[Em Portugal] a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro
A cabeça de um escritor é um sítio inabitável, cheio de sombras negras que se devoram umas às outras, remorsos, fantasmas, dores, insignificâncias em que não reparamos e ele repara, sensações, luzes, criaturas sem nexo. Usam o papel para ordenar este caos, vertebrar o desespero, dar ao ilógico uma coerência lógica e mostrar o nosso retrato autêntico em cacos de espelho, fundos de poço trémulos, superfícies convexas em que temos de emagrecer por nossa conta. Não se pode estender a mão a quem lê, tem de se caminhar sozinho num nevoeiro aparente em que, a pouco e pouco, as coisas se arrumam nos seus lugares. Em nenhum bom livro há personagens e história: quando muito aparência de personagens e história, usadas para tornar mais clara a vertigem do que somos. Tudo se passa no interior do interior e portanto não devia haver cursos de escrita criativa
(um paradoxo nos termos)
mas de leitura criativa. Conheço menos bons escritores do que bons leitores, um bom leitor é uma espécie muito rara. Um autor do século dezanove dedicava os seus trabalhos aos felizes poucos, expressão roubada a Shakespeare
(we few, we happy few, we band of brothers)
capazes de nadarem ao seu lado em águas muito escuras e de regressarem à tona de mãos cheias. Um livro é mais uma orelha que uma voz onde, no fim de contas, é o bom leitor quem conversa. O livro escuta. As páginas são ouvidos pacientes que nos guiam através da liberdade do silêncio, onde as nossas frases se reflectem e regressam com um sentido novo. O bom leitor só recebe na medida em que dá e a qualidade da obra depende desta troca constante, do fluxo e refluxo das emoções partilhadas. Temos de ser um agente activo do livro, fazê-lo nosso até que se torne, como queria Rilke de quem não sou admirador, excepto em raras passagens das Elegias, sangue, olhar e gesto. Se não for assim é uma comédia de enganos, um passatempo inócuo como quase tudo o que em Portugal se impinge, porque a maior parte dos editores ou são ignorantes ou são vigaristas, oferecendo ao público pacotilha impressa: um bom editor, tal como um bom leitor, é mais raro que um bom livro. Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem de fazer compromissos. A casa alemã onde estou, por exemplo, possui um catálogo honesto, dividido em duas partes, literatura e best-sellers. O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar as pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à arte. Claro que não é apenas um problema português, é um problema universal. Pasmo com as listas dos tops:
ficção, dizem elas, quando a ficção não existe a não ser nas obras rasteiras. Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro.
Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. Chamo jornalismo, explicava Gide, ao que é menos interessante amanhã do que hoje. E depois a Arte não é um desporto de competição: o editor que ponha numa cinta, por exemplo, cem mil exemplares vendidos, ou julga falar de sabonetes ou não é um editor. Se o livro for bom há-de vender muito mais do que isso: quanto terá vendido Ovídio até hoje? É apenas uma questão de tempo, porque os bons leitores existirão sempre, ainda que poucos. O que me aborrece na Arte são os comerciantes que giram em volta dela, sem lhe tocar, porque tiram o seu alimento do efémero. Faz pouco comecei uma biblioteca na empresa onde estou.
Tolstoi foi o primeiro: ao receber o livro impresso reparei que as últimas três páginas eram propaganda a lixo. Como se pode, no fim de um livro de Tolstoi, fazer aquilo? Desonestidade? Ignorância? Não faço ideia de quem é o responsável mas devia ter sido fuzilado no berço: Tolstoi de mistura com livros de cozinha e ficções. Recomecei a colecção: até agora não repetiram a indignidade. Pergunta:
Como vão os livros da biblioteca?
Resposta:
Pingam
e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora: o Mondego começa gota a gota; a água suja basta virar o balde e encharca-nos. A água do balde acaba logo. O Mondego não tem princípio nem fim.
Pingam:
e que maravilha pingarem. À força de pingarem hão-de engrossar irrestivelmente, enquanto os baldes se enferrujam, amolgados, num canto do jardim.
