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Banda Desenhada

OPÇÕES

Falar do trabalho editorial de Manuel Caldas é sempre urgente. Ter motivos para o fazer é ainda mais gratificante.

(Texto publicado no JL-Papel)

É muito provável que Manuel Caldas (Libri Impressi) seja um dos melhores editores nacionais, e não especificamente de BD. Nas suas edições de obras clássicas há um cuidado obcessivo com a qualidade das reproduções, com a revisitação das pranchas, com o formato. No processo criativo (porque disso também se trata) de retocar e mesmo recolher os melhores elementos de diferentes reproduções de uma página para obter um perfeito "original" Manuel Caldas limita-se interpretar o que a obra lhe pediu. Não se preocupa com estudos de mercado, no público-alvo. Em pensar se é viável uma edição integral, se um dado livro vai caber em prateleiras, ou poder ser arrumado junto a livros semelhantes. Sem concessões que não a si mesmo. E isto é necessariamente bom? Claro que não. Se fosse Caldas teria muito mais sucesso com livros que deveriam ser obrigatórios para arquitectos, cenógrafos, cineastas, ilustradores, escritores, aderecistas, actores, artistas plásticos, filósofos, linguistas, sociólogos, criativos. E autores, quaisquer que sejam os seus interesses ou influências. Ou "apenas" leitores curiosos e exigentes que nunca folheram uma banda desenhada. As suas mais recentes propostas são o terceiro volume do "western" Lance de Warren Tufts (1957-58) publicado originalmente em jornais, e o notável "romance sem palavras e também sem música" Ele foi mau pra ela (He Done Her Wrong) de Milt Gross (1930).

Inspirado em Prince Valiant de Hal Foster, Lance é visualmente magnífico na sua representação de personagens e grandes espaços, chamando a atenção não só pelo traço, mas pela aplicação de cor, muitas vezes sem a ajuda de linhas a delimitar as manchas. Neste volume é muito interessante ainda notar a ligação entre as tiras diárias a preto e branco e as pranchas dominicais a cores (podem ser lidas quase de forma independente), ou as hesitações entre o uso do texto didescálico e balões. Narrativamente o tom mescla aventura com melodrama, como se "westerns" clássicos tivessem sido revistos por um admirador pouco subtil de Douglas Sirk. Um exercício "herético" que se proporia seria o de "ler" ignorando o texto, ou mesmo sugerir aos leitores que o substituissem por outro de sua própria invenção. A força de Lance está no espantoso desenho.

Apesar de não ter palavras, o interesse de Ele foi mau pra ela não está bem no traço caricatural "excessivo" de Milt Gross, mas no modo como este sugere a narração, em tons que misturam o melodrama, a comédia de enganos, o "slapstick", a ação/aventura, e o teatro "vaudeville". Como sugere Nuno Franco na sua introdução, a experiência isolada que foi Ele foi mau pra ela na obra de Gross está longe do rigor de autores da mesma época como Frans Masereel ou Lynd Ward (estarão na lista de Caldas?), ou mesmo dos seus descendentes mais notáveis, como Eric Drooker ou Peter Kuper. Mas Gross tem o grande mérito de, ao contrário dos restantes, valorizar a representação do concreto em detrimento da grandiosidade simbólica, que é sempre mais fácil de sugerir. Por outro lado, e apesar da inevitável tipificação das personagens ("bom", ingénua", "mau"), a mistura de estilos e tons sugere uma constante experimentação, e algumas das soluções encontradas por Gross em momentos concretos de uma longa narrativa são brilhantes. Duas obras absolutamente recomendáveis que, caso não se vejam pelas livrarias, se podem sempre encontrar em (www.manuelcaldas.com ).

 

 

Ele foi mau pra ela. História e desenhos de Milt Gross. Libri Impressi, 270 pp., 16 Euros.

Lance 3. História e desenhos de Warren Tufts. Libri Impressi, 190 pp., 24 Euros.

João Ramalho-Santos
9:37 Quarta, 30 de Novembro de 2011

Listas de BDs

Composição: Sobre Festivais e Listas de BD(s), Parte II

O último Festival da Amadora e a publicação de uma lista das 1001 BDs que se devem ler antes de morrer tem gerado debates. Isso é ótimo, sobretudo para chamar a atenção. Conclui-se com comentários sobre a Lista das 1001 "melhores" BDs, editada por Paul Gravett. Já agora, era engraçado um Festival (Beja? Amadora?) tentar pensar as (20, 30, 100?) melhores BDs PORTUGUESAS de sempre.

 A iniciativa das 1001 bandas desenhadas (http://www.paulgravett.com/index.php/1001_comics/1001_atoz/) parece vir no seguimento de muitas outras listas de coisas que se devem fazer antes de morrer, dado que ninguém parece contentar-se com apenas viver durante esse período. Lugares a visitar, livros a ler, filmes a ver, comidas a experimentar. As listas são boas para revelar coisas novas, más se vistas enquanto obrigação. E cada lista é apenas isso mesmo: UMA lista, entre milhares possíveis. Mas esta é grande e de banda desenhada, difícil de ignorar por "nerds" como eu. Até já transformei parte da lista em "lista de compras possíveis".

O organizador do projeto, Paul Gravett, é um grande conhecedor inglês de banda desenhada, mas contou aqui com a colaboração de muitos outros especialistas, que lhe indicaram obras a incluir. Não podia deixar de ser assim, embora Gravett confesse ainda não ter lido todas as obras, o que é curioso, para não usar outra palavra. E o projeto merecia ser complementado com algo que pudesse disponibilizar algumas das menos conhecidas.

Olhando de relance fica clara a diversidade de motivos para escolher obras, que vão desde o interesse histórico-nostálgico ao sucesso incónico-comercial. No meio ficam as bandas desenhadas de grande qualidade que vale de facto a pena ler antes de morrer (depois é difícil...). 

Estas últimas deviam ser as únicas presentes, em minha opinião. Numa lista de filmes que vale a pena ver duvido que se incluíssem "serials", filmes da "Lassie", Louis de Funès, Michael Bay ou Adam Sandler (fora "Punch Drunk Love", mesmo que seja um filme sobrevalorizado) ao lado de Ford, Bergman, Fellini, Scorcese, Truffaut, ou mesmo James Cameron e Christopher Nolan. É um trauma que a banda desenhada teima em não superar ao recusar-se a separar estas águas, provavelmente por dois tipos de motivos: a) Há uma corrente pouco saudável de "geek fan-boy"; e b) Teme-se que a não inclusão de nomes reconhecíveis afaste a discussão mais global deste tipo de iniciativas fora do mundo da BD, que é (também) o que se pretende.

Não tenho nada contra BD comercial ou infanto-juvenil, pelo contrário. Mas tem de sobreviver fora do contexto nostálgico, e se é preciso explicar de forma muito elaborada porque deve uma obra figurar numa dada seleção, provavelmente é porque não devia lá figurar. Em 1001 BDs há demasiados exemplos destes.

No entanto a lista tem muitas notáveis obras que valem a pena ser lidas, desde bandas desenhadas que já foram objeto de muita atenção ("Maus, Persepolis", "Mort Cinder", "Watchmen", todos os grandes clássicos europeus em termos de séries) a outras que vale a pena conhecer, de autores como Kaz, Ben Katchor, Junji Ito, Gianni de Luca, Guido Buzzelli, Urasawa, Debeurme, Jeffrey Brown, Dominique Goblet, Gustavo Arriola, Jason Shiga, Hideshi Hino, Dino Buzzati, Bastien Vivès...

