agora, que ela tem noventa anos, olho-a e não a vejo com a sua idade, vejo uma rapariga, igual à dos retratos antigos, alguns mais antigos que eu, às vezes contente, às vezes séria, ainda menina, ainda adolescente, ainda jovem mulher
A minha mãe diz que na altura em que eu era bebé lhe doía a boca de me dar beijos. Não me lembro deles mas alguma parte minha deve ter saudades desse tempo porque sinto a falta de qualquer coisa que não sei exprimir, qualquer coisa leve e doce, um contacto, palavras, cheiros, uma espécie de ninho de que eu fosse o ovo feliz, um ovozito de nada, pintalgado, minúsculo. É curioso: agora, que ela tem noventa anos, olho-a e não a vejo com a sua idade, vejo uma rapariga, igual à dos retratos antigos, alguns mais antigos que eu, às vezes contente, às vezes séria, ainda menina, ainda adolescente, ainda jovem mulher. Um desses retratos, não sei bem qual, foi tirado num fotógrafo que pôs uma cópia na montra. Ao passar pela montra, tempos depois, o meu avô não deu com ele. O homem da loja acabou por confessar tê-lo vendido a um estudante que se apaixonara por aquela imagem. Resultado: cena do meu avô ao fotógrafo e atrapalhadas explicações do sujeito que prometeu recuperá-lo. Semanas depois apareceu a devolver o papel, desfeito em desculpas, no medo que o meu avô o devorasse à dentada. Nas costas, a lápis, o rapaz escrevera uns versos de António Sardinha
Ó pastorinha de vitral e bruma
Que sobre mim a tua graça entornes
e, ao repetir estes versos, a minha mãe iluminava-se, de tão feliz. Nunca o disse mas estou seguro de haver sido o que de mais bonito lhe aconteceu na vida (o meu pai nem sequer tocava ao entrar em casa) e que, toda a sua existência, este episódio a acompanhou, e acompanha ainda, como uma lâmpada secreta. De quando em quando recito-lhe poemas de António Sardinha
Seguem-te os alicornes mansamente
Pastando neve na montanha azul
e ela, de pálpebras descidas, a sorrir. Este episódio, quando a minha mãe era pouco mais que uma criança, ficou-lhe para sempre na alma, e o tal estudante tornou-se como que o halo de um ideal que não chegou a viver. Trazia uma assinatura por baixo, contava ela, mas o teu avô apagou-a, e a lembrança da assinatura apagada ensombrecia-a. A voz tornava-se-lhe mais lenta
- Nunca soube quem era
e depois vieram muitos filhos, desgostos, o casamento com um homem difícil, meia dúzia de coisas boas, espero, e as palavras de António Sardinha a mostrarem-lhe o que devia existir e não viveu nunca:
Se eu te pintasse posta na tardinha
Pintava-te num fundo cor de olaia;
Na mão suspensa, nessa mão que é minha,
O lenço fino acompanhando a saia
a minha mãe, depois de silêncios compridos, um
- Pois é
baixinho com um mundo inteiro dentro, cheio de tudo o que não sucedeu. Seriam para mim, mãe, os beijos que lhe faziam doer a boca? Seja sincera, eu não me importo. Ou então, se calhar, só uma parte me cabia. A outra destinava-se a uma assinatura apagada pelo meu avô, um estudante que a ajudou a sonhar anos e anos
Deixa cair dos lábios de medronho
A perfumada voz do nosso sonho
Mas tão baixinho que só eu entenda
diante da injusta dureza dos dias. Ao pensar nisto, sabe, acho que a compreendo melhor: o desejo de ser idealmente amada, a magra consolação
- Valeu a pena casar-me pelos filhos que tive
e a possibilidade de se aproximar de um rapaz tão romântico, tão sensível, e que, segundo o fotógrafo, se desfez em desculpas aflitas. Como seria ele, não é, mãe?
Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
Com ar de infanta que perdeu a aia
Envolta nessa luz que te acarinha
Na luz que desfalece e que desmaia
Sabe, não se preocupe, continua a ser a pastorinha de vitral e bruma, a palpar o caminho quase cega, ou numa cadeira da sua saleta, à espera de nada. Ou, então, na esperança oculta que o estudante que comprou o retrato na loja, lhe chame, ao ouvido, pastorinha de vitral e bruma e os seus olhos tornem a ver, os membros difíceis se desatem, não precise de remédios nem de médicos para nada e, envolta numa luz que a acarinha, se dirija não sei para que sítio, onde um júbilo sem manchas a espera. De uma das últimas vezes perguntei
- Como se sente?
uma espera difícil
- A desfazer-me aos bocados
e, palavra de honra, tive ganas de ser eu o estudante, rodeado de alicornes a pastarem neve na montanha azul: nesse caso, percebe, podia pegar-lhe na mão, nessa mão que é minha entornava a sua graça sobre mim e partíamos os dois
Linda menina ingénua de Velásquez
A flutuar num mar de seda e renda
sem tocarmos no chão, desprovidos de peso, no sentido do lugar onde está o seu pai, a sua mãe, os seus manos, tudo aquilo que desejou e não teve, que quis e não lhe foi dado. Claro que sou apenas seu filho: mas talvez que se lhe doer a boca de me dar beijos valha a pena. Guardo alguns no bolso para o caso do rapaz que comprou a fotografia aparecer. Então entrego-lhos
- A minha mãe manda isto
e aposto que os seus olhos, por um momento que seja, o conseguirão ver, enquanto eu fico, um pouco à parte, tão comovido com a sua beleza, a repetir não para si, para mim
Se eu te pintasse posta na tardinha
Pintava-te num fundo cor de olaia
e nunca mais ninguém a torna triste.
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4:50 Quinta-feira, 4 de Mar de 2010
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Uma ambulância a chorar na avenida, coroada de lâmpadas azuis e encarnadas: deve ser a cozinheira a atravessar Lisboa. Lucília.