E o que interessa
(volto à Gide)
o amanhã? A gente vive no hoje, pá, o Horácio que se dane. Que se dane a Coroa, o que vale a pena são as coroas e essas já cá cantam. O problema é que, se alguma nova editora aborda a minha agência, não começa por falar em dinheiro: fala nos nomes do catálogo. Todos eles pingam. Mas dão prestígio a uma Casa. Respeito demasiado o meu trabalho para o deixar à venda numa loja dos trezentos.
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12:20 Domingo, 22 de Ago de 2010
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Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa, a partir de certa altura a gente afasta-se dela, deixa de pertencer-nos. O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída. Levanto-me da mesa: a rapariga foi-se embora não imagino para onde, deixou-me sozinho neste apartamento
Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva. Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens, sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis, os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua. Não volto à janela porque não quero encontrá-la, parece acusar-me de uma falta que desconheço, afigura-se-me um remorso vivo. À chuva. Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável. Faz três anos andava eu à brochinha com o cancro, sangue por todos os lados, a emagrecer, a sentir-me mal, a teimar que era uma bactéria qualquer que trouxera do México. Guadalajara, Guadalajara: deram-me a chave de oiro da cidade: está lá para dentro, no seu estojo, numa gaveta de armário. A chave de oiro de uma cidade não abre nada a não ser portas interiores: e para além das portas interiores quartos vazios na sombra, cada qual com a sua rapariga à chuva que aliás agora parou, veio uma suspeita de sol. Não tarda nada o sol vai-se e a chuva recomeça. Até quando? Dá ideia que para sempre, nunca mais vai cessar de chover. E a rapariga ali quieta, não à espera, não por teimosia, ali apenas, se calhar para sempre também. Vinte, vinte e cinco anos, sozinha. Na agência de viagens iluminada empregadas a secretárias, cartazes: Bermudas, Marrocos, Porto Rico. O vento feio sacode árvores feias. Os prédios feios, os automóveis feios, tudo feio. Não me lembro de um inverno assim sujo, escuro, na minha cidade outrora cheia de luz. Galhos depenados, nem um pombo, nem um pardal para amostra: o que sucedeu aos pássaros? Escrevo isto de luz acesa, com a morte na alma. Quando estive doente ao menos havia sol, um sol inútil para mim mas sol. Enfim, julgo que sol ou então eram aquelas lâmpadas todas na minha cara:
- De que vais morrer, António?
- De cancro
e as lâmpadas a aumentarem de intensidade na minha cara. Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa, a partir de certa altura a gente afasta-se dela, deixa de pertencer-nos. O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída. Levanto-me da mesa: a rapariga foi-se embora não imagino para onde, deixou-me sozinho neste apartamento. O que faço sem ela ali em, baixo, junto à agência de viagens, Bermudas, Marrocos, Porto Rico? Fotografias de gente na praia, camelos, palmeiras. Aqui são tipuanas magras, atormentadas, a água cinzenta a escorrer para as valetas, ramos com uma única folha, não verde, amarela, quase a soltar-se, ramos sem nenhuma folha, tortos, magros. Não fui às Bermudas nem a Marrocos nem a Porto Rico, que conheço eu do mundo? Janelas fechadas, ninguém a pendurar roupa nas varandas. Martelam no andar de cima, talvez estejam a crucificar alguém. Pela aflição dos galhos percebe-se que o vento aumenta. Daqui a nada estou no restaurante do costume: o empregado empresta-me um jornal desportivo, imensos guarda-chuvas numa espécie de vaso junto à porta, a máquina de vender cigarros a zumbir. Ligo a ternura eléctrica do calorífero que queima mais do que aquece e me frita a perna. A ementa não varia, como sempre a mesma coisa: tanto me faz. Pressa de voltar aqui a fim de continuar a escrever. Leio a última frase e avanço aos solavancos, este é um ofício esquisitíssimo. Quando lerem nem sonham o que penei nas frases. Quer dizer, espero que nem sonhem o que penei nas frases. Tem de parecer fluido, fácil. Que dia é hoje? Sei lá, tanto faz. Tanto faz? Tanto faz. Um relâmpago e logo a seguir sons de penedos enormes a caírem uns por cima dos outros. Se tivesse quinze anos outra vez jantava com os meus pais, os meus irmãos. Tenho saudades disso, de fazer parte de uma família. Esperar, aflitinho, diante do quarto de banho fechado. Se batiam à porta avisava-se
- Está gente
num berro que os azulejos ampliavam. Pode parecer ridículo mas adorava voltar a fazer cocó em Benfica. A banheira com patas de leão, o esquentador pré-histórico, os perfumes da minha mãe numa mesa, o cheiro da laca dela, a brilhantina do meu pai, o pente sempre gorduroso, a escova com que alisava o cabelo apertando-o nas têmporas. Era o único de nós que fazia a barba. Acho que também não visitou as Bermudas nem Marrocos nem Porto Rico. Saía para o hospital de manhã, voltava ao fim do dia e tudo cheirava a cachimbo. Achava esquisito que tratasse o meu avô por pai, pai era ele, o meu avô era avô. Esse fazia a barba também. O mundo inteiro fazia a barba menos eu. Sinto a falta da rapariga lá em baixo, à chuva, preocupo-me com o que lhe terá acontecido. Nem quero pensar que a água das valetas a levou, de mistura com as folhas caídas.
