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Dia Mundial da Língua Portuguesa

As Orelhas não Vendem

A propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado a 5 de Maio, Ricardo Adolfo escreve sobre orelhas, línguas e compras

Ricardo Adolfo
10:00 Quarta, 5 de Maio de 2010
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As orelhas não vendem
As orelhas não vendem
DR
Tirei o casaco da farda, sentei-me, baloicei a cadeira até bater na parede, e comecei a ronda dos monitores. Nada a assinalar no parque 1, nada no 2 e nos outros nem cheiro dos casalinhos a acasalar. Bateram à porta. Só podia ser o outro segurança de volta por algo esquecido. Disse-lhe - tá berta. Mas a voz que voltou trazia maldade. Olhei para trás e vi dois maus. Sem mais dizeres um garroteou-me o pescoço, enquanto o outro me tentava abrir a boca.

foda-se, disse-lhes
a gente só quer a língua, não quer aleijar ninguém, disse o mau mais mau
a língua?
sim, e não perguntes porquê
a língua não
cala-te e abre a boca masé.

E eu calei. A tesoura que ele tirou do bolso era tudo o que precisava de ouvir. O mau menos mau continuava calado. Parecia grunhir de vez em quando ou então eu já delirava.

se não te mexeres dói menos
mas praqué que queres a língua?
pra vender
a quem?
a quem compra línguas
maseu sem língua morro
morres nada; olha lá pra ele

O mau menos mau abriu a boca para me apresentar o coto de língua responsável pelos grunhidos. Afinal não delirava.

se querem uma língua eu tenhuma lá em casa, masa minha não ma tirem
tamém andas a vender línguas?
não, foi a minha vizinha quemadeu, é de boi
de boi deixatar
por favor, sem língua vou perder o trabalho outra vez, e eu indágora comecei à experiência
não é como se tivesse aqui muita gente prá conversa
até fico sem moça, ela já me disse tantas vezes ca minha língua é um milagre; levem antes uma orelha
as orelhas não vendem, ninguém quer ouvir
peço-vos por Deus, é queu falo muito
nota-se
não é isso, é uma necessidade, é como se fosse uma doença
se quiseres deixamos-te no hospital, e eles colam-te outra
não tása ver, não pode ser outra, não vai caber, eu vou tropeçar nela, vou soar falso, ninguém vai acreditar em mim
pois

Percebi que não havia volta a dar-lhe. Pedi um cigarro. O mau menos mau deu-me um Gigante aceso. Saboreei o fumo devagar com o SG no canto da boca, e o fumo a subir-me pela vista direita. A cinza foi caindo na farda, e na antepenúltima passa girei o cigarro para dentro enrolado na língua. Berrei, esganado de dores. O mau mais mau encheu-me a cara de bofetadas.
cabrão, uma língua queimada não vale nada, disse. E eu, se conseguisse responder tinha-lhe dito - tivesses metade do amor queu tenho à minha língua e nem esburacada a deixavas roubar.

     
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