Como seria compreensível a discussão nacional da lista deteve-se no facto de Portugal contar com uma entrada, "O Diário de K." de Filipe Abranches. Independentemente de tudo o mais o autor merece por isso parabéns. A escolha faz sentido se se considerar que os dois críticos portugueses envolvidos no projeto foram Pedro Moura e Domingos Isabelinho, e se conhecer o que valorizam numa obra. Não que não sejam leitores atentos e ecléticos, mas o que se pedia aqui era muito preciso, e não tiveram o "luxo" de críticos de mercados mais fortes que (é um palpite) terão podido incluir, não só obras que admiram verdadeiramente, como as tais BDs importantes do ponto de vista histórico, ou tesouros nostálgicos das respetivas infâncias.

Claro que a participação de Moura e Isabelinho não se resumiu à seleção de um nome, mas certamente também passou por aí. São os críticos nacionais que melhor se movimentam nestes círculos, e não há nada a apontar. Sendo um grande admirador de Filipe Abranches, não o sou particularmente de "O Diário de K." (a julgar por conversas nas recentes Conferências de Banda Desenhada sei que estou em minoria). Mas, mesmo que fosse, honestamente teria pensado primeiro em José Carlos Fernandes e na sua "Pior Banda do Mundo", ou "Filipe Seems" de António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva, ou "Salazar" de Miguel Rocha e João Paulo Cotrim, e ainda a "História de Lisboa" de Abranches e A. H. de Oliveira Marques. Não sei por que ordem. E pouco mais, dado que não seria plausível que se pudessem incluir muitas obras. Com muita pena minha deixaria para uma segunda linha, por exemplo, Fernando Relvas ("L123"), Nuno Saraiva e Júlio Pinto ("Filosofia de Ponta"), Stuart Carvalhais ("Quim e Manecas"), ET Coelho ("Ragnar o Viking", com Jean Ollivier), Fernando Bento ("Beau Geste") ou Carlos Botelho ("Ecos da Semana").

Mas o que fica de uma abordagem inicial à lista é que Portugal em BD é, neste projeto, igual a um. É bom? É mau? Depende. Sendo deprimente é mais do que zero... No entanto soa a compensação.

Se considerarmos a listagem por países Portugal está ao mesmo nível do Egipto, Nigéria, Chile, Grécia, Argélia, China, República Checa, Croácia, Hong Kong (?), Indonésia, Nova Zelândia, Filipinas, e em países menos representativos as afinidades dos selecionadores são sempre mais visíveis. Apenas conheço os representantes do Chile ("Condorito" consiste numa série de "gags" como desenho tipo Disney/Zé Carioca) e Grécia (o muito interessante "Logicomix", de que já aqui se falou), e sei que nas Filipinas e China é duvidoso que uma só escolha cumpra os mínimos. Mas teriam estes países mesmo qualidade que mereça mais do que uma seleção? Ignoro. Portugal tem, sobretudo comparando as obras selecionadas dos mercados mais fortes (franco-belga, norte-americano, italiano, espanhol, argentino, inglês, canadiano; confesso não ter lido o suficiente do japonês para avaliar). Não é uma opinião, acho que posso mesmo chamar-lhe facto. Sem chauvinismos.

Uma das reações imediatas a uma lista deste género consiste em rever BDs que amigos e familiares me têm trazido do Nepal, Emiratos Árabes Unidos ou Albânia. Dá vontade de viajar por aí (na atual conjuntura, usar o Google...) e procurar pérolas perdidas de BD nestes e noutros países não cobertos pela lista. É certo que muitas nações com uma-duas escolhas estão lá, sejamos claros, para compor o ramalhete e combater preventivamente a crítica ao centralismo dos grandes mercados de banda desenhada. As escolhas "a sério", as que fazem doutrina, estão na BD norte-americana, canadiana, franco-belga, japonesa, italiana, espanhola, inglesa. O resto é paisagem.

Nessas escolhas há coisas que não fazem sentido, umas mais, outras menos. E quanto mais vejo, mais encontro, por isso vou parar e discutir apenas o que me chamou a atenção. Vêem? Isto das listas é giro! São como os legos (ainda se usam legos?): horas de diversão e ninguém faz as mesmas construções.

Já agora: não li a fundo o enquadramento e explicações de Paul Gravett, nem comentários dos seus colaboradores, alguns dos quais se têm vindo a distanciar do resultado final (também é típico). Isto por dois motivos: um profundo, um prático.

O profundo: não leio entrevistas de criadores a explicar as suas criações antes de as ver/ouvir/ler/fruir. Ouvir autores significa correr o risco de que explicações sobre o esforço (honesto) que introduziram no seu trabalho consigam resgatar (na nossa cabeça) o facto de uma obra ser pouco conseguida. As obras devem falar por si, não é? Então que falem. E esta obra em particular consiste numa lista. Mais claro e linear do que o resultado final do exercício é difícil.

 

O prático: o livro tem 960 páginas e saiu inicialmente em capa dura, só recentemente em capa mole. No seu site Paul Gravett revela que a maior parte da informação sobre as escolhas está no livro. Faz todo o sentido: o objetivo de fazer um livro é que ele seja lido, não apenas dissecado online. Mas, volto a repetir, o resultado final deste livro em particular é a lista, não as justificações. Em resumo: ainda não decidi se o livro sobre as 1001 bandas desenhadas que se devem ler antes de morrer é um dos livros que se devem ler antes de morrer.

Ao correr a lista a principal questão é que se "desperdiçaram" lugares nas 1001 BDs nomeando a mesma coisa várias vezes. "Batman" aparece em nome próprio (e será a estreia em 1939 algo que seja mesmo preciso ler?), e depois em diversas histórias soltas (seis no total), com um claro enviesamento no final do século XX. Ou seja, sete entradas distintas. São nomeados quatro álbuns de "Astérix", cinco de "Tintin", três de "Blake & Mortimer", dois de "Corto Maltese" e de "Spirou & Fantasio", várias histórias dos patos da Disney de Carl Barks (e uma de Don Rosa, muito justamente). Nada contra, se o mesmo critério fosse coerente ao longo da seleção. Não é, nomeiam-se outras séries como um todo: "Blacksad", "Dylan Dog", "Alix", "Thorgal", "Martin Mystère", "Alack Sinner", "Os Passageiros do Vento", "Incal" (entre muitas outras), e o mesmo sucede em quase todas as séries japonesas. Incluem-se mesmo personagens tratadas por uma imensidade de autores ("Thor", "Hulk"), sem descriminar histórias; valem portanto enquanto símbolos? É preciso ler "Dylan Dog" todo antes de morrer, é preciso ler apenas a primeira história, ou basta uma história qualquer, à escolha? No caso de "Thor" pode ser o de Walt Simonson, em vez da estreia? Ficamos só pelo primeiro volume do "Philémon" de Fred e de "As Torres de Bois-Maury" de Hermann? E, ainda mais ridículo, pela primeira parte de aventuras duplas de "Tintin" ou presume-se que as continuações estão "implícitas" ("O Segredo do Licorne" e "As Sete Bolas de Cristal"; mas não "O Tesouro de Rackham o Vermelho" e "O Templo do Sol")? E só um "Lucky Luke", um volume de "Astro City"? Era mesmo essencial incluir uma história da medíocre "Os Túnicas Azuis" e a série inteira de "Yoko Tsuno"? Ou não se conseguiu escolher porque selecionar de entre o mesmo nível médio era impossível e ia levar ainda a mais críticas, portanto optou-se pela solução fácil? No caso de "Largo Winch" até se referem dois volumes numa única entrada. Finalmente, como é possível que do subvalorizado italiano Gianni de Luca se cite o meritório "Comissário Spada", mas não as geniais adaptações de Shakespeare?

Não faz qualquer sentido.

