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Canino, de Giorgio Lanthimos; Vão-me Buscar Alecrim, de Joshua e Ben Safdie

CANINO E VÃO-ME BUSCAR ALECRIM: O pai, o papá e o papão

Há tanto de amor na negligência quase fatal do pai de Vão-me Buscar Alecrim, como de ódio nos cuidados do pai de Canino. Em ambos os filmes a paternidade é uma causa elevada a um extremo. Uma questão de educação, emoção... e paternalismo.

Manuel Halpern
12:50 Segunda, 2 de Agosto de 2010
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Há tanto de amor na negligência quase fatal do pai de Vão-me Buscar Alecrim, como de ódio nos cuidados do pai de Canino. Em ambos os filmes a paternidade é uma causa elevada a um extremo. Uma questão de educação, emoção... e paternalismo.

Revelam-se também duas perspectivas quase antagónicas do cinema independente, a europeia e a emergente cena americana. À primeira vista há mesmo um oceano a separá-los. Mas observando bem encontram-se filosofias comuns.

Os filmes, que agora se estreiam em salas portuguesas, venceram o principal prémio de ficção dos mais significativos festivais portugueses: o Indie Lisboa e o Estoril Film Festival, respectivamente. E até podemos tentar desenhar um círculo entre eles. No júri do EFF - organizado por Paulo Branco que se dedica ao cinema europeu -  estavam algumas das mais eminentes figuras da cultura mundial, incluindo dois dos mais ilustres artistas nova-iorquinos adoptivos, David Byrne e Cindy Sherman. Premiaram Canino, de Giorgio Lanthimos. Bem nova-iorquinos são Joshua e Ben Safdie, e sobretudo o seu filme, que serve de homenagem à cidade, suas ruas e apartamentos, desde o Central Park ao Teleférico da Ilha de Roosevelt.

Quando os irmãos Safdie receberam o prémio no Indie Lisboa estavam tão eufóricos que até deram um beijo ao presidente da Câmara, António Costa. Mas o maior abraço foi para Miguel Gomes, o realizador de Aquele Querido Mês de Agosto, membro do júri, amigo deles e conhecedor da obra. Só que, curiosamente - eis o fechar do círculo -, apesar do espírito indie em comum, a obra de Miguel Gomes está muito mais próxima de Giorgio Lanthimos. Canino bem poderia ter o selo de O Som e a Fúria.

Comecemos então pela Grécia. Canino inscreve-se numa escola europeia apesar de não de aproximar de forma clara de Theo Angelopoulos, que continua ser a maior referência helénica. A afinidade com Miguel Gomes, à parte de questões formais, começa pelo tema da adolescência e a perspectiva lúdica, só que Lanthimos afasta toda a carga nostálgica, evidenciando traços bizarros e dementes. Aproxima-se assim, por um lado, de uma face surrealista, meia felliniana, mas também de uma crueldade sórdida ao estilo de Michel Haneke, de Funny Games, mas sem desviar para o género de terror (apesar de nos aterrorizar). Talvez também haja um pouco de um outro Haneke, o de Laço Branco, na figura do pai austero. Só que aqui o pai foge dos habituais padrões de austeridade. Existe antes uma caricatura da paternidade super-protectora e controladora, que funciona como uma teoria do bom selvagem de Rousseau invertida. Há uma progressiva 'caninização' da família, numa redoma em que se inventam regras e preceitos sociais, teoricamente em nome de uma educação pura e descontaminada do mau hálito do mundo. Esta exclusão da sociedade leva inevitavelmente ao incesto, entre irmãos, que acaba por ser um mal menor, contextualmente pouco chocante e até previsível. Tudo isto é desenhado com alguma ousadia formal, e enquadramentos absurdos que porventura invocam o absurdo retratado no próprio filme. Sem moral, levantam-se todas as dúvidas de Rousseau sobre o valor dos modelos sociais e das convenções.

Não há nada de Rousseau no realismo dos irmãos Safdie, nem na forma como se autorretratam na infância, enquanto bons selvagens. Vão-me buscar alecrim é um filme autobiográfico, que eleva a sua beleza poética, através de traços pessoais e da crueza da câmara. Nessa perspectiva há uma proximidade de John Cassavettes. A forma como, logo de início, a câmara, quase sem querer, encontra um homem que acaba por ser o protagonista do filme. Ele compra um cachorro quente, corre e salta uma vedação do Central Park, escorrega e deixa cair a salsicha, e fica para ali a recompor o cachorro, rindo-se que nem um perdido, dando uma imagem de louco, hiperativo, que não é mais do que um prelúdio da felicidade que se avizinha: as semanas passadas com os filhos (que habitualmente vivem com a mãe).

Mais do que uma simples vedação, ele tropeça em tudo o que o separa dos filhos, e no degrau na estratificação social nova-iorquina, dos anos 80. O que se percebe bem na cena seguinte, com o desenquadramento notório do pai quando vai buscar os filhos ao colégio. O Central Park é a espaço neutro que o separa da zona fina de Upper Manhatan.

O filme vive, em grande parte, da personagem do pai (brilhantemente interpretada por Ronald Bronstein) que se coloca ao nível dos seus próprios filhos (os actores são Sage e Frey Ranaldo, filhos de Lee Ranaldo dos SonicYouth), numa imaturidade excêntrica, e uma cumplicidade ilimitada, com tal força que nem questionamos o seu amor quando ele coloca as suas vidas em perigo.

Quando, no final, partem pelo ar, no teleférico da Ilha de Roosevelt, eleva-se uma condição onírica, no sonho do pai em vencer a saudade e a realidade que o devora. A resposta ao pai voador é o próprio filme, que os irmãos Safdie realizaram ao espelho.

 

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