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10:20 Quinta feira, 5 de Ago de 2010
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À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. OS eucaliptos dos anos detroem tudo em tono de nós
Em acabando este livro apetece-me escrever um romance policial, ou antes um romance negro. Trago esta ideia há anos e chegou a altura de o fazer.
Lembro-me de falar nisso ao meu irmão de alma José Cardoso Pires
- Sabes do que tenho vontade, tu?
esperei que o silêncio retornasse suficientemente côncavo para as minhas palavras caberem lá dentro e esvaziei o púcaro Fazer um romance negro.
Recebi de resposta
- Ando a pensar nisso desde que comecei.
Demorámo-nos às voltas com o plano de fazer o tal romance negro a meias, em capítulos alternados, depois o Zé teve aqueles problemas que acabaram numa morte horrível e, mesmo sem ele, não abandonei a cisma. Se for capaz de o pôr em marcha dedico-lho, claro, nós que não dedicámos livros um ao outro:
- Porque é que a gente nunca dedicou um livro ao outro?
- Achas que é preciso?
e ficámos assim. Mas levas com o teu nome no romance negro que te lixas. E meto lá os teus bairros. E meto-te lá a ti, de personagem principal. Não todo, claro, certas coisas de ti. Fazes-me tanta falta, meu cabrão, há tanto para contarmos um ao outro. O fim de um amigo é um martírio, não páras de te agitar cá dentro, raios te partam. Tu e o Ernesto Melo Antunes: duas feridas abertas que não saram. Mas nunca tive uma intimidade assim com outro homem. Bom, adiante. O romance negro é uma promessa que te fiz e acabou-se. Continuo a não beber, continuo a gostar de comida de avião
- Como posso ser amigo de um sacana que gosta de comida de avião?
papava o meu tabuleiro, papava o teu, falávamos de bailes nos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, boxe, bilhar às três tabelas, chocos com tinta
(eu detesto)
não falávamos de literatura nem do que cada um estava a lavrar. Mostrava-se acabado o trabalho, num tonzinho distraído
-Queres ler isto?
e, sem mais palavras, suspendiamo--nos num pingo à espera da opinião do outro, que se resumia sempre a uma frase vaga. Percebia-se o julgamento pelo clima à volta da frase, não pela frase em si. E era tudo.
À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. Os eucaliptos dos anos destroem tudo em torno de nós. Sobram cinzas, raízes, sombras, restos de pedras calcinadas, vozes ao rés da erva à procura da boca onde nasceram, a pedirem que as escutemos. O que se ganha em troca? Uma cor diferente no silêncio, aquilo a que chamamos sabedoria e não é mais que uma tristeza resignada. Outras pessoas habitarão aqui e a gente primeiro retratos nas cómodas, depois retratos nas gavetas, depois retratos na cave, depois nada.
Cartas numa caligrafia antiga que um vento defunto inclina. E a morte final com o esquecimento do nosso próprio nome. Ficam os livros
(ficarão os livros?)
ficam os livros. Em certo sentido é terrível que a criação dure mais que o
criador: Flaubert enfurecia-se que a Bovary continuasse viva e ele não.