Os cães vadios chegavam em bando, vindos do escuro do pinhal, magríssimos, amarelos ou cinzentos, com feridas no lombo e de nariz junto à terra, a murmurarem. Aproximávamo-nos e fugiam com medo. Comiam pássaros mortos, carcaças de coelho, detritos. Às vezes, ao crepúsculo, sentia-os à volta da casa, procurando os sobejos do lixo no caixote: restos de frango, ossos, farrapos de embalagens de margarina, caroços de fruta. De tempos a tempos soluçavam, não ladravam nunca. Um deles, de pata mirrada no ar, caminhava com as outras três e as velhas, sentadas de lado nos burros, ameaçavam-nos com a bengala. Ou então dava com os cães de roda da capoeira a mirarem as galinhas. A cozinheira achava que eram almas penadas de gatunos. Os miúdos matavam-nos à pedrada, sob os castanheiros, e os animais ficavam para ali, cheios de moscas, a enterrarem-se sozinhos: quando não se enterra uma coisa viva a coisa sepulta-se sem ajuda, a pouco e pouco. As formigas auxiliam. E umas lagartas esquisitas, esbranquiçadas: tantos mistérios no mundo. Os arcos-íris, por exemplo, ou os milhafres da montanha, quietos lá em cima, a escolherem o vento. Tornei a dar por eles em África. Pelo menos pareciam-me eles, só que maiores e mais imóveis ainda. A única coisa que me surpreendia era a cozinheira não estar lá, a repetir
- Os milhafres
pasmada. Um dia adoeceu do peito e levaram-na. Desceu as escadas amparada a dois bombeiros. Lembro-me das pantufas e de segredar, pela dificuldade da boca
- Não tornamos a encontrar-nos, menino.
E não tornámos a encontrar-nos, realmente: o hospital de Viseu tão longe. Tudo tão longe nesse tempo, as caras dos adultos quase junto ao tecto, as cadeiras enormes e o mundo a encolher com os anos. Quando fica pequeno adoecemos nós: já vão sendo horas de arranjar umas pantufas.
Aqui, onde estou, a noite treme: não são as árvores, não são as sombras, não é a roupa, pendurada nos fios, que mal se distingue: quem treme é a noite. Move-se devagarinho na direcção de quê? Uma ambulância a chorar na avenida, coroada de lâmpadas azuis e encarnadas: deve ser a cozinheira a atravessar Lisboa. Lucília. A mala dela debaixo da cama, quase vazia, uma santinha fosforescente no vão da janela, brincos de pobre numa latita. Cheirava a lenha e a azedo, começava a ter rugas em torno da boca: se durasse uns meses mais tornava-se uma velha sentada de lado no burro a ameaçar os cães vadios com a bengala. Ao almoço tiravam uma batata crua do xaile e principiavam a roer-lhe a casca numa lentidão avarenta, enquanto os maridos, de boné, arrastavam a bota esquerda no largo. Reparando bem como a noite treme. Ou será a minha mão no papel? Avança e recua na cadência do sangue e eu a dilatar-me e a encolher-me com ela. Vontade de lhe chamar diminutivos: noitinha. Tão bonitos os diminutivos na nossa língua. Noitinha. Não tornamos a encontrar-nos, menino. E os brincos de pobre que não saem da ideia, a ferrugem na latita. Em cada ambulância é ela a circular na cidade, sem repouso. Não há hora que a não oiça, à roda, à roda. Se me aproximasse da ambulância fugiria com medo, como os cães? Ou levava-me à despensa
- Apetece-lhe um quadradinho de marmelada?
e ficava a ver-me comer, muito séria. Que queres de mim, noitinha, que não paras de chamar-me? Oiço o meu nome. Oiço o pêlo do tapete crescer, devo sentir-me sozinho, sinto-me sozinho, noitinha, confesso que me sinto sozinho: não há por acaso um burro aí para eu me sentar de lado com a minha batata no xaile? Roê-la mesmo crua, mesmo com casca? Cheirar a azedo e a lenha? Os milhafres em Portugal, os milhafres em África. As cadeiras enormes, tudo enorme. Apagar as luzes e ficar na casa vazia, de olhos abertos, à espera que qualquer coisa venha e me leve, não importa para que sítio desde que seja longe, onde ninguém me chama. De qualquer maneira, mesmo que permaneça à secretária, ninguém há-de chamar-me.
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6:21 Quinta-feira, 18 de Fev de 2010
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As cabeleireiras do Selão Pereira, perto da casa da minha infância, ainda hoje me fazem sonhar
Que mês de janeiro tão comprido, que lentidão nas horas. Dia 7 fazia anos a minha outra avó: já ninguém se lembra dela, morreu completamente. O problema, depois de desaparecermos, será não ser esquecido ou não ser suficientemente esquecido? O que é um nome, a memória de um nome? Às vezes pode ficar-se vivo por uma frase só. Por exemplo a rapariga, na Índia, de quem Camões dizia que chiava como água num pucarinho novo. Dessa recordo-me sem nunca a ter visto. Ou de D. João de Castro a comentar, acerca de um homem de barba branca e cabelo preto
- Pensa mais com os queixos do que com a cabeça.
As coisas que me ficam na ideia, meu Deus, que armazém os meus miolos. Os vencedores da volta a França quase todos, por exemplo, desde 1930. Gangsters de há mais de 60 anos, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly, Legs Diamond, o grande Dillinger. Pugilistas: Carl Bobo Olsen que tinha Mama no braço tatuado, Ray Sugar Robinson, o imenso Georges Carpentier que se finou antes de eu ter nascido e usava risca ao meio. Tive uma fotografia dele, elegantíssimo, as orelhas um bocado em couve flor, é claro, o nariz um bocado amassado, é evidente, mas elegantíssimo, de boquilha e polainas. No princípio do século 20 houve um combate em 112 assaltos. Gosto de ciclismo, de gangsters, de boxe. De certas respostas. Uma senhora que detestava Churchill a declarar-lhe
- Se eu fosse sua mulher envenenava-lhe o chá
e a resposta de Churchill
- E se eu fosse seu marido, minha senhora, bebia-o.