Teria sido preferível nomear apenas séries/personagens, e depois dar sugestões de volumes/histórias que se poderiam ler para ter uma boa ideia da qualidade e características das mesmas nos textos que as acompanham. Algo que, de resto, acontece em muitos casos. E também referir, já agora, volumes que não deviam contar, como o "Spirou & Fantasio" não realizado por Franquin, ou o "Blake & Mortimer" pós-Jacobs. Em princípio mantinha-se a seleção das obras isoladas, mas era algo a rever caso fossem nomeadas obras de um mesmo autor, objetivamente semelhantes (Ben Katchor, Joe Sacco, Posey Simmonds e Christophe Blain, para dar exemplos, e apesar da excelência dos autores). Mas com tudo isto seria talvez mais difícil chegar às 1001! Tinha de se voltar a examinar a BD da Jamaica, Azerbaijão e Burkina Faso em busca das tais pérolas perdidas. É pena José Carlos Fernandes estar "reformado" da BD, cheira-me que havia aqui material para uma série absurda que se poderia intitular "Em busca das BDs do Mundo", aproveitando afinidades com a sua "Agência de Viagens Lemming", editada em Espanha pela Astiberri, e que contará por isso como obra "espanhola" numa lista futura de BDs que siga as mesmas regras desta.

Pois é: o facto de por "Países" se querer dizer locais de primeira edição faz com que obras como "Alack Sinner" ou "Perramus" sejam listados como "italianas", quando são de autores argentinos. Já "Zil Zelub" e "HP & Giuseppe Bergman" dos italianos Guido Buzzelli e Milo Manara surgem como franceses. Se um livro de Saramago tivesse sido editado primeiro noutro país faria diferença em temos da filiação da obra, haveria alguma preocupação com estas distinções? Mas isso tem solução muito fácil: basta fazer a listagem por autores, uma das boas funcionalidades da lista interativa de Gravett (ainda se pode dividir por anos ou géneros). Claro que aí surgem outros problemas que denotam falta de atenção. Desde logo surgem dois autores portugueses: Filipe Abranches e... Raul Brandão. É certo que "O Diário de K." é adaptado de textos de Brandão, mas daí a considerá-lo co-autor de BD vai uma longa distância. O mesmo se verifica noutros lados: Paul Karasik é, que eu saiba, o (muito meritório) editor de "I Shall Destroy All The Civilized Planets!," o autor é só Fletcher Hanks.

Por último, e em termos de uma discussão nacional, é importante lembrar que em 2004 o Festival da Amadora promoveu uma escolha das 100 BDs do Século XX, recorrendo a vários críticos de diferentes países, e com organização de João Paulo Paiva Boléo. Antes, em 1999, o The Comics Journal tinha publicado um Top de 100 Comics, coligindo escolhas de oito especialistas e focado no mercado norte-americano.

Muito criticada na altura a iniciativa da Amadora era, na base, equivalente a esta das 1001 BDs, no sentido em que se procurava (ao contrário do Comics Journal) uma perspetiva global. Algo que é muito difícil de fazer, muito mais do que no cinema ou na literatura. Como bem assinalam Isabelinho e Moura em várias discussões e textos não é só um problema estrito da falta de difusão/divulgação/traduções, mas de ser difícil a críticos e especialistas dos três grandes "grupos" (anglófono, francófono e nipónico, para simplificar) saírem dos respetivos universos, balizados por tradições históricas distintas, e universos criativos que ainda permanecem muito separados. A solução encontrada nas 1001 BDs parece ter sido a de dividir o espaço e deixar co-existir visões semi-autistas, não debatê-las.

Não deixa de ser sintomático que, como sempre, a publicação de uma lista tente obscurecer as que vieram atrás, mas, por muito que agora se tente esconder ou esquecer isso, a iniciativa da Amadora teve mérito inegável. Podia ter uma seleção menor e menos representativa de críticos, focar pouco mercados importantes (sobretudo o japonês), mas o princípio era parecido (para não dizer idêntico) ao das 1001 BDs, algo que é comprovado em inúmeras escolhas comuns e no facto de as discussões sobre os pontos fracos do exercício serem quase iguais às que leio agora quanto ao trabalho de Gravett. Ou seja, a Amadora foi pioneira, pena é que, como tenho referido muitas vezes desde essa altura, o evento não tenha sido mais aproveitado (nunca saiu o livro previsto), até para projetar mais a própria Amadora. Porque é para isso que as listas servem: para sugerir leituras, chamar a atenção e estimular o debate.

Portanto sigam o "link" das 1001 BDs, e comecem uma lista, um debate, qualquer coisa. Sobretudo: leiam.

 

PSDCQMVL (PS de Coisas Que Me Vou Lembrando):

Parece-me que há demasiados títulos de 2009-2011, ou seja obras sobre as quais temos pouca distância crítica ("Habibi" de Craig Thompson mal saiu, e outros ainda não estavam distribuídos de forma alargada na altura da publicação). Por outro lado esses títulos têm o potencial de estimular leitores que podem nem ter muito contato recente com a BD. A minha "lista de compras potenciais" é quase toda tirada daí. E essa deve ser outra função das listas.

 

João Ramalho-Santos
18:50 Segunda, 21 de Novembro de 2011

Outros assuntos

TEDx Coimbra

Nas convocatórias para reuniões o último ponto a discutir designa-se sempre "Outros assuntos". Hoje deixo um.

No dia 15 de Outubro decorreu em Coimbra um TEDx (http://www.tedxcoimbra.com), ou seja uma conferência TED organizada independentemente. Foi uma experiência excelente, aprendi imenso. O tema era "E se os pensamentos voassem" e a minha intervenção chamou-se "Estratégias para investigar o que não pode ser investigado".

Era para meter BD, era sim senhor. Mas acabou por ficar apenas a parte da investigação e comunicação científica, que é o que eu faço "mesmo".... Um outro assunto. Sem bonecos.

(o vídeo segue abaixo, pelos vistos a seguir a um anúncio)

 


 

João Ramalho-Santos
16:42 Segunda, 14 de Novembro de 2011

Eventos de Banda Desenhada

Composição: Sobre Festivais e Listas de BD(s), Parte I

 A propósito do último Festival da Amadora e da publicação de uma lista das 1001 BDs que se devem ler antes de morrer tem-se gerado acesa discussão. Isso é ótimo. Destilando o que se vai dizendo a mensagem-base é simples: toda a gente tem razões, mas ninguém as tem todas, e nenhumas são particularmente originais. É preciso aproveitar o que há, tentar conciliar visões que não sejam incompatíveis, fazer o melhor possível. Sobretudo usar o debate para o que serve: chamar a atenção, não para castrar nem ensurdecer. Para não ser (tão) maçudo dividiu-se o texto. Segue-se a reflexão sobre Festivais em Portugal, em particular o AmadoraBD. Citando o Oceano Pacífico no início da "Balada do Mar Salgado" de Hugo Pratt: o maior de todos.

Este ano o Festival da Amadora (Amadora BD) foi claramente mais bem sucedido em termos de público do que o de 2010. O tema central de "Humor" deu também azo a excelentes exposições, desde a mostra central (com belíssimos originais de algumas das melhores séries históricas de tiras cómicas), a outras associadas, como "Há Piores" de Derradé e Geral ou "Astérix em Portugal". Para além de uma planta algo labiríntica a única desilusão foi mesmo a exposição dedicada aos "Peanuts" de Charles Schultz, que merecia um pouco mais. 

As restantes exposições mantinham o mesmo nível elevado a que nos habituámos em anos anteriores. E o facto de estarmos habituados pode levar a criticas injustas: manter o nível no AmadoraBD e termos de exposições, grafismo, organização e catálogo é, para além de trabalhoso (e caro), algo muito digno de registo. Este ano refira-se a publicação atempada de materiais importantes como os Programas e catálogos do evento.