É curioso: agora é ela, a quem Flaubert deu vida, que lhe dá vida a ele. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se actividade mais nobre? E agora, não sei porque obscuro nexo, veio-me à ideia o Manuel da Fonseca a dar autógrafos na Feira do Livro, o sorriso dele. Esperava que eu acabasse, jantávamos juntos e deixava-o no cais para a outra banda, de madrugada. Cada autógrafo demorava dez minutos no caso de um homem, quinze ou vinte no caso de uma mulher. Dedicatórias intermináveis. Entre o fim do jantar e o cais uma rebaldaria feliz. Tinha assistido à chegada do General ou Marechal Gomes da Costa a Lisboa, depois do vinte e oito
(ou vinte e seis?)
de maio
(vinte e oito)
e o Manel, com a avó, a assistir ao desfile das tropas na Avenida da Liberdade, em que a avó lhe disse
- Olha, filho, devia haver um decreto que proibisse as revoluções.
Copinhos no balcão de cada bar, discotecas manhosas, nem uma palavra sobre literatura, claro. O Manel recrutava umas pequenas e, pelo retrovisor, assistia-lhe às manobras no banco de trás: quem começa o Cerromaior assim
Antigamente o largo era o centro do mundo
merece tudo. E um punhado de poemas de alta qualidade, ai as coisas incríveis que eu te contava assim misturadas com luas e estrelas e a voz vagarosa como o andar da noite. Mesmo posto corrido é do camandro. E a voz do Manel vagarosa como o andar da noite. Nunca tinha pressa, nunca o vi triste. Adorava andar à pancada. O Zé dizia que ele se fingia cobarde para os outros aumentarem e a seguir era um arraial de porrada que dava gosto. Para o Zé se exprimir assim, ele que sob esse aspecto não devia a ninguém, era de certeza. Manel. Só tenho pena que o Zé não se reconciliasse contigo por uma asneira velha, muito feia, que nunca te perdoou. Eu também não perdoei
(não perdoo)
mas esqueço sempre.
- O Zé não vem conosco?
perguntava o Manel, ansioso, e eu por dó Não pode a ver-lhe a aflição na cara. Deixa lá: antigamente o largo era o centro do mundo. E a quem foi capaz de dizer isto aceita-se tudo. Eu, pelo menos, aceito. E o Zé há-de aceitar, vais ver, é uma questão de tempo.
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4:23 Quinta feira, 15 de Jul de 2010
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Radioterapia, medicamentos, misérias, visitas das duas às três nos dias úteis, das duas às cinco aos fins de semana, algálias, dores
Mostrou-me a análise à próstata no café
Um bocado alta não está?
Um bocado alta, de facto, e a gente os dois a olharmos o papel como se pelo facto de o olharmos muito tempo os números baixassem: não baixavam. Mantinham-se inamovíveis, a encarnado. Acabou por dobrar o papel e guardá-lo:
- O meu médico marcou-me consulta para o especialista
e silêncio. Sentou-se à minha mesa sem pedir licença, a olhar-me
- Acha que é grave?
e não respondi porque não queria resposta. Queria alguém à frente dele, apenas. Tirou os cigarros do bolso, voltou a metê-los.
- Não se pode fumar em parte nenhuma, sorte malvada.
Lá fora, do outro lado da vitrina, o quiosque dos jornais e revistas. Numa delas um casal abraçado: Mécia e Raul, separação no horizonte? E frio, e chuva. Não calha bem adoecer em fevereiro. Faltava-lhe um botão num dos punhos da camisa, a barba mal feita no queixo:
- Desde que recebi a análise nem durmo
e na mesa vizinha um par de senhoras gordas, cheias de anéis, a cochicharem.Entre ambas a revista do quiosque, aberta nos desenvolvimentos da possível separação da Mécia e do Raul. De esguelha, em letras gordas sobre uma fotografia: Mécia: Tudo tem a sua duração; Raul incontactável. Comentou
- Isto da próstata é uma gaita e em letras gordas, sobre outra fotografia: Um amigo de Raul: Em devido tempo ele dirá de sua justiça. Não, mais completo: Um amigo de Raul, que solicitou anonimato: Em devido tempo ele dirá de sua justiça. Percebia-se que as senhoras esmiuçavam o assunto, uma delas mencionou uma actriz que a senhora afirmava ter má índole:
- Não suporta que os outros sejam felizes, aquela, fez o mesmo à Patrícia, dona Esperança, lembra-se?