Um primo do meu pai ao apresentarem-lhe o rei Humberto de Itália
- Tem graça, é a primeira vez que vejo um rei fora do baralho e me ficou para sempre porque não concebo reis fora do baralho a menos que Baby Face Nelson fosse imperador de Portugal. E janeiro não acaba. Também porque carga de água havia de acabar? Leio livros maus uns atrás dos outros: a quantidade de tralha que se imprime deixa-me de boca aberta. O que pensarão os autores destas coisas das bodegas que fizeram? Se calhar andam felizes, como eu quando vi Oscar de la Hoya combater. Sabará, Maneca, Vavá, Pinga e Parodi, a linha avançada do Vasco quando tinha 6 anos: tudo se me pega à memória, que maçada. Criaturas a tocarem piano. Cromos de actrizes de cinema que sorriam, em fato de banho, no papel, e eu seguro que era para mim que sorriam. Uma ocasião, no eléctrico para o liceu, uma mulher da idade da minha mãe encostou-se a mim: a primeira grande perturbação, um pânico feliz. O peito a roçar-me na cara, os dedos na pega sobre os meus e eu muito quietinho, extasiado, cheio de durezas inesperadas, porções que cresciam, agarrado a ela num desespero de náufrago. A certa altura desprendeu-se de repente e foi-se embora. Agarrado a ela num desespero de náufrago aprendi nos livros maus. Nunca mais a encontrei e se a achasse de novo, mesmo hoje, agradecia-lhe. Se calhar passa as tardes na pastelaria, viúva, diante de um café vazio, com o guarda- -chuva nas costas da cadeira e uma reformazinha aflita, a água do reumático a assobiar nos ossos.
As cabeleireiras do Salão Pereira, perto da casa da minha infância, ainda hoje me fazem sonhar. E aquelas que arranjavam as unhas aos homens na barbearia do meu avô. O senhor Melo, que me cortava o cabelo, parecia um arquiduque.
- O menino nunca vai ficar careca
anunciava ele com pompa. Enganou-se um bocado, e a toalha cheia de madeixas loiras que às vezes se metiam no colarinho e me faziam cócegas pelas costas abaixo. Torcia-me e o senhor Melo
- Ainda lhe corto uma orelha se continua assim
e que mês de janeiro tão comprido, que lentidão nas horas. Ontem estive no hospital: desgraças e desgraças, os olhos das pessoas. Cá fora sol. A paragem do autocarro cheia de gente séria que nem sabe como a minha outra avó foi. Falava pouco. Tinha olhos azuis. Era feia. Pareço-me com o irmão dela, com a família dela. Nem sonhava quem era Machine Gun Kelly. É horrível confessar isto, avó, mas penso mais em Ray Sugar Robinson do que em si.
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4:06 Quinta-feira, 4 de Fev de 2010
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O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez
Vacilantes rostos do passado: os meus avós, os meus tios, a minha bisavó, já tontinha, um militar com as tripas nas mãos a olhar-me na picada, numa atitude de oferta. Silenciosos verões, a serra da Estrela que continua a fazer-me sonhar, o céu da noite sobre as ramadas dos pinheiros. Cheiros da Beira Alta que só a mim pertencem, da roupa engomada nas gavetas e o do incenso, na igreja, quando era menino do coro e as flechas de São Sebastião, num altar lateral, me atormentavam. Riscos encarnados a imitarem sangue no corpo de pasta. A minha embirração por São Luís Gonzaga, possuidor de todas as virtudes que eu não tinha: obediência aos pais, bom aluno, simpático até ao enjoo e, segundo a pagela, esmoler. Ainda hoje a palavra esmoler me provoca uma reacção no género da que me transtorna quando uma faca raspa o fundo de um prato ou o giz, na escola, guinchava na ardósia. Esmoler não lembra ao diabo mas lembrou ao biógrafo de São Luís Gonzaga, que devia ter sido fuzilado no berço antes de ter tempo de crescer e escrever aquilo. O problema das crianças é que se tornam adultos: os gatos, por exemplo, são sempre gatos, que alívio. E os cavalos de carrossel não mudam nunca. Saudades do carrossel em forma de oito:
- Viaje no oito que viaja melhor
berrava o altifalante, e atrás do microfone um homem gordo, de bexigas, a piscar o olho às pequenas jeitosas enquanto limpava o suor das bochechas com um lenço gigantesco, esse não um vacilante rosto do passado, uma cara pavorosamente nítida, de anel do tamanho de uma algema no dedo. Silenciosos verões durante o dia, os insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre, asas queimadas crepitando. O sorriso do meu avô surdo que poisava em nós sem nos tocar e se ausentava num abismo de mudez. O bolso do casaco dele cheio de palitos que não sei para que lhe serviam, não os punha na boca. Depois de morrer o casaco, de linho branco, permaneceu que tempos no cabide. Era bonito e triste, de uma melancolia amável. Não me ligava nenhuma, dava ideia de não ligar a ninguém. Sorria apenas. Vacilantes rostos ou sombras? Isto parece a introdução do Fausto de Goethe, vou mudar a agulha. Lembro-me da minha mãe cantar, lembro-me de parecer nossa irmã, lembro-me de eu a querer escrever. Com cinco ou seis anos copiava coisas dos jornais e considerava-as minhas. Fazia versos. Por volta dos treze anos comecei a entender que não tinha talento e seguiram-se séculos e séculos de prosa. Na altura ainda fazia essas diferenças. As prosas eram, evidentemente, horríveis, tinha consciência disso, mas tinha também a certeza inabalável, de cimento, que iria fazer o que nunca, antes de mim, se fizera. É esquisito que ainda hoje não pasme com a minha convicção de garoto. Como Bocage ao acabar de dizer um poema:
- Isto é meu, isto não morre.