Talvez por haver menos ocupação no andar inferior (consta que devido a cortes orçamentais) o espaço parecia mais arejado. A área comercial revelou-se melhor e menos acanhada, já a área dos autógrafos estava mais escondida e claustrofóbica. A animação na zona comercial era muito superior à vista nos dois anos anteriores, algo que é sempre de saudar. Mais uma vez destaque para vários lançamentos de que se irão falando nos próximos tempos, como o segundo volume de "Dog Mendonça & Pizzaboy" (Tinta da China), o "Pequeno Deus Cego" (David Soares e Pedro Serpa, Kingpin Books), "A Ermida" de Rui Lacas e "Há Piores" dos já referidos Geral e Derradé (ambos da Polvo).

No último Sábado do AmadoraBD realizou-se um curto debate (cerca de uma hora) sobre o mesmo, promovido por Jorge Machado-Dias (PedroNoCharco), e com a presença do Diretor do Festival, Nélson Dona e intervenções de vários participantes, destacando-se Mário Freitas (Kingpin Books). Ou seja: a organização do Festival e alguns dos editores/livreiros que participam organizando espaços comerciais e sugerindo autores que poderão ser convidados pelo Festival. Algumas notas não exaustivas:

 

1-    Foi curto, mas intenso e (em minha opinião), muito útil. O facto de ter sido anunciada uma reunião posterior entre os vários agentes para debater o que correu bem e menos bem no AmadoraBD 2011 e sugerir alterações para 2012 foi já de si importante.

2-    A revelação principal terá sido o (nada surpreendente) anúncio de que o orçamento para 2012 seria muito condicionado. No limite o Festival poderá não se realizar caso não se considerem garantidas condições mínimas, tendo em conta o historial do evento. Pareceu-me uma posição correta de Nélson Dona. Se se trata de dramatismo exagerado (como alguns pensaram) logo veremos. Mas ninguém pode dizer que se trata de algo implausível na atual conjuntura.

3-    O AmadoraBD teve de facto um decréscimo ao nível do seu orçamento já em 2011. O qual, ainda assim, se situou acima dos 600 mil Euros ao longo das três semanas que dura o evento. Muito? Pouco? Depende. O Festival de Angoulême em França tem um orçamento de 3,5 milhões, o de Beja 25 mil. É também uma questão de perspetiva e interesses. Por exemplo, tendo acabado de ver os muito diferentes mas (em minha opinião) quase igualmente pobres e pretenciosos filmes portugueses "Cisne" de Teresa Villaverde e "O Barão" de Edgar Pêra não tenho grandes dúvidas onde prefiro que seja "desperdiçado" dinheiro. Mas isso serei eu.

4-    O debate  não constava da programação oficial do Festival. Segundo o comentário desassombrado de Machado-Dias porque era visto como estando "contra" o evento. De facto alguns dos organizadores ou colaboradores do Festival parecem tratar qualquer crítica (mesmo ligeira ou construtiva) como uma afronta que tem de ter consequências. Algo que, sendo compreensível, é também redutor e leva a comportamentos curiosos (e muito óbvios) por parte de alguns intervenientes/colaboradores do AmadoraBD, que se abstêm de dizer o que quer que seja (publicamente) de modo a manterem uma relação privilegiada com o Festival. São feitios. Mas o debate realizou-se. E, sobretudo:

5-    Nélson Dona deu a cara e respondeu a todas as questões, do meu ponto de vista. Não deu foi as respostas que alguns queriam, nem foi muito convincente nalguns aspetos, mas isso não anula o bom exemplo. Dir-se-á que era a sua obrigação. Mas quantos organizadores do que quer que seja em Portugal aparecem em público para prestar contas e defender um evento num fórum onde sabem pouco ter a ganhar?

6-    Ficaram por responder várias questões relativas à organização, que têm sido repetidas ao longo dos anos. As mais constantes terão a ver com a fraca qualidade da divulgação, com a capacidade de atração de diferentes públicos ou com a escolha e enquadramento de autores convidados. Mas o facto de Nélson Dona ter admitido em vários momentos estar atento a alguns dos problemas foi muito interessante, e revelador. Esperamos haja consequências, e se passe do diagnóstico à cura (sempre complicado). Quantos organizadores do que quer que seja em Portugal reconhecem erros próprios?

7-    Foi óbvio que diferentes intervenientes têm visões muito distintas do evento. Nélson Dona defendeu o ponto de vista institucional de ligação à actividade da Câmara da Amadora, que transcende em muito a BD (no limite, o Festival podia ser sobre qualquer outra coisa). Machado-Dias e Freitas a visão comercial/divulgadora específica da BD (no limite, o Festival podia ser organizado por qualquer outra entidade). Ambos estiveram demasiado irredutíveis em termos do que acham o AmadoraBD deve (ou tem obrigação de) ser. Não que não percebessem a posição contrária à sua, mas pareceram ter alguma dificuldade em dialogar a sério, no sentido de chegar a compromissos que melhorem o Festival. Mas a abertura é sempre um bom sintoma.

8-    Parecia-me ter voltado atrás no tempo e estar a ouvir, não Machado-Dias e Mário Freitas, mas José de Freitas (ex-Devir) e Pedro Silva (VitaminaBD), já que os argumentos avançados para mudar o AmadoraBD eram os que nortearam o lançamento do (falecido) BD Fórum. Como digo: são questões que vêm de longe.

9-    Muitas vezes mencionam-se as duas posições-chave como representadas na diferença entre o Festival de San Diego e o de Angoulême. Um evento comercial/popular, um evento institucional/artístico, respetivamente. É uma dualidade artificial e inválida, por vários motivos. Basta saber que em Angoulême a parte comercial é hiper-valorizada, e em San Diego há micro-eventos do mais obscuro e inteletualizante que se possa imaginar. O essencial é que cada um dos Festivais inclui diversas possibilidades que atraem diferentes públicos, que até podem nem se cruzar dentro do recinto (em San Diego isso é óbvio). A Amadora devia fazer o mesmo.

10-             Toda a gente parece concordar que a estratégia para atribuição dos Prémios do Festival não é a melhor, incluindo o próprio Festival. Como  a mudar é mais discutível, mas o diagnóstico é (aparentemente) quase universal. Já falei sobre o tema, e não me vou repetir, mas foi interessante ouvir opiniões equivalentes. Portanto, se para o ano o formato voltar a ser o mesmo será por inação ou por se ter concluído que o método é o "melhor dentro dos piores".

11-             A escolha dos autores convidados foi um ponto muito debatido, a dois níveis: os grandes autores capazes de atrair público e que raramente vêm; os autores menos conhecidos que vêm sem se perceber porque vêm. Os atrasos na divulgação dos nomes impedem ainda que logistas possam encomendar a tempo os respetivos livros para os colocar à venda, e potenciar as sessões de autógrafos. Houve um momento macabramente divertido: na sequência do debate sobre a pecha mais óbvia do Festival deste ano (a falta de nomes sonantes nos autores convidados) Nélson Dona revelou ter assegurado três figuras fortes, que acabaram por não vir. Não revelou os motivos alegados por dois deles, mas disse que o terceiro tinha uma boa justificação: infelizmente falecera! Comentário de Mário Freitas (salvo erro): "deviam convidar autores mais novos...". Teve graça, mas, ao mesmo tempo, tem toda a razão no sentido em que o AmadoraBD parece focar/perceber um tipo de BD envelhecido.