A dona Esperança lembrava-se
- E à Carla, já agora
enquanto o da análise
- Vai na volta tenho um cancro, amigo tentei um gesto de
- Hoje em dia essas coisas
que não me saiu bem, saiu mais do tipo
- Ninguém cá fica para semente, não é?
de maneira que emendei
- A maior parte das vezes são falsos alarmes
os cigarros saíram de novo e voltaram ao bolso
- E se não forem?
e a barba mal feita pareceu aumentar. No outro punho havia botão, e haver o botão, não sei porquê, alegrou-me:
talvez tenha interpretado como sendo um bom sinal em relação ao cancro.
A amiga da dona Esperança, assanhada com a actriz
- O sarilho que ela arranjou à Débora na época do futebolista, já pensou?
A dona Esperança já tinha pensado:
- Uma galdéria
definiu ela
- Uma galdéria e tanto
mas havia o botão, felizmente. Por pouco não o aconselhei a agarrar-se ao botão. A amiga da dona Esperança gostava tanto da actriz que se ela caísse ao Tejo lhe atirava uma palhinha para ajudá-la a não se afogar. Em lugar do conselho de se agarrar ao botão afirmei com autoridade
- O que mais há por aí são falsos alarmes
de cabeça a desviar-se para a Célia, coitada, que usava um decote tão profundo como uma ravina: uma rapariga de bem, notava-se logo nos olhinhos ferozes, uma vítima. Ganas de interrogar a dona Esperança
- Quem é a Célia, afinal?
com uma parte do meu corpo a tentar apreciá-la em detalhe. Aí, infelizmente, a amiga da dona Esperança impediu-me os propósitos
- Embora no caso do futebolista o rapaz tenha culpas no cartório
e a impressão que a análise aumentava no interior do casaco, a latejar:
- Vai-me nascer um neto para o mês que vem, já reparou na coincidência?
e quem seria a Célia, meu Deus? E a Patrícia? E uma Raquel que surgia agora na conversa
- Ao menos a Raquel é o filho do ministro e pronto
O neto que nascia para o mês que vem obcecava-o: a filha empurrava a barriga a custo, de pernas inchadas:
- Se der para o torto mal vou conhecê-lo
radioterapia, medicamentos, misérias, visitas das duas às três nos dias úteis, das duas às cinco aos fins de semana, algálias, dores, o da cama à esquerda a pifar do esófago suplicando
- Olha-me os meninos, Laurinda
e o decote da Célia a inquietar-me. Abaixo do decote umas calças tão justas que só podia despi-las à tesourada. Estava capaz do sacrifício de ser eu a pegar na tesoura.
-O primeiro neto, compreende?
Compreender compreendia, mesmo de tesoura nas unhas. Não te esqueças de comprar a revista ao saíres daqui porque há-de haver mais fotografias de certeza. Há-de ou hão-de? Não interessa desde que as fotografias lá estejam, de qualquer maneira a quarta classe já cá canta. Em relação ao cancro lembrei-me do treinador do meu clube
- Há que levantar a cabeça e pensar no jogo do próximo domingo
e limitei-me à primeira parte da frase. Este treinador é bom, pelo menos pôs aquela cambada a correr:
- Há que levantar a cabeça
garanti para microfones invisíveis, e acrescentei
(não daria grande treinador eu, comigo a cambada amolecia logo)
E ter pensamento positivo. Esta do pensamento positivo era do primeiro-ministro:
- Pensamento positivo, senhores deputados, pensamento positivo
mas ninguém, mesmo do partido do governo, aplaudiu. Acrescentei em desespero
- Vamos aguardar com calma pelo especialista
enquanto a Célia, sem calças, jurava
- Tudo tem a sua duração
de maneira que o melhor era não perder muito tempo antes que a duração acabasse.