Pois, mas morreu ele. Claro que nessa altura não me preocupava o que preocupava Balzac e ainda me preocupa hoje: a forma interna, as possibilidades internas do material, a administração das palavras no interior do texto, mas não vou aborrecer as pessoas com problemas técnicos. Quero que o canalizador me ponha a torneira a funcionar, não me interessa como o faz. E a maior parte dos leitores exigem resultados, o meio de os atingir é-lhes indiferente, enquanto a mim, por dever de ofício, o que me atrai num livro é desmontá-lo, ver o por dentro, os parafusos, as rodas dentadas, os amortecedores
(amortecedores é fundamental)
as bielas, a tralha escondida que põe a funcionar tudo aquilo. Quando John Cheever escreve "numa boa página de prosa ouve-se chover" a questão é como se chegou a isso, que milagres não há. De que maneira treinar a cabeça e a mão, apagar da memória tudo o que não faz parte do livro, aprender, até a tornar instintiva, a fazer a triagem do que nos irá servir e jogar fora resto. Que longo caminho até chegar aqui. E, ao mesmo tempo, a sensação de que estamos sempre a começar. Queridos, vacilantes rostos do passado. Daqui a nada eu, passado igualmente, na memória dos outros:
- Como era o António, que não me recordo bem?
Casaco e palitos não tinha, sorriso pouco, quase não falava. Sujeitava-se mal à ordem das coisas. Tentou, a vida inteira, conseguir vários níveis de emoção em cada frase e concentrar num nada o mundo todo. O resto considerava-o inútil. Um dia morreu. Deixou parágrafos. Na esperança que as asas queimadas dos insectos do crepúsculo contra a lanterna do alpendre crepitem não um segundo mas a eternidade inteira. Na esperança, não. Seguro disso, enquanto o céu da noite continuará sobre as ramadas dos pinheiros, no lugar onde foi mais feliz.
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5:51 Quinta-feira, 21 de Jan de 2010
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"Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como forma de diário"
Ontem havia uma única mesa por ocupar num dos restaurantezecos onde como: apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo. De vez em quando olhava-me com estranheza de ser aquele e não nos falámos, claro. Vi--me a mastigar, a mexer nos talheres, a pegar no copo: um desconhecido para mim: as mãos, os gestos, a cara opaca: não tínhamos nada a dizer um ao outro, de que raio de assuntos podíamos conversar? Nem sequer o observei com estima e a companhia não me foi especialmente agradável. A pergunta sincera
- Sou isto?
a resposta sincera
- Não me interessa nada ser isto
e a surpresa de ser isto o que os outros conhecem. Por um momento pensei em experimentar um sorriso para verificar como sorrio, desisti. E a minha vida apareceu--me tal como é, sem importância alguma: se aquele ali morresse que diferença me fazia? E, conforme sucede cada vez mais nos últimos tempos, a tentação do nada. Um cheiro de Natal por toda a parte: quero passá-lo sozinho: compro umas coisas para me alimentar, fico aqui com um livro, não me aborreço sequer. Nunca me aborreço desde que não haja espelhos à minha frente. Não escrevo nada: as crónicas que sairão para o ano estão entregues, o texto que sairá em 2011 a ser batido no computador para continuar a corrigi-lo: não há espaço nas páginas para mais emendas de tão alterado que está, o pobre. Quando o acabar três ou quatro meses sem fazer seja o que for, à espera. Depois decido. O futuro não me preocupa, sob esse ponto de vista. Sei que a minha obra vai sobreviver ao tempo e não sinto o menor orgulho, a menor vaidade nisso. O reconhecimento, os prémios, o tarantantã que acompanha o êxito é-me igual ao litro. Aos quinze, aos vinte anos desejei-o imenso: quero lá saber dele hoje em dia. A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas. Uma suspeitinha de sol. Um homem veio contar a luz, foi-se embora: terá sido ele quem deixou o sol aceso? A cara tão gasta quanto os sapatos, o blusão cinzento, a mão a anotar números num bloco. Um soslaio às estantes, intrigado. Diz
- Bom dia
e desaparece, um
- Bom dia
mecânico, vazio. Dias vazios. Nem compridos: vazios só. O sol apanhou as folhas de uma árvore e demora-se por ali, a cortina acende-se um bocadinho. Que silêncio. Este andar tem-me feito companhia, é amável, parece tomar conta de mim. Obrigado, andar. Há momentos em que uma pessoa se sente reconhecida aos objectos pelo simples facto de estarem connosco. A mesa, por exemplo, o sofá. Chegam catálogos das editoras, com a minha fotografia e o relambório do costume. Na minha cabeça fragmentos dispersos de imagens, diálogos. Perto, calhamaços sobre literatura alemã medieval, não sei o que me deu para me interessar por ela. Um autor, em 1400, a propósito do ofício de escrever: o meu arado é feito do vestuário dos pássaros. Talvez estes artiguinhos não sejam assim tão vãos, posso usá-los como uma forma de diário, eu que jamais fiz diário algum: sou uma agenda de argolas, vou passando as folhas: já passaram quase todas, sobra um restinho. Mas a gente consegue fazer batota, se for preciso, e passá--las todas de repente. De qualquer maneira passarão de repente. Andei um pouco pelo país, nestes últimos tempos. Quartos de hotel. Pessoas.Assinar os livros que fiz com o vestuário dos pássaros. Depois permanecia um bocado na cama, vestido, a fixar o tecto. Desde que me conheço
(que expressão tão idiota)
levo que tempos de nariz no tecto enquanto, na ideia, gira um caleidoscópio de cores, luzes, frases, emoções. Um senhor, uma ocasião, a abrir-me a porta do carro quando eu saía da escola
- Como te chamas, menino?
careca, num risinho esquisito: nunca corri tão depressa para casa. Se os meus pais tivessem trinta anos, ou nem isso, como nessa época, era o que eu fazia agora. De calções, e com a mochila dos livros e dos cadernos às costas, desatava a correr até ao portão do jardim, subia as escadas para o quarto de banho e lavava o que, da minha cara, podia estar ainda do risinho esquisito. Saiu todo, com água fria e sabonete, porque, graças a Deus, nem um rastro do senhor no espelho do restaurante. Já não é mau, pois não?
