Quarta-feira, 17 Mar
FARMÁCIAS:   Lisboa - Farmácia ...
    |    TRÂNSITO:   Albufeira  
Trânsito condicionado na A2 (Auto-estrada do Sul) no sentido Algarve - Lisboa entre o nó da A22 (Via do Infante) e o nó de Silves (Manutenção na via esquerda).
  A2
    |    TEMPO:   Lisboa   Parcialmente nublado   min: 9ºC | máx: 17ºC
Página inicial  >  Opinião  >  Ricardo Araújo Pereira  >  Balanço de uma década

Balanço de uma década

Quanto menos nos lembrarmos destes dez anos, melhor. Não pode dizer-se que tenha sido uma década memorável

6:04 Quinta-feira, 17 de Dez de 2009

O primeiro facto saliente acerca da década que agora termina é a resistência que oferece a quem pretenda referir-se a ela. Os anos sessenta são fáceis de designar, assim como os anos setenta ou oitenta, mas "os anos zero" é uma expressão que está ainda à espera de ser cunhada - talvez por ser estranha e, além do mais, imprecisa. Acabamos, portanto, de viver dez anos que não conseguimos denominar. Há males que vêm por bem: quanto menos nos lembrarmos destes dez anos, melhor. Não pode dizer-se que tenha sido uma década memorável. Foram dez anos que começaram, aliás, sob o signo da desilusão: o mundo não acabou no ano 2000, o que frustrou de igual modo os bruxos e aquela gente apreciadora dos grandes eventos. Os americanos bem tentaram, elegendo George Bush logo no primeiro ano da década, e deve reconhecer-se ele fez um esforço notável, mas, como em quase tudo o resto, fracassou.

Outra desilusão, talvez maior ainda, foi provocada pelos escritores de ficção científica. Anos e anos a escreverem sobre o século XXI, que afinal é igualzinho ao século XX mas com mais telemóveis. O tamanho do nosso crânio não aumentou, não vestimos todos de igual, não viajamos em naves. O futuro chegou e, não há como negá-lo, é aborrecido. Não só não viajamos em naves como passou a ser mais difícil viajar de avião. As viagens aéreas, que a ficção científica previa cada vez mais sofisticadas e rápidas, por causa dos atentados de 11 de Setembro de 2001 tornaram-se bastante mais lentas e rudimentares. Em lugar de homens do futuro que entram em naves rodeados de fumo e munidos de aparelhos altamente tecnológicos, somos homens do passado que entram nos aviões descalços, sem o cinto das calças e impedidos de levar até uma garrafa de água.

Entretanto, nem tudo são más notícias: a justiça portuguesa aproximou-se do nível da justiça internacional. Não, evidentemente, por ser ter tornado mais rápida, mas porque a justiça internacional se tornou vagarosa. Milosevic e Pinochet foram julgados por crimes contra a humanidade, tendo falecido antes de conhecerem o veredicto. Se pensarmos que Pinochet morreu com 91 anos, o processo Casa Pia deixa de parecer tão demorado, embora tenha ocupado sete anos desta década e ameace ocupar vários da próxima.

Após a intervenção americana no Iraque, Saddam Hussein foi democraticamente executado por um grupo de alegres convivas. Pareceu apropriado que, tendo a guerra sido feita a pretexto de armas de destruição maciça imaginárias, a democracia imposta fosse, também ela, pouco mais que uma fantasia. O enforcamento foi filmado pelo telemóvel de um dos carrascos e colocado no YouTube. Foi dos filmes mais vistos do ano, juntamente com um em que dois gatinhos brincam com um novelo.

Na internet, o aparecimento das redes Hi5, Facebook, Orkut e Twitter, entre outras, permitem que pessoas com pouco jeito para fazer amigos na vida real consigam fazê-los no computador, e que as pessoas com pouco jeito para fazer amigos na vida real e no computador critiquem duramente este tipo de rede. O aparecimento da Wikipedia, uma enciclopédia feita por gente que não domina especialmente qualquer área do saber, deu ao cidadão comum a satisfação de sentir que os seus conhecimentos são, muitas vezes, superiores aos dos enciclopedistas. Nas entradas da Wikipedia que utilizei para fazer este balanço da década, o ano de 2003 tem mais datas referentes a aspectos relacionados com os concorrentes do concurso Operação Triunfo do que, por exemplo, aos aspectos da economia mundial.

Um negro foi eleito pela primeira vez presidente da Harvard Law Review. Um negro candidatou-se pela primeira vez à presidência dos Estados Unidos. Um negro venceu pela primeira vez as eleições americanas. Infelizmente, foi sempre o mesmo negro. Continuamos sem saber bem se os Estados Unidos e o mundo resolveram parar de discriminar os negros ou só este em particular.