12-             Dez minutos depois da saída do debate falei com Paulo Monteiro, Diretor do Festival de Beja. Não teve qualquer problema em me anunciar que já tinha bilhetes comprados para autores que virão em 2012 (de modo a aproveitar viagens baratas), e revelar os respetivos nomes, enquadrados na lógica assumida do Festival. Se não vierem, por qualquer motivo, não vêm, paciência. É certo que nenhum deles é Frank Miller, Bilal ou Otomo, mas é o princípio que está em causa. Faço notar (caso seja preciso) que a lógica de ligação do evento a uma autarquia é a mesma. O mesmo enquadramento pode pois levar a soluções e filosofias distintas, e, como sempre, a necessidade aguça o engenho. Repito também o que já disse várias vezes: não é justo nem útil comparar Beja à Amadora e dizer que o primeiro é "melhor". Não é, nem pode ser.

13-             Na Amadora esteve a excelente autora alternativa norte-americana de Seattle Roberta Gregory (Bitchy Bitch), a quem tive o prazer de comprar varios livros (que a própria tinha trazido). Gregory revelou ter sido contatada a menos de um mês do início do evento. Confessou estar muito feliz por ali estar, mas não perceber de todo o enquadramento do convite ("I guess they had some money to spare, ou someone quit on them and I was a last minute replacement").  Lá está.

 

Como diagnosticar é muito mais fácil do que propor soluções não faz sentido publicar nada disto caso não haja, pelo menos, algumas sugestões a dar. Aqui ficam.

 

A-   Autores convidados: Divulgar (pelo menos alguns) nomes o mais cedo possível e mais eficazmente. Substituir a surpresa pela construção de expetativa, já que está visto que o corrente modelo não funciona muito bem. É certo que é prudente não o fazer em todos os casos (nos tais "grandes nomes" que podem desistir à última da hora), mas em alguns certamente que é possível. É feito em todos os Festivais do mundo, cujos programas são disponibilizados com meses de antecedência. Por vezes há falhas e ajustes, mas ninguém se ofende, é algo inevitável.

B-   Temas/exposições: Idem, aspas. Pelo menos nalguns casos haver uma coordenação com as editoras de modo a que um livro lançado possa ter, desde logo, uma exposição nesse mesmo ano com presença dos autores, em vez de se esperar pelo ano seguinte, ou pela atribuição de um Prémio do Festival. Neste ano correu muito bem com o segundo volume de "Dog Mendonça e Pizzaboy", já que havia a exposição relativa ao primeiro, mas não devia ser preciso. Sei muito bem que os livros muitas vezes atrasam nas gráficas, mas seria possível fazer isto nalguns casos.

C-   Espaços: A área comercial e de autógrafos devia ser mais aberta e interligada, tirando partido do espaço disponível de modo a facilitar o binómio compra de livros-autógrafos. Por outro lado, é mesmo preciso ter de a redesenhar todos os anos? Não se podia, em acordo com os utilizadores, decidir o melhor modelo e mantê-lo?

D-   Cenografia: Apesar de apreciar o (globalmente bom) trabalho cenográfico no AmadoraBD dá de facto por vezes a ideia de haver uma "ditadura" da cenografia sobre o material exposto, que acaba por o ofuscar (nalguns casos isso nem é mau...). Ter uma exposição (a central) com aposta cenográfica forte e outras mais simples não era necessariamente pior, e talvez fosse mais económico.

Não ter medo da diferença, daquilo que o Festival nunca fez ou do que não entende muito bem: Seguem-se exemplos, mas para os aproveitar é preciso algo muito importante que é difícil encontrar em eventos com a dimensão e estrutura do AmadoraBD (não é por mal, está-lhes nos genes): a capacidade de delegar tarefas em quem as possa fazer com mais eficácia do que o próprio Festival. Nalgumas exposições creio que já foi feita a experiência (por exemplo, nalgumas de investigação que tinham o claro cunho dos respetivos comissários) com resultados interessantes.

E-   Fenómenos: A propósito de "Dog Mendonça e Pizzaboy", aproveitar e promover obras com potencial de cruzarem a BD com outros mundos/leitores. A capacidade auto-promotora do autor Filipe Melo deve servir como (bom) exemplo, não com a habitual amargura lusitana de criticar quem tem sucesso.

F-    Cosplay: Criar mecanismos/iniciativas que atraiam este público, que é claramente entusiasta e numeroso (e novo). Apostar melhor na BD japonesa, algo que passa, em minha opinião, muito mais por livros, jogos ou filmes (não só de animação) do que propriamente autores, já que a experiência demonstra que é duvidoso que nomes mesmo grandes do mangá venham à Amadora (não que não se deva tentar). Em contrapartida há inúmeros entusiastas nacionais, incluindo autores com capacidades interessantes que podiam ser mobilizados.

G-   Cinema e géneros: Não se tem aproveitado a enorme popularidade recente de filmes de superheróis, ou até do (Indiana Jones, aka)"Tintin" de Spielberg. Em menor grau o mesmo vale para o fantástico, policial, ficção-científica, viagens, música, autobiografia, a não ser em casos pontuais de exposições isoladas dedicadas a um livro. Na BD norte-americana e francófona essas pontes são constantes. A falha não é de hoje, mas é algo que se devia trabalhar.

H-   Investigação: Manter o bom trabalho de revelar investigação em banda desenhada ou correntes menos conhecidas, mas promover iniciativas um pouco mais consistentes e menos "ad hoc", como micro-colóquios com um pouco mais de organização  prévia do que o que tem sucedido. Por exemplo, o lançamento de "Mahou: Na origem da magia" (de Vidazinha e Hugo Teixeira, edições ASA) foi muito interessante, e merecia uma discussão sobre como fazer BD atrativa para jovens em Portugal. Para isso é preciso um auditório com melhores condições em termos de isolamento/acústica.

I- Prémios: procurar obter das editoras, não exemplares, mas listagens de obras editadas de modo a seleccionarem-se os livros nomeados. Publicitar esta informação com tempo, de modo a facilitar correções e a gerar uma base de dados. Discutir o número real de votantes nos Prémios. Caso esse número seja baixo é preferível que um júri rotativo nomeado pelo AmadoraBD se responsabilize publicamente pela escolha dos premiados. Ou seja: descartar o modelo dos Óscares da Academia, e adotar o de Prémios de Festivais de cinema. Já agora, deve haver a possibilidade de não se concederem prémios nalgumas categorias, caso o trabalho editorial não o justifique. 

João Ramalho-Santos
16:02 Segunda, 14 de Novembro de 2011

Ilustração

VER

Receber livros não é muito frequente, mas posso dizer que recebe-los de Maria João Worm (que não conhecia pessoalmente) foi uma experiência única. Explico: no interior do envelope vinha também, além dos ditos livros, um outro envelope, com selos. A explicação vinha na carta da autora: caso não achasse os livros interessantes (ou não tivesse espaço nas estantes) o envelope serviria para os devolver à origem.

Foi uma maneira notável de por o crítico no seu verdadeiro lugar, a mais de um nível. Acabei por devolver... o envelope.

(Texto publicado no JL-Papel)

O fenómeno das pequenas editoras tem uma dimensão inusitada na BD nacional, no sentido em que se encontram filosofias editoriais coerentes muito distintas, desde a emulação de fórmulas comerciais típicas de outros mercados, a trabalhos mais intimistas. Ode à diversidade inteligente, ou lamento por um mercado que impõe nichos ao nicho, o importante é notar que a maioria das propostas que vale mesmo a pena descobrir nascem neste viveiro. Por vezes demoram, mas chegam. É o caso de três excelentes obras de Maria João Worm: Colecção particular de A., Electrodomésticos classificados e Os animais domésticos. Os dois primeiros livros foram apresentados na sequência de exposições na Galeria Monumental há alguns anos, o último tem selo da nova editora Quarto de Jade (www.quartodejade.com ), um projeto com o também autor Diniz Conefrey. São livros que desafiam, apresentando novas maneiras de pensar com textos e desenhos (nenhum é de BD), incluindo composições rigorosas sem esforço ou necessidade de o parecerem.