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7:16 Quinta-feira, 7 de Jan de 2010
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"Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos"
Não importam as horas agora, hoje são sempre onze da noite e chove. Na janela fronteira, num quarto iluminado, vejo uma rapariga a ler na cama. Lençóis encarnados, édredon encarnado. De vez em quando muda de posição com o livro, apercebe-se, pelo meu candeeiro, que estou aqui e inicia atitudes que lhe devem parecer voluptuosas: espreguiça-se, deixa escorregar uma das alças, o joelho direito surge devagar do édredon, demora um instante, some-se. Mal lhe distingo a cara mas distingo-lhe os óculos. Tira-os, lambe uma das hastes, volta a colocá-los. Não tem muita habilidade, coitada. Torno a escrever e desce o estore, furiosa, embora pelos intervalos do estore distinga a sua silhueta a espreitar-me antes de se desinteressar de mim: deve achar-me maricas.
Não importam as horas agora, são onze da noite e é no halo das árvores que me apercebo da chuva. Uma porção de livros à espera de serem lidos, uma porção de páginas para corrigir: quantos meses até acabar isto? E, ao acabar isto, que forma terá? O Júlio Pomar ao telefone: às vezes tem voz de peluche. Combinamos jantar. Gosto de comer na cozinha da Teresa, eu que não gosto de comer. Da conversa lenta. O desenho de Matisse que eles têm, uma cara de rapariga, a lápis, feita com meia dúzia de traços, mine de rien como diz o Júlio. Como se traduz mine de rien? Como quem não quer a coisa, talvez? Que simplicidade aparente, que fácil. Onde aquele sujeito metia a mão saía luz. E, por pintores franceses, veio-me à cabeça uma passagem do diário de Delacroix, artista muito da minha estima: o homem é uma criatura sociável que não gosta dos seus semelhantes. A rapariga que lê na cama sobre o estore e chega-se às vidraças, nua. Que raio de jogo, o dela. O marido
(suponho que marido)
entra no quarto e fica a olhar para mim, ao seu lado. Não me admirava que se despisse também. Não despe: some-se. Na janela de baixo uma senhora de idade em frente da televisão, a comer sopa. Tudo é irreal neste mundo. O Júlio começa sempre os telefonemas da mesma maneira
- Como estás tu?
ou seja a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio. Quantos são dois e dois, por exemplo. Não, essa não. Bertrand Russel levou cem páginas a explicar a razão de um mais um serem dois e não ficou lá muito certo disso. Estou cheio de citações, que gaita. Pareço um cigano a mostrar o oiro falso dos anéis. E, por cima disto tudo, uma ambulância aos gritos. Que noite. Tudo treme com o vento e eu a juntar palavrinhas. Vi retratos meus num jornal francês: tão feio. Não me habituo à minha cara, ao meu aspecto. Vontade de usar uma máscara, tapar a cara com as mãos. A minha filha Joana, que ainda agora nasceu, teve um filho, uma coisa pequena com os dedos todos. Daqui a nada está a fazer a barba. Quem me arranja uma ideia feliz para esta crónica? Flores numa jarra acolá. E o relógio da secretária do meu avô em cima de uma estante. Avôzinho. Ontem fez anos que morreu: novembro é um mês do caraças. Saudades do Zé Cardoso Pires, saudades do Ernesto Melo Antunes: passou que tempos e não me habituo. Por que razão não falam comigo, vocês? E um grande silêncio no meio da gente, um vazio que dói. O filho da Joana tem uma unha em cada dedo, veio completo. Devíamos nascer aos poucos, acho eu, ou então com coisas a mais, pernas por exemplo, que se perderiam uma a uma. Outra ambulância a riscar o escuro. Aqui há uns tempos fui atrás da ambulância que levava o meu irmão Pedro ao hospital. Ainda conservo o gosto amargo da aflição. A propósito dos retratos do jornal francês: que diferença me fazia que aquele tipo morresse? A senhora da televisão acabou a sopa, desapareceu com o tabuleiro, voltou com um iogurte e uma colher. Não mete a colher no iogurte, fascinada com um episódio no ecrã. Também usa óculos, como a rapariga das leituras na cama, só que não se despe. Adivinha-se um brochezito a fechar a gola. Cheira a vento, a outono, a frio. A minha vida inteira sobe-me à boca como um vómito. Apetecia-me estar em Nelas em setembro. Esta semana almocei com dois camaradas da guerra e, como sempre, a cabeça a escapar para Angola:
- Lembras-te de?
- Daquela vez que?
memórias horríveis que o tempo adoçou. E a gente a cortar o passado com a faca. Agora vou acabar isto e continuar a corrigir as páginas. Que esquisito o mundo. Que esquisitos nós. No móvel dos retratos a minha tia Madalena sorri, a perder cor na película. Não perdeu cor dentro de mim. A rapariga deitou-se e apagou a luz, a senhora da televisão começa o iogurte, rapa a embalagem com a colher, limpa a boca no lencinho. Sorrio-lhe e não me vê. Claro que não me vê: tornei-me transparente. Digo
- Boa noite
o mais baixinho que posso, a fim de que consiga escutar-me.
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6:06 Quarta-feira, 23 de Dez de 2009
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Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos
Não é uma pessoa, é um monumento: um metro e noventa e quatro de altura, cento e dez quilos de peso, mãos gigantescas, uma força desmesurada, calça quarenta e oito, ocupa uma mesa inteira de garrafa de cerveja na mão, enche o tasco com a voz e ninguém se atreve a interrompê-lo. Não precisa de zangar-se: resolve qualquer problema com uma frase definitiva que me deixa de boca aberta de admiração. Primeiro exemplo: a empregada do tasco não havia maneira de lhe atinar com a conta e ele estimulou-lhe as capacidades mentais com uma ordem definitiva:
- Ó flor pensa com a raiz.
Segundo exemplo: um fulano entrou no dito tasco com os óculos escuros subidos até ao cabelo e vai ele:
- Roubaste os óculos a um gajo mais alto do que tu?
Terceiro exemplo: impacientou-se não sei com quem e preveniu
- Olha que eu dou-te uma lambada que dás três voltas à cueca sem tocar no elástico.