Em Portugal, José Sócrates foi eleito pela primeira vez a 20 de Fevereiro de 2005 e começou desde essa data a vestir cada vez melhor e a governar cada vez pior. No entanto, uma vez que sucedeu a Pedro Santana Lopes, durante uns meses chegou mesmo a parecer um bom primeiro-ministro. Nos primeiros cinco minutos do mandato, o nome de José Sócrates não apareceu associado a qualquer escândalo.

No futebol, num certo sentido a década foi dominada por Portugal: José Mourinho emergiu como o melhor treinador da actualidade e Cristiano Ronaldo sagrou-se melhor jogador do mundo. Os portugueses impõem-se cada vez mais no futebol mundial e cada vez menos na selecção nacional.

E, até agora, foi mais ou menos isto que se passou. Mas tenho esperança de que, nos 15 dias que lhe sobram, a década ainda consiga dar a volta por cima.

Artigos Relacionados:
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email ComentarComentar
 
Partilhe este artigo: del.icio.us digg facebook myspace google search.live
 
 
7 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 12:05 | Quinta-feira, 17 de Dez de 2009
Admiro a capacidade de Ricardo Araújo Pereira para analisar a Sociedade,usando a crítica humrística ou o sarcasmo.Nesta sua
análise dos últimos dez anos,êle não fez referência,por exemplo,à
corrupção que parece ser inata na mentalidade portuguesa e que
já vem desde os tempos de antanho.Terá isto a ver com o fariseísmo
com a hipocrisia inculcados pela Religião durante séculos?
Também se esqueceu,ou não se lembrou de focar as diferenças
abismais entre os salários e pensões de miséria e os ordenadões
dos galifões.E êste fôsso que separa os ricos dos pobres,apesar da
Igreja dizer que somos todos irmãos e filhos do mesmo Deus,é também um dos aspectos da corrupção moral da chamada Sociedade
Civil ou da Sociedade Militar que é uma casta àparte.Eu gostaria de ver aqui estampada uma análise da Ricardo Araújo Pereira àcerca
dêste aspecto económico-social,pois ele até se atreve a fazer humor brincalhão com destacados Políticos.Será êle capaz de obter
a comparência,por exemplo do Bispo que agora foi premiado com
o Prémio Pessoa,e fazer-lhe perguntas provocantes?
Década?
Silmart (seguir utilizador), 1 ponto , 16:56 | Quinta-feira, 17 de Dez de 2009
Ó meu caro, acho que está a laborar num pequeno (!) grande erro. É que a década não acaba em 31/12/1999, mas sim em 31/12/2010! Não há ano ZERO!
Dê portanto tempo ao tempo, e como ainda falta um ano e tal, pode ser que a década recupere...
    Re: Década?   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 20:47 | Segunda-feira, 28 de Dez de 2009
    Re: Década?! ... (anos zero)   
Manuel Portugal Pires (seguir utilizador), 1 ponto , 12:33 | Quinta-feira, 7 de Jan
A Década de RAP e dos GAT-Terá sido assim tão má?!
desperado (seguir utilizador), 1 ponto , 17:12 | Quinta-feira, 17 de Dez de 2009
Independentemente de quando acabe a década…O erro será mínimo, o interesse reside no jogo de contrários da crónica…

Tenho o prazer e a honra pessoal de conhecer o Ricardo Araújo Pereira (RAP). Ele não sabe que escrevo estas linhas, mais ou menos assiduamente, sob este pseudónimo.

É um risco que corre qualquer um que se expõe na vida pública. É a sujeição ao escrutínio constante.

Fia esta pequena introdução para enquadrar o texto que vem a seguir.

É sempre limitado, em pequenas e tão curtas linhas, fazer a síntese de uma década que ameaça agora findar. Porém, é de reconhecer a sagacidade de RAP e o seu poder de síntese. O sarcasmo com que colora as suas crónicas é até o mais simples. Quero destacar o poder de síntese.

O autor não é perfeito. A presente crónica não é perfeita. Mas é arguta, inteligente e ritmada. Aliás, segue a linha de outras, e a isso já estamos habituados.