Os dois mais recentes, Electrodomésticos classificados e Os animais domésticos, subvertem o tema da domesticidade a dois níveis. O primeiro na organização dos livros, um composto por uma grande folha dobrada, o outro abrindo-se como um harmónio. O segundo no modo como ambos usam um absurdo perfeitamente lógico. Electrodomésticos classificados consiste numa série de pequenos anúncios (classificados) de e para eletrodomésticos (mas não só), incluindo declarações de amor de uma torradeira a um saco de pão, um frigorífico que procura cuvettes, inúmeras ventoinhas com sonhos diversos (trabalhar para um detetive, ser promovida a hélice de avião), ou um triste "electrão reprimido que procura protão para marido". Textos simples, inteligentes e divertidos na sua seriedade, grafismos a sublinhar a individualidade de cada micro-história, desenhos a preto e branco que parecem quase anódinos até se perceberem subtis antropomorfizações. Os animais domésticos também trabalha a literalidade, apresentando gravuras de animais... realizando tarefas domésticas (passar a ferro, limpar, lavar a loiça). A qualidade das ilustrações está no modo como diferentes olhares (mais atentos ou menos, observando antes de ler a legenda ou depois) retiram interpretações que oscilam entre uma singeleza concreta e uma quase abstração de formas e cores, a lembrar um pouco o trabalho de Wundart e John Martins Walker.

Quem são Wundart e Walker? Dois dos ilustradores/pintores imaginados por Maria João Worm, cujas obras fazem parte da Colecção particular de A, uma pequena maravilha que se sente ter sido feita com precisão de modo a parecer uma recolha amadora. A premissa lembra os alter-egos criados por Tiago Manuel (e vários dos autores de Worm jogam também com o nome da autora), com notórias diferenças. Desde logo os autores de Colecção particular de A são artistas obscuros refugiados em Portugal, e a reflexão sobre Historia (não só de Arte), que faz parte integrante do trabalho de Tiago Manuel, é aqui mais indireta. Por outro lado Maria João Worm opta por uma caracterização breve de cada autor, quer em termos de informações, quer quanto a obras mostradas. Paradoxalmente esta economia condensada ajuda a adivinhar outras obras e evoluções de estilo, os autores como que se escapam da coleção, readquirem a sua individualidade.

Três livros magníficos. Quem os ler terá muito mais para pensar e dizer.

 

 

Colecção particular de A. Texto e desenhos Maria João Worm. Edição de autor. 42 pp., 15 Euros. (mjworm@gmail.com).

Electrodomésticos classificados. Texto e desenhos Maria João Worm (design de Nuno Neves e Susana Vilela). Edição de autor. 12 pp., 10 Euros.

Os animais domésticos. Texto e desenhos Maria João Worm (design de Nuno Neves). Quarto de Jade. 14 pp., 10 Euros.

 

 

 

João Ramalho-Santos
12:58 Quarta, 26 de Outubro de 2011

Prémios de Banda Desenhada

Composição: Porque decidi não votar nos Prémios do 22º Amadora BD

Já o disse, e repito: o Festival de BD da Amadora (agora Amadora BD) é  a melhor coisa em banda desenhada que se faz em Portugal.

Mas há aspetos em que não assume responsabilidades, ou as assume mal. Em minha opinião, claro. Uma delas é nos Prémios Nacionais de Banda Desenhada, que o Amadora BD promove. Algo que acho particularmente grave até por os prémios terem o nome que têm; caso ainda se chamassem "Zé Pacóvio e Grilinho" é possível que não tivesse o mesmo impacto, por muito respeito que me mereçam as personagens de António Cardoso Lopes. Os nomes têm importância, e a designação de "Prémios Nacionais" implica algo que deve ser muito sério, e dar trabalho.

Uma vez que a situação se mantem há muito tempo, e que este tipo de observações já foi feito por muita gente, presume-se que o sistema é para continuar.

Assim sendo as hipóteses são simples: continuar a participar no que considero uma iniciativa inútil e sem credibilidade; ou deixar de ser conivente com a mesma. Por isso este ano limitei-me a guardar o meu boletim de voto, como "souvenir".

Num texto anterior sobre o Amadora BD do ano passado escrevi o seguinte:

"Fora significados pessoais para autores e editores os Prémios dados a livros na Amadora nada significam. Ponto final. Em termos de vendas o reflexo será pouco mais do que nulo. Mas o problema é a escolha ser reduzida e o Festival não fazer qualquer prospeção, espera que as editoras se candidatem. Num mercado forte e diversificado isso é compreensível, no português é uma solução preguiçosa. O AmadoraBD tem obrigação de ir à procura da melhor BD possível, não há assim tanta editada em Portugal. Este ano (NOTA: 2010) sublinhe-se o caso caricato de haver um único livro nomeado numa categoria. Surpreendentemente ganhou... Qual é a relevância disso, que credibilidade dá? Mais valia ter dado um prémio especial a esse livro e não o sujeitar a uma "votação"."

Mantenho tudo o que escrevi na altura. Mas é bom esclarecer alguns pontos.

Sobretudo há que sublinhar isto: nada me move contra o Festival, pelo contrário. É um evento incrivelmente meritório, para mais nos tempos que correm. Muito menos tenho alguma coisa contra os elementos do júri que pré-selecionou as obras sujeitas a votação. Fizeram um bom trabalho, dadas as regras. O problema são as regras.

As regras dizem (em resumo) que o júri pode selecionar para votação em diversas categorias obras que se tenham candidatado aos prémios, propostas pelos respetivos editores. Os quais têm de enviar vários exemplares de cada obra (4-5), a distribuir pelos membros do júri. Este ano  houve 3 a 6 alternativas passíveis de votação em diferentes categorias.

Dir-se-á que esta metodologia é idêntica ao que sucede noutras áreas (cinema, literatura). Pode ser, mas não se adequa à BD (portuguesa) por um motivo-base simples:

O mercado é fraco e feito de muitos pequenos editores (para quem "perder" 5 exemplares para oferecer a um júri, para lá dos que já manda à imprensa, não é trivial); e, ao contrário dos prémios noutras áreas, estes não significam nada em termos de vendas. Caso significassem editores generalistas dar-lhes-iam mais publicidade, com tarjas a anunciar que o livro tinha sido premiado, por exemplo. Sucede nos prémios literários em Portugal, sucede nos prémios de BD dos Festivais em mercados fortes, como Angoulême ou San Diego; ou seja: quando é relevante. Portanto, porque irão editores dar atenção aos prémios? A obrigação de os tornar relevantes está do lado do Festival, não dos editores.

O resultado é simples para quem observar as listas de nomeados: há editoras excessivamente representadas (este ano os álbuns de música/BD da Tugaland; mas não os trabalhos da ASA, que faz um trabalho claramente superior ao de qualquer outra editora), e outras que não aparecem (muitas: Mmmnnnrrrg, Vitamina BD, Ao Norte, Planeta Tangerina, Libri Impressi, Devir, Quarto de Jade). Por outro lado, dá-se a possibilidade de votar num livro que, ao prazo-limite para a votação, mal tinha saído (não sei se era possível adquiri-lo ou não, eu ainda não o vi), que é "A Ermida" de Rui Lacas (Polvo). Por acaso eu acho Rui Lacas um notável autor português, e o que melhor sabe variar o seu registo em diferentes obras, mantendo sempre uma qualidade elevada. E, apesar do secretismo com que se rodeia, o trabalho do editor Rui Brito é também digno de registo. Ou seja: este é um livro que tenho muita curiosidade em ler, mas como votar no que não se conhece?