Quarto exemplo: andavam esses sujeitos da Câmara, vestidos de verde, a multar com entusiasmo, uma das minhas filhas hesitava em arrumar o automóvel num lugar proibido e ele sossegou-a, diante dos sujeitos verdes amedrontados:
- Ponha-o aí à vontade, menina: por cima de mim só os aviões.
E podia multiplicar os exemplos até ao infinito. Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos. Ainda por cima um problema de caracacá: que culpa tem ele da fragilidade da esposa:
- Mal lhe rocei partiu logo os dois braços
e isto numa surpresa sincera, a espalmar-se de inocência contra o peito:
- Pela felicidade dos meus filhos que mal lhe rocei, senhor doutor.
É camionista
(se calhar, em vez de conduzir, leva o camião às costas)
bruto e sensível ao mesmo tempo, de lágrima tão fácil quanto o murro, pronto a enternecer-se e a zangar-se, imprevisível na violência e na compaixão, orgulhoso e humilde, tão solitário no fundo, de uma agudeza instintiva e certeira que uma matreirice sem maldade acompanha. Quando pega na cerveja a garrafa desaparece-lhe na palma e o balcão cheio de gargalos vazios. Nunca o vi bêbado mas se calhar tão pouco sóbrio, navega numa zona intermédia, de álcool à vista. Agora, sem mulher nem filha
- Tem treze anos, um metro e oitenta e dois e calça três números abaixo do meu
passeia melancolias nos intervalos das viagens, sempre de fato e gravata, penteado, perfeito. Mostra-me fotografias da filha gigantesca, retiradas com dificuldade da confusão da carteira. Digo-lhe que é bonita, corrige
- Um Ferrari
e dissolve-se, imóvel, numa saudade comprida. A filha não terá apreciado os braços partidos da mãe, vá-se lá saber porquê, e recusa vê-lo, de modo que lhe ronda a escola à hora da saída, escondido numa árvore do outro lado do passeio. Mal a filha apanha o autocarro, sem dar por ele, volta a pé para o tasco a lutar contra uma humidade ácida que, de repente, lhe incomoda os olhos. No tasco as garrafas de cerveja triplicam e não se torna especialmente aconselhável falar-lhe. Por volta da vigésima oitava pede a conta, a empregada não acerta e lá vem o
- Ó flor pensa com a raiz
mas sem alma, cansado. Levanta-se devagar, vai-se embora sem cumprimentar ninguém e apesar de por cima dele só os aviões ei-lo indefeso e minúsculo, um trapinho à deriva que qualquer sopro empurra. Uma ocasião anunciou-me
- A vida não é fácil, senhor doutor
deu-me uma palmada nas costas que ele julgava cúmplice e me desarrumou os órgãos todos e sumiu-se deixando-me de fígado no peito e coração no umbigo: quase dei três voltas à cueca sem tocar no elástico. Nas últimas semanas não o tenho visto. Contaram-me que foi com o camião para o estrangeiro, o Luxemburgo ou assim, e esses trabalhos demoram muito tempo. Fingi que acreditei. Fingi tanto que acreditei de facto embora sabendo, no interior da alma, que era mentira. Ontem tive no jornal a prova disso ou pode ser que o jornal se referisse a outra pessoa. Vinha lá escrito que um camionista deixou o volante à beira de uma linha férrea, marchou uma centena de metros ao longo das calhas e abraçou-se
(como quem abraça uma filha?)
ao primeiro comboio que apareceu. O retrato no jornal é o dele mas talvez eu esteja enganado. De certeza que estou enganado: parecemo-nos tanto uns com os outros, não é?
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5:53 Quinta-feira, 10 de Dez de 2009
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Diziam-me isto, em criança, e eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo. Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora. Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa. Brincadeira de mau gosto, a idade. Oiço
- Você era lindo
e torno-me uma pedra por dentro. Miséria deste tempo verbal, era, que horror. E lindo, ainda por cima, eu que nunca me achei lindo, sempre me dei mal com a minha cara, o meu corpo. Notava o olhar das raparigas e achava esquisito. Até bilhetinhos me mandavam, até conversa comigo metiam. E eu corado, aflitíssimo. Uma ocasião, com catorze ou quinze anos, fui ao Bairro Alto, a uma casa de prostitutas. A bicha começava logo na escada. Lá fui subindo aquilo degrau a degrau, atrás, nunca me esquece, de um magala fardado. Uma criatura à entrada a cobrar o dinheiro, uma sala com espelhos, cadeiras mulheres sentadas, de roupão. Não consigo reconstituir bem o que se passou depois, a minha cabeça, chegada a este ponto, dá um salto e estou num quarto com uma cama, um cabide pendurado de um gancho na parede, um bidé e uma garrafa, para além de uma mulher, há pouco sentada, a despir o roupão e a mandar-me despir. Desci as calças, atrapalhando dedos nos botões, a mulher fixou-me mais ou menos ao centro do corpo, declarou
- Deus deve gostar de ti, miúdo
e no momento a seguir estava a puxar as calças para cima e a fugir escada abaixo desarrumando a bicha. Continuei virgem durante séculos, é uma forma de expressão mas serve e, além disso, razoavelmente exacta. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato.
O que sucedeu à minha lindeza? Murchei devagarinho ou de repente? Sou feio, nesta altura? Um pavor se calhar, todo torto. Recordo-me do meu pai fazer trinta e três anos
(idosíssimo)
porque eu gaguejava e repetia trin trin trin para alegria dos crescidos. Recordo-me também de, nessa época, estar doente com a tuberculose, que a minha mãe apelidava, julgo que por vergonha, de gânglios:
- O António teve gânglios
consoante me recordo da falta de apetite, do frio, de estar deitado, de conversas incompreensíveis à minha roda. O meu avô dava-me miniaturas de bichos em vidro que eu atirava, com fúria, contra a janela. Não me recordo dos remédios, não me recordo do médico, recordo vagamente as minhas tias a tomarem conta de mim. Do sol na janela. De soldados a marcharem na Estrada de Benfica. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato.
