denominado povo (e relativamente ao país) que é aliás característica de outros espíritos superiores que conheço ou que exercitam o seu intelecto, por vezes até de uma forma um pouco exibicionista, neste e noutros fóruns. Aqui e noutros lugares é frequentemente usada a expressão "este povo" ou "este país" e não, "nosso povo" ou "nosso país", o que é sintomático de um certo distanciamento. Talvez muitas das pessoas de grande cultura e intelecto não se sintam parte do nosso povo. A justificação será talvez que o nosso povo não quer acabar com a corrupção, hipocrisia, mentira, ganância, no nosso país..., o que não será obviamente o caso dos espíritos superiores.
Eu pergunto, serão o nosso povo e o nosso país assim tão maus? Temos muitos defeitos? Temos muito que evoluir? Certamente! Mas haverá assim tantos outros povos neste planeta melhores que o nosso (mesmo incluindo os sub-tipos menos "recomendáveis")? Será que gostariam de ter nascido americanos? russos? espanhóis? árabes? judeus? nórdicos? Não haverá por lá corrupção, ganância? Ou outros problemas? Sinceramente não acredito! É triste quando tantos e tão bons se envergonham tanto do seu povo... Para quê tanto azedume?
É mais mal que diz do povo do que bem. Pois pois, fala de barriga cheia, não se contenta em ser Rei, tem que ser Reis, e é tal a mania da grandeza que também não se contenta em ser Carlo. Ai, ai!
Não sei se ficou entendido que estava a falar para si, sr. autor do texto "Carta à Berta e ao Povo", cuja escrita muito apreciei. Tivesse eu pontos para dar.