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12:57 Sexta feira, 2 de Jul de 2010
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Ignorava que os pezinhos de porco fossem afrodisíacos
Se calhar as minhas grandes paixões passaram-se entre os doze e os quinze anos: por cromos de artistas de cinema que vinham nas embalagens das pastilhas elásticas, pela tia de um colega da escola que me passou a mão no cabelo, por meninas que patinavam no Jardim Zoológico e não me ligavam nenhuma, por uma senhora da idade da minha mãe que encostou a perna à minha no eléctrico, por uma outra, mais velha ainda, que me pegou na mão no cinema. No intervalo, loiríssima, fumou um cigarro de filtro doirado sem olhar para mim a fim de que não pensassem que namorávamos, visto que os assuntos sérios querem-se com recato e eu ainda não tinha dito nada aos meus pais, tornando o noivado oficial, mas a seguir ao intervalo, no escuro, discreta e suave, pegou-me na mão outra vez, largou-a para me acariciar o joelho
(eu usava, imperdoavelmente, calções)
demorou-se no princípio da coxa, com pressões várias e lentas
(sentia-lhe os anéis)
regressou à mão, entrelaçou os dedos nos meus, fez-me cócegas, com as unhas, na palma, o polegar passeou-me para baixo e para cima pulso adiante, mal o filme acabou levantou-se e nunca mais a vi. Quer dizer, vi o cabelo loiro a entrar num táxi e chovia. Não há nada mais triste que um amor sincero terminado à chuva. O reflexo das luzes nas poças de água quase me impedia de respirar de dor. Levei para aí um ano a recompor-me. Se não foi um ano foi uma semana, o que vem a dar no mesmo, inconsolável por pensar que teríamos sido felizes. Não tenho a menor dúvida que teríamos sido felizes, são coisas que se percebem. E, por estranho que pareça, ainda hoje o reflexo das luzes nas poças de água me dá uma espécie de melancolia mansa.
Depois da senhora mais velha que a minha mãe, para aí com quarenta anos que é número que dá vertigens, recuperei graças às gémeas Kessler, alemãs ou suíças ou holandesas, é tudo igual, que cantavam, vestidas do que eu achava serem fatos de banho, na televisão. Logo duas, de pernas compridíssimas
(quatro pernas)
para trás e para a frente, e penachos na cabeça cintilando milhares de diamantes e pérolas. O problema era que não conseguia decidir-me, escolho a da esquerda, escolho a da direita, tinham o mesmo sinal na mesma bochecha, o mesmo sorriso inalterável, a mesma cintura, os mesmos movimentos, desciam a mesma escada na mesma cadência, ponderei
- Fico com as duas?
este pensamento poligâmico, dito ao prior na confissão, traria na volta uma fiada interminável de Ave Marias de penitência e uma tarde inteira na igreja a pagá-las, para além do receio que o prior, amigo do meu avô, o fosse escandalizar com as minhas poucas vergonhas. Já estava a vê-lo chamar-me ao escritório, sentar-se à secretária, ordenar
- Chega aqui
eu de pé do outro lado, à espera, enquanto o meu avô, terrível, em silêncio e de pálpebras descidas, mudava o filtro da boquilha, endireitava objectos numa indignação lenta, passava uma folha do calendário de argolas que demorou um século a virar, fitou-me outro século numa mudez de mau agoiro e vociferou por fim, pronunciando cada sílaba numa martelada de ultraje
- Com que então as duas gémeas Kessler ao mesmo tempo, seu bandido?
enquanto alongava o pescoço para o corredor na esperança que a minha avó não desse conta da infâmia e corresse a prometer novenas para me salvar da eternidade de labaredas e tridentes. Obrigado a deixar as gémeas Kessler, que provavelmente agonizaram de desgosto sob os penachos, passei um longo período de reflexão abstinente até começar a comover-me, aos poucos, com as nádegas da cozinheira, que cheirava a pezinhos de porco de coentrada da mesma forma que os mártires cheiravam a santidade. Ignorava que os pezinhos de porco fossem afrodisíacos
(sabia lá o que significava afrodisíaco)
mas pelos vistos não existia pai para aquilo. Joguei-lhe a palma ao rabo e, ao voltar a cabeça, estava a minha outra avó, na porta da cozinha, de queixo caído. Como era uma pessoa de profundo sentido político, um Tayllerand de saias, em lugar de indignações e ralhos propôs-me trocar as saliências posteriores da cozinheira por conta aberta na pastelaria quase ao lado da casa dela, que exibia na montra bolos de creme irresistíveis em que o creme tinha a forma de pintos de órbitas amarelas de fios de ovos e caudas de frutas cristalizadas. Cedi. Entre nádegas e bolos quem, normalmente constituído, não prefere os bolos? Após um momento de indecisão resolvi-me pelo açúcar em detrimento dos coentros. Só me indignou que, mal a cozinheira se despediu, a minha avó me fechasse a conta prevenindo que não queria um neto gordo. Tempos depois de a cozinheira se despedir a pastelaria fechou. Quem garante não ter sido a minha avó a mandá-la fechar? Se algum de vocês souber de uma pastelaria com bolos de creme em forma de pinto de órbitas amarelas agradeço que me diga: é que sinto vontade de me apaixonar outra vez.