Doenças: uma meningite também cá canta, aos nove ou onze meses de idade. Contam os aedos da tribo que comecei com febre e entrei logo em coma. O que eu fiz para morrer, tantos esforços, logo ao princípio, merecem consideração, aplauso. Não recebi nem uma nem outro. Se calhar julgaram que não fiz de propósito, os tontos. Temos alguns suicídios na família, nós: o pai da minha avó, primos do meu avô, assuntos secretos, que me relataram já tarde e com vergonha. Há alturas, e digo isto em segredo, em que fico com os dedos negros, procurando uma corda. O António de língua de fora, desorbitado, a baloiçar. Depois a esperança volta, recomponho-me. Espio a mão: dedos cor de rosa, normais, já não tenho bichos a devorarem-se dentro de mim. Que era lindo. Agora sou um senhor. Num dos restaurantezecos onde como o dono trata-me por jovem:
- Boa tarde, jovem
- Então o que vai ser hoje, jovem?
- Meia-dose ou uma dose, jovem?
e eu aceito o jovem que, de tempos a tempos, se metamorfoseia em amigo
- Então o que vai ser hoje, amigo?
embora, ultimamente, penda para o jovem e me atire cotoveladas cúmplices.
Sinceramente o que foi hoje não me lembro. Espera, lembro: empadão de carne, meia-dose. E saí na mecha para fazer as compras da casa e escrever isto. A seguir começo o trabalho no livro de que tenho apenas o magma da primeira versão e não faço ideia, sequer, se é ou não um livro. Muitas dúvidas acerca disso e receio bem que acabe no lixo. Mais de metade do meu trabalho acabou no lixo. E, na manhã seguinte, lá estava eu no caixote a procurá-lo, tentando reconstituir dúzias e dúzias de páginas amarrotadas e rasgadas. Com o Fado Alexandrino, então, foi um sarilho, aquilo era grosso como o diabo. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato. E tem sido um dia infernal, entrevista cedo, encontros de trabalho à tarde e eu, à socapa, a espreitar a mesa das palavras, ansioso por voltar a elas. Por que razão o tempo roubado à escrita me faz sentir culpado? É esquisito mas faz, não devia sentir-me culpado: acabo por estar nisto tantas horas, deixo a pele, deixo a alma nas frases, crucifico-me todo. Anoitece, acendo a luz, continuo. Tão cedo ainda para entenderem o que digo, perguntas estúpidas, interpretações parvas. Isto, sobretudo, nos jornais. Dos universitários só tenho a dizer bem, há um entendimento do texto muito mais profundo. Agora os artigozinhos de jornal, em regra, são uma miséria: opiniosos, superficiais, ignorantes, tão desonestos às vezes. E dão estrelinhas, os camelos, de mistura com uma ignorância de pasmar. Então o que vai ser hoje, jovem? Peço o jornal desportivo para ler enquanto como, um olho no prato o outro no futebol. Saudades de Garrincha: escrevia tão bem! Quando eu era miúdo e comprava os bonecos da bola o avançado centro do Elvas chamava-se Patalino. E um defesa do Olhanense Grazina. O guarda-redes do Sporting de Braga Cesário. O do Estoril Sebastião. Espero que estejam todos de boa e feliz saúde pela alegria que me deram.
- Você era lindo
e na época de Patalino, Grazina, Cesário e Sebastião, reconheço que era lindo de facto. Se eles voltarem a jogar prometo ser lindo outra vez.
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20:08 Quarta-feira, 18 de Nov de 2009
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Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre
Ontem acabei de corrigir uma porção de crónicas para fazer um livrinho, textos de há quatro ou cinco anos para cá, de que não me lembrava. De um ou outro talvez, mas uma memória confusa, e apercebi-me que a minha relação com estas aguarelazitas se aparenta à de alguém que faz desenhos meio distraídos na margem do papel, enquanto pensa noutra coisa. Como estou sempre a pensar noutra coisa talvez fosse preferível dizer desenhos meio distraídos na margem do papel enquanto pensa noutra coisa de outra coisa. E lá foram, para a editora, esses bonecos, esses riscos a que não consigo dar importância, esboços, fantasias, palavrinhas, pequeninos nadas. Estava a escrever isto e, de repente, sei lá porquê, veio-me à cabeça Alcácer do Sal, que quase não conheço, passos na rua, uma esplanada onde jantei e as caras das pessoas à mesa. As caras todas nítidas. É engraçado ver pessoas comer, as diferentes formas que as bochechas tomam, o modo como os queixos se movem, os gestos: tornam-se tão vulneráveis nesses momentos, tão frágeis. Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre. Mesmo que a cor haja mudado com o tempo, embora todos os nossos tempos continuem connosco. Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sótãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sótãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças ainda, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? Alcácer cheia de escuro, o brilho da água, a humidade a crescer com a noite, o silêncio mesmo quando se fala, no interior das palavras. Os movimentos do meu amigo angulosos, lágrimas fechadas nele, secretas. Quando se comove a boca altera-se, a maneira de andar, o sorriso, os olhos fixam-se no interior de si mesmo. Está e não está, uma região dele tão longe. Andava eu a falar de crónicas e derivei para aqui, o meu amigo, a sua cidade, ruas como aquelas que eu gosto, casas como as do bairro onde cresci
(Lisboa distante)
gente parecida com a da minha infância. Só faltavam os cães, só faltava a mata: desenhos na margem do papel, bonecos, riscos. Primeira pergunta: o que nos aconteceu? Segunda pergunta: o que será de nós? Não mandamos nada, os dias vêm e cavalgam-nos, arrastam-nos para onde lhes dá na gana, o nosso livre arbítrio é tão limitado, o que podemos escolher tão pouco. Passei os últimos dias em Paris, à chuva. Frio, chuva, trovoada, jornalistas o dia inteiro, conferências, autógrafos. O mesmo quarto de hotel sempre, a que me vou afeiçoando, a espécie de mesinha Império
(falsa, claro)
que me serve para escrever e não escrevi uma linha, passei as poucas horas livres que me deram a olhar para o tecto e a pensar numa frase de Einstein: devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. O raio da frase não me largou toda a semana, na certeza de que me havia de servir não entendia para quê, enquanto ela se transformava em mim, crescia, se ramificava, principiava a dar botões, se me dissolvia no sangue. Há-de chegar à mão, há-de sair, não sei de que maneira, numa página qualquer, ou então atravessar as páginas todas. Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso: grande cabrão que acertou em cheio.