E há alternativas? Claro. O Júri dos Prémios do Amadora BD tem incluído pessoas competentes e responsáveis, que estão muito a par de toda a atividade editorial em torno da BD (não é assim tanta, repete-se). Com mais ou menos elementos esse júri devia ter a liberdade de elaborar uma lista de nomeados independentemente de editores/autores que concorrem, em vez de apenas pactuarem com as instruções dadas e com as "borlas" recebidas. Ou, pelo menos, o júri devia ter a possibilidade de sugerir obras não nomeadas pelos respetivos editores, sobretudo em casos em que os editores não mandaram obra nenhuma. Isto por vezes sucede, mas é sempre "ad hoc"; ou seja, mal.

Dá mais trabalho? Sem dúvida. Mas, apesar de tudo, são modificações que me parecem banais, e talvez com elas os Prémios da Amadora fossem mesmo credíveis enquanto Prémios Nacionais, e valesse a pena participar, publicitar e discutir os resultados. De momento não é o caso.

Outra sugestão é óbvia: que tal o Festival de Beja promover os "Galardões Portugueses de BD" (ou o que lhes quiserem chamar), concedidos noutros moldes? Nisto, como noutras coisas, não há nada como uma alternativa séria.

 

 PS- Como é lógico estes comentários NÃO são extensíveis aos concursos de banda desenhada, que têm corrido muito bem e revelado muitos talentos promissores.

 

 

 

 

 

João Ramalho-Santos
12:52 Sexta, 14 de Outubro de 2011

Banda Desenhada

LEGADO

Por vezes a edição tem destas coisas: pretexto para uma boa exposição no Festival da Amadora do ano passado É de noite que faço as perguntas (Saída de Emergência) é agora lançado. Valeu a pena a espera.

(texto publicado no JL-Papel)

Concebido por David Soares o livro é uma meditação sobre a República, preparado a propósito do centenário da sua implantação. Ao longo de vários episódios um pai-narrador propõe-se transmitir a um filho ausente enamorado com o Estado Novo uma espécie de legado: a memória desiludida de como o desejo de liberdade na República originou o conforto da opressão salazarista. É de noite que faço as perguntas é uma livro interessante logo aí, por não se deter no tom celebratório, mas na amargura que compõe o reverso da medalha. Nas efemérides o contraponto é sempre útil, mesmo que tão parcial quanto o ponto, e, desse ponto de vista, é pena que o livro não tenha saído antes.

O tom meditativo usado nesta banda desenhada parece aplicar-se a qualquer outra revolução que não tenha cumprido integralmente ideais, ou seja todas. Para muitos leitores pode ser mesmo inevitável senti-la enquanto elegia ao 25 de Abril, atrasada no tempo. Mas também podia ser sobre a Revolução Francesa, ou a Americana, ou... O facto de no livro a mensagem não passar, e o legado se revelar inútil, pode representar isso mesmo.

É de noite que faço as perguntas divide-se em episódios confiados a distintos desenhadores. Os temas abordados vão do regicídio à nomeação de Oliveira Salazar para a pasta das finanças, passando por toda a turbulência intermédia que inclui a Primeira Guerra Mundial ou a ditadura de Sidónio Pais. Mas David Soares pesquisa mais fundo, tenta traçar um retrato mental do país com elementos que incluem o Ultimato inglês (notável o uso dos penicos debaixo da cama), as viagens de Sacadura Cabral e Gago Coutinho (encaradas enquanto uma espécie de "Descobrimentos, série B"), ou marcos culturais como o Orpheu. O ritmo oscila entre o onírico-simbólico e a narratividade mais linear, sendo que o segundo dispositivo serve sobretudo para acompanhar a evolução do protagonista, enquanto o primeiro pontua a mutação paralela do país. A utilização de simbolismo é aqui muito eficaz a resumir estados de alma em cada um dos capítulos com um mínimo de espaço. Noutros tipos de obras poderia resultar pesado, vago ou ostentatório; neste caso, não só resulta em pleno, como é essencial, considerando a condensação temporal que se pretende. Nesse particular sente-se o espírito de uma das grandes influências de Soares em BD, o inglês Alan Moore. Falta, no entanto, um elemento fundamental deste último: as detalhadas notas finais que em obras como From Hell contextualizavam o contexto histórico e decifravam as várias citações (gráficas e narrativas) mais ou menos escondidas em cada página. De facto, É de noite que faço as perguntas também se pode considerar um exercício de decifração para o leitor, embora (e a ressalva é crucial) resista muito para além disso; mesmo que não se compreendam algumas referências o "spleen" é palpável. E para tal contribui sobremaneira um trabalho gráfico excelente, dos melhores que tenho visto numa obra coletiva. Encarregando-se de diferentes episódios, Jorge Coelho, João Maia Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara conseguem transmitir uma unidade global à obra, mantendo-se ao mesmo tempo perfeitamente individualizados na caraterização gráfica de cada um dos momentos/andamentos escolhidos pelo argumentista. Ao contrário do que sucede noutros livros com estas caraterísticas, aqui não há elos fracos.

Fugindo a expetativas É de noite que faço as perguntas é um livro que vale a pena ler, decifrar, discutir.

 

 

É de noite que faço as perguntas. Argumento de David Soares, desenhos de Jorge Coelho, João Maia Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara. Saída de Emergência, 64 pp., 18 Euros.

João Ramalho-Santos
18:23 Sexta, 7 de Outubro de 2011

Estudos de Banda Desenhada

Composição: O que eu achei das Primeiras Conferências de Banda Desenhada em Portugal

Em resumo? Achei muito bem. Parabéns a Pedro Moura, enquanto responsável máximo e face visível da Organização, extensíveis a todos quantos com ele colaboraram.

Venham as Segundas, maiores e melhores.

Mas não é útil dizer só isto sobre o evento que decorreu em Lisboa a 22 e 23 de Setembro passado.

Ficam então algumas breves notas.

As Boas:

1- Há muita coisa a ser feita em termos de estudos de banda desenhada em Portugal, em vertentes e com abordagens muito diversas. Para mim foi extraordinariamente enriquecedor e, para lá do convívio, aprendi com todas as comunicações, por mais cliché que isto soe.

Para quem ainda não teve oportunidade o Programa pode ser consultado em vários sítios, por exemplo aqui

http://cbdpt.blogspot.com/

2- Para além de comunicações nacionais a qualidade dos convidados estrangeiros (David Kunzle e Thierry Groensteen) dificilmente poderia ter sido superior.

3- As conferências deixaram vários embriões de ideias, desde um laboratório de banda desenhada que ajude investigadores interessados a encontrar ou complementar referências, à possibilidade de publicação de Actas em português e inglês, a eventuais intervenções noutros locais, a sugestões diversas para as Segundas Conferências. Esperemos que a dinâmica seja para continuar.

4- Foi excelente terem-se gerado discussões acesas, foi pena não terem sido mais, e não terem sido mais ativamente procuradas. Também porque:

 As Menos Boas 

5- Horários não foram cumpridos. Não gosto de ser "polícia do tempo" (quem gosta?) mas algumas comunicações abusaram e depois não havia tempo para perguntas/discussão. Com grande pena minha não pude assistir ao fecho porque tinha comboio marcado. E, já a contar com atrasos, tinha escolhido um comboio que partia duas horas depois do fecho presumido das Conferências...

6- Há claramente mais pessoas interessadas em BD do que as que apareceram no Institut Français. Por outro lado, alguns dos que apenas assistiram são gente de muito mérito que tinha a obrigação (digo-o com cuidado, e repito: a obrigação) de ter participado com comunicações. Tive muita pena de não os ouvir.

Também acho que aparecer ostensivamente só para apresentar a sua comunicação e ir logo embora não é assim muito útil, ou até educado. Mas isso sou eu, não posso levar a mal. Nos congressos da minha área também sucede, mas geralmente há mais pessoas, nota-se menos...