Não venho em socorro de RAP, que dele não carece, nem eu reúno condições para o valer. Mas, por favor, não critiquem por criticar apenas. Façam-no com hombridade e espinha dorsal. O RAP é assumidamente ateu, de esquerda, e adepto ou simpatizante crónico do SLB (aliás, uma das suas melhores características). Com este “lastro” convidar uma autoridade eclesiástica para um programa televisivo de desafio, sarcasmo, crítica e exposição social, não depende apenas da vontade de RAP e/ou dos Gatos (que acredito que a teriam), mas também da concordância do representante da Igreja, e desta última.

Como sabemos se RAP se atreveu, ou não, a convidar alguma eminência católica? Alguém duvida do seu atrevimento para tal?

Alguns dos melhores sketches (rábulas em bom português? Perdoem-me o inglesismo snob) do humor português foram protagonizados por RAP e os restantes elementos dos Gato Fedorento satirizando, cordata e respeitosamente, figuras da Igreja e o próprio conceito ocidental de deus.

Perfilho da opinião crítica do comentário anterior. Se bem que culturalmente devamos muito à matriz judaico-cristã que a história nos impôs (seja lá exactamente o que isso for), restaria apurar o que poderíamos ser caso essa matriz se não tivesse verificado desta forma. E se tivéssemos tido mais e melhores galileus?

Acompanho-o quando destaca as enormes clivagens sociais, os grandes ordenados e as míseras pensões, a hipocrisia social, o país de “srs. doutores” e de servos da gleba em que nos tornámos. Vergonha! Devíamos ter feito muito mais e muito melhor. Estamos a latinizarmo-nos, a “sulamericanizarmo-nos”, no pior que a América do Sul tem!

RAP, continua! Dá-nos mais Gato Fedorento. Escreve-nos mais. Analisa-nos mais.

Ajuda-nos a romper o vício deste círculo de compadrios hipócrita! Antes que tudo arda…

Mas não nos podemos esquecer que foi esta a década de afirmação de RAP e dos Gato Fedorento, donde resulta que nem tudo pode ter sido assim tão mau…

Leitores da VISÃO, bloguistas em geral, prossigam. É a democratização da opinião.

A todos nós, uma melhor década que esta que finda…
O RAP é mesmo bom
maria teresa (seguir utilizador), 1 ponto , 10:30 | Sexta-feira, 18 de Dez de 2009
Falta realmente destacar na sua sintese, o facto de terem aparecido por cá, terra cinzenta de gente mal dizente, cada vez com mais rugas e banhas na barriga, um grupo de sibilinos humoristas que fizeram "partir" os portugueses a rir e "partiram" a cabeça a muintos outros. Algo que já não acontecia há algumas decadas. Longa vida aos felinos.

Já que aqui estou vou só corrigir uma coisinha, o Sr. Socrates chegou em 2005, mas já cá andava, pelo que se vê e pelo que não se vê, há alguns anos. Veio substituir o Dr. Santana Lopes que governou mal porque, como menino mimado que é, governou sempre em birra a á betinho, no genero "não há pão vamos comer croassants". Não sei se a troca foi para melhor , a verdade é que o nome de Pedro Santana Lopes nunca apareceu, nunca mesmo, envolvido na grande bola que marca a governação corrupta, ou não, ninguem sabe ou quase ninguem sabe, do senhor que se lhe seguiu. Passamos das birras de um betinho para as acrobacias de um chico esperto.

Ricardo, fico desde já a espera da semana que vem para me rir mais um bocadinho, grata por estes bons momentos resta desejar um Bom ano e uma Boa Década.

Cuidado com a década!
Olá (seguir utilizador), 1 ponto , 1:30 | Domingo, 20 de Dez de 2009
Com que então o nosso amigo quer mesmo acabar com a década que se avizinha, escangalhá-la sem dó nem piedade, dar cabo dela ainda antes mesmo de ela ver o dia? Apreciei, repare, como não podia deixa de ser, aliás, a sua achega de cariz anti-racista do ante-antepenúltimo parágrafo. Gramo esse tipo de discurso, que quer que lhe diga? Mas logo a seguir sai-me-nos com aquela do dandismo de "Sócrates". Pelo amor de deus, então agora o Ricardo Araújo Pereira gostava que o Primeiro-Ministro de Portugal andasse por aí todo fraldiqueiro, quiçá com a barba por fazer, como um carroceiro, assim todo mal amanhado, nos Palácios e nas Assembleias e diante das câmaras de televisão ou seja dentro das nossas próprias casas? Por favor, é óptimo que critique a década que ora finda, nem que seja só para fazer rir, mas agora espatifar assim à partida a que dentro em breve começa, não, por favor, peço-lhe, imploro-lhe: tenha dó de nós!
7 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade na Visão
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo.
Clique aqui para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para redaccao@visao.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.
Grupo ImpresaACAP