Alcácer, outra vez. O sofrimento de um amigo dói, principalmente quando o advínhamos cheio de sentimentos contraditórios, perplexidades, interrogações, memórias. Na altura em que o meu pai morreu e me telefonaram muito cedo, etc. Por aí não. Outra conversa, António, se fazes favor, deixa o fundo de ti para ti, os teus livros, o teu lodo. Ontem, treze de outubro, uma data especial e eis o cemitério de Abrigada tremendo-me nas pálpebras. A senhora que trata do jazigo a apontar uma prateleira:
- O seu lugarzinho ao lado da menina, senhor doutor.
O meu lugarzinho ao lado da menina, à espera desde há quase onze anos. O mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. E quero, como o meu avô, oficial de Cavalaria até à medula da alma, ir ao armão dos militares, acho que tenho direito a isso, antes de ocupar o meu lugarzinho frente à serra. Há semanas passei pelo quarto alugado onde começámos a viver. Como não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego, depois do jantar, feito no parapeito da janela por causa dos cheiros, dávamos a volta ao quarteirão. O amor não são prazeres breves e localizados, como sustentava Colette, autora muito da minha estima, é uma vocação de sarça ardente. E estremeço de alegria quando noto nas minhas filhas as mães delas. Pareço uma caninha ao vento. Firme que nem caniço em noite de tempestade. São tão raras as mulheres que habitam a cama como um quadro habita a moldura, em que almofadas, lençóis, colchão, possuem o exacto tamanho delas e nós uma vontade humilde de ajoelhar, diante de tanta miraculosa perfeição. Sejam que horas forem é sempre
- Bom dia
antes da linguagem dos arcanjos.
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8:20 Quinta-feira, 5 de Nov de 2009
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"Nada dói, nada ofende, nada magoa. Beijar o sol na boca, abraçar os limos, tocar no ar que nos atravessa a garganta. Casas lá para trás, tão longe."
As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos de que mal se distinguem e mesmo que o mar as leve permanecerão ali. Tentei matá-las e resistiram, tentei esquecê-las e não as perdi nunca. Passaram todo este tempo dentro de mim, à espera que as devolvessem ao lugar que é o seu, lá em baixo na salsugem. Tonto de sol vejo-as caminhar, perco-as, recupero-as, não se vão embora: existem para sempre, como um testemunho escrito a sangue na carne, um nome que não se apaga, uma presença infinita. Não crescerão: quero-as assim, depois de tanta tempestade interior, tanta cobardia, tanto medo. Nenhuma névoa, nenhum medo já: as palmeiras e as gaivotas pequeninas chegam-me como penhor. As pessoas na esplanada do restaurante nem as vêem: ocupam-se a comer, a conversar, não as conhecem, não dão por elas sequer. E que paz de silêncio no interior das ondas, que fervor de alegria. Cheguei. Finalmente cheguei. Quase sem palavras e sem gestos porque as palavras e os gestos inúteis: basta este simples milagre, esta pureza silenciosa, este fervor de alegria. Tudo tão fácil, afinal, quando se olha o mundo de frente, que evidência tão clara. As mãos no rebordo nem precisam tocar-se para que a viagem comece. Basta esta proximidade, este rumoroso silêncio, o vento: as gaivotas pequeninas na foz do Douro sabem-no, não brancas, cinzentas e o cinzento mais branco que qualquer outro branco, uma exaltação mais funda que a do corpo, tatuado de unhas ao comprido da tarde, braços em cruz de dedos cravados nas almofadas, olhos de pura água que se abrem devagar, um sangue vivo que canta. Não há dia mais dia que este dia, não há noite mais noite que esta noite, e as gaivotas pequeninas na dobra do lençol. Nada dói, nada ofende, nada magoa. Beijar o sol na boca, abraçar os limos, tocar no ar que nos atravessa a garganta. Casas lá para trás, tão longe. As pessoas na esplanada longíssimo também: só as gaivotas pequeninas perto, só este sol, este vento, o escapulário já sem imagens que trago no pescoço. Caminha-se, sem peso, na luz, nem sequer é necessário reinventar o mundo: permaneceu ali desde sempre, à espera. Agora tenho-o fechado na mão, a minha vida pertence-me, não tornam a roubar-ma. Um automóvel debaixo de uma ponte, à espera, a doce violência de um sorriso, tudo, ao mesmo tempo, lento e rápido, o milagre das línguas, o umbigo prateado.
- O meu irmão diz que tenho unhas de puta
e, meu Deus, o que as unhas de puta conseguem. A ferida da ausência até ao osso:
- Como é que estás vestida?
- Ténis pretos, calças pretas, camisola preta
- Como é que estás vestida?
- De toga no alto das escadas
E, por baixo da toga, gaivotas pequeninas, o mar da foz do Douro, os penedos, a mulher, com duas canas de pesca enterradas na areia, a limpar a praia.
- Adoro as tuas unhas de puta
como adoro a cabeça de perfil e os olhos fechados, o modo de dizer
- Minha riqueza
os dentes no meu ombro. Tudo treme no vento e se refaz, tudo se desarticula na água e permanece inteiro, os teus pés descalços nos pedais do carro, os calcanhares, um após outro, no apoio do lavatório para o creme das pernas, os pontinhos brancos que distribuis pela cara antes de os espalhar, o secador levantando o cabelo molhado, o modo de apertar o soutien nas costas numa habilidade de contorcionista, o nariz franzido vasculhando o frigorifico, uma joaninha num ramo de rosas, o modo rápido de lidar com os objectos e nisto, de repente, a surpresa de uma ternura vagarosa, ávida, os bicos do peito a crescerem, a mansa ferocidade dos dentes.
As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos.
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10:56 Quinta-feira, 22 de Out de 2009
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