 

 

 

 

João Ramalho-Santos
18:26 Segunda, 26 de Setembro de 2011

Banda Desenhada

PÚDICO

Um dos melhores autores portugueses de banda desenhada seria um dos artistas nacionais que mais "controvérsia" geraria se trabalhasse noutro formato, das artes plásticas ao cinema. Como trabalha em BD (e também em cinema de animação) permanece mais desconhecido do que deveria.

Passar por uma secção de BD e encontrar um livro de Janus distraidamente poisado junto a obras infanto-juvenis pode significar uma de duas coisas. Um acto subversivo propositado. Ou a prova que a BD continua a ser agrupada e catalogada como um todo, sem olhar a conteúdos. A editora Mmmnnnrrrg faz muito bem o seu papel em prol da primeira hipótese, com uma designação discretíssima "Obra para leitores Maduros" a funcionar como antítese da costumeira faixa castradora "BD PARA ADULTOS", que, como se sabe, apenas serve para chamar a atenção. Apesar disso o mais provável é ser verdade a segunda alternativa. E isso só mostra alheamento. O título do mais recente livro de Janus, e o folhear distraído do seu conteúdo, não deixam lugar a dúvidas. Podem-se usar eufemismos, mas O pénis assassino é uma muito interessante BD pornográfica.

A base do argumento é simples: um homem revela-se irresistível para as mulheres que, no entanto, morrem no momento em que atingem um orgasmo, uma morte que parece o vírus Ebola acelerado. Prazer e morte desencadeados por um mesmo órgão, naquela que parece uma ideia para uma paródia pornográfica a filmes de terror, no quais de resto o sexo tende a ser sempre castigado. Uma variante (o perigo de "super-ejaculações") foi utilizada em várias BDs humorísticas de superheróis, por exemplo The Pro (de Garth Ennis com Amanda Conner/Jimmy Palmiotti, edição da Devir). Fazia também parte do argumento original do filme Hancock, embora tenha sido removida quando Will Smith assumiu o protagonista. Também se poderiam referir obras pornográficas "clandestinas" em BD, sobretudo as americanas (como as Tijuana Bibles dos anos 1920-60), latino-americanas ou europeias.

Mas, apesar de algumas afinidades gráficas e de composição, O pénis assassino pouco tem a ver com isto, e faz uma tangente à escatolologia pura. Esta é uma reflexão paródica crua sobre desejo e culpa (extremamente católica), com toques de telenovela. É sobretudo, e contra todas as aparências, uma obra púdica. E também misógina (é inevitável citar Robert Crumb). O sexo é uma compulsão que todos sofrem; mas as mulheres morrem, deixando o protagonista muito perturbado psicologicamente e, no final, nos braços de uma mulher mais nova... É verdade que morre um homem, mas quem o mata é uma mulher, pelo "previlégio" de, por sua vez, perecer. Esta literalidade estabelece uma diferença importante com a excelente obra anterior de Janus, O Macaco Tozé; ao tornar o protagonista mais "real" O pénis assassino perde subtileza. Mantem a mesma riqueza gráfica (outra vez ecos de Crumb), com uma patine de gravura pelo pormenor do traço, particularmente notável quando interrompido por uma chuva quase seminal. Mais convincente na representação do desejo e sobretudo da culpa do que propriamente da violência, o desenho enche o cenário e o protagonista de sombras.  Vincando um tom soturno que, ao contrastar com o texto, evita que as leituras mais óbvias sejam as únicas. A interacção entre representações gráficas e narrativas é aquilo que revela a boa banda desenhada. Neste caso se exatamente as mesmas palavras e planificações de O pénis assassino tivessem sido servidas por um desenho mais luminoso e aberto (Luís Louro, por exemplo) o resultado final teria sido completamente distinto. É isso que impede descartar a obra de Janus por conta do óbvio.

A bela edição da Mmmnnnrrrg realça o conteúdo com uma apresentação sóbria, mantendo uma estratégia comum na editora de usar traduções em inglês no rodapé, de modo a permitir a comercialização internacional do livro.  Só se espera que ajude Janus a perturbar mais gente, em mais sítios.

 

 

O pénis assasino. Argumento e desenhos de Janus. Mmmnnnrrrg, 120 pp., 15 Euros.

João Ramalho-Santos
13:30 Terça, 13 de Setembro de 2011

Banda Desenhada

LIMBO

Na banda desenhada portuguesa predominam as obras experimentais e de autor. Ou seja, há muita BD alternativa, que não é, em boa verdade, alternativa a coisa nenhuma, pelo menos não em termos de BD nacional. Por outro lado, as tentativas de traçar rumos distintos têm sobretudo referências norte-americanas (com vários autores a trabalhar nesse mercado) e nipónicas. Isto não é uma crítica ou um lamento, até pela qualidade evidente nas várias áreas, apenas uma constatação. Mas neste contexto o muito interessante trabalho de Jorge Miguel, com as suas influências europeias e distintos mecanismos narrativos corre o sério risco de passar injustamente despercebido, por não se encaixar nas principais correntes atuais.

(texto publicado no JL-Papel)

Jorge Miguel já tinha surpreendido com Camões: De vós não conhecido nem sonhado, uma abordagem inteligente ao protagonista no seu tempo histórico. E O Fado Ilustrado (Plátano) é, num certo sentido, ainda mais interessante. Com referências à implantação da República, o livro fala um pouco da situação política (de D. Carlos à Carbonária ao Ultimato à Primeira Grande Guerra), com a capa a imitar um jornal da época. Mas há também muito Eça de Queirós. São vários temas cruzados, há constantes saltos temporais e não é fácil por vezes seguir os eventos, parecendo o livro parte de um todo maior. Paradoxalmente, o estilo narrativo e o tom gráfico realista com toques caricaturais são de absoluta clareza, sugerindo um estilo de BD pedagógica com uma longa história entre nós. Mas, se Jorge Miguel se preocupa em fornecer diferentes tipos de informação, esta não é uma obra clássica nesses moldes (onde as grandes referências serão José Garcês e José Ruy). Pelo contrário: é preciso saber (ou ir procurar) para seguir convenientemente O Fado Ilustrado. Por outro lado, e sem ceder ao realismo, surge por vezes uma componente humorística inesperada. É desse ponto de vista que o livro, tal como o seu antecessor, surpreende, fugindo a todos os cânones.

De resto todos os temas referidos funcionam como um vasto pano de fundo para o verdadeiro assunto: uma recriação ficcionada de como o pintor José Malhoa terá pintado o seu famoso quadro, O Fado. Qual a história por detrás da obra? Quem são o guitarrista e a mulher que o olha embevecida, como chegaram àquela pose? De que (sub)mundo lisboeta nasceram, e o que nos diz o quadro sobre o seu tempo? Numa altura de crise e potencial mudança, entre a intervenção e a indiferença, como era o país visto através das escolhas de um pintor? E, sujeito hoje ao olhar-opinião de Jorge Miguel (e de cada leitor), de que modo mudou, cem anos depois? O que é (são) O Fado? Intencional ou menos, a reflexão sobre representados e representação, pessoas e símbolo, é ainda mais interessante porque surge com naturalidade no fluir de uma história, não enquanto tratado ou manifesto.

Por entre as boas re-edições históricas, experimentações variadas, e emulações de "mangá" e "comics"  que marcam a BD nacional tem de haver um lugar de maior destaque para Jorge Miguel, que não seja apenas uma espécie de limbo não catalogável. Esta é claramente uma voz inovadora em construção, que merece ser ouvida.

 

 

O Fado Ilustrado. Argumento e desenhos de Jorge Miguel. Plátano. 48  pp., 12 Euros.

João Ramalho-Santos
10:47 Segunda, 29 de Agosto de 2011
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