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2:35 Quinta feira, 17 de Jun de 2010
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Em matéria de má-criação possuo um currículo e peras, davam-me notas de mau comportamento no liceu. Vinham a encarnado e tudo, no fim do papel
À noite os sons, ainda que longe, parecem tão perto de nós: um cão, no horizonte, mesmo aqui ao lado, a queda do galho de uma árvore, a respiração da terra. A água no fundo do poço que não se aquieta, não se aquieta. O choro de uma criança, na rua de baixo, junto ao meu ouvido. As crianças magríssimas do interior de Angola, de barrigas enormes, não choravam. Também não me lembro de ver um adulto chorar. Ou queixar-se. Uma ocasião, numa cubata, uma mulher encheu-me o corpo de pó de talco e depois não fiz nada, vim-me embora. Havia trapos, galinhas, um bebé a dormir e vim-me embora de pura vergonha. Recordo-me de tropeçar numa garrafa de cerveja caída e de crocodilos num rio. Mas ao falar dos sons não me referia a África, referia-me aqui, em Lisboa. Pingos de torneiras longínquas a tombarem-me no interior da cabeça. Estalos de mobília. O zunzum de conversa dos retratos, que não se calam nunca. Pergunta
- Estás aí?
uns aos outros. Às vezes respondo por eles
- Está aqui
e o silêncio espantado imaginando quem será aquele que falou. A gente olha as molduras e os retratos procuram na memória
- Qual é este?
não acham, pensam
- Devo ter envelhecido
e esquecem-nos. É terrível ser esquecido por um retrato: só quem passou por isso é que sabe. A gente
- Avô a gente
- Tio
e nada. Acreditem: é terrível ser esquecido por um retrato. Só muito tarde percebi que o passado e o futuro existem no presente, o que fomos e o que seremos estão connosco agora. Aquele miúdo sou eu, aquele velho sou eu
- Mais uma colher, tio António
comigo de manta nos joelhos a abrir a pobre boca obediente, não boca-boca, os papelinhos dos lábios e, entre os lábios, uma linguíta pálida, ao mesmo tempo que, de calções
- Deixa o animal em paz
tento cortar o rabo a uma lagartixa quase a sumir-se num intervalo de tijolos, ou estou na cama, com tuberculose, no dia em que o meu pai faz trinta e três anos. É engraçado, não sinto sofrimento, sinto ganas de ser malcriado com as pessoas. Em matéria de má-criação possuo um currículo e peras, davam-me notas de mau comportamento no liceu. Vinham a encarnado e tudo, no fim do papel. A minha mãe ia conversar com os professores, pedir que me pusessem na primeira fila para andarem de olho em mim. E notas negativas a dar com um pau, faltas. A professora do primeiro e segundo achava que eu era um génio a escrever, fadado para altos voos, mas o professor do terceiro, quarto e quinto afirmou que as minhas redacções não valiam um chavo:
- Isto é sujeito, predicado, complemento directo e ponto, não quero cá fantasias, levas um medíocre e vais com sorte
de maneira que durante três anos não passei do medíocre e fui com sorte. Entregava-me o ponto todo riscado
- Anda-me com metáforas, este
mandava-me dividir Os Lusíadas em orações
- Não me interessa a versalhada, interessam-me as oraçõezinhas
e a mim interessava-me a versalhada, azar o meu. Pior que azar: estupidez minha:
- És burro ou quê?
e era burro de certeza porque as frases querem-se como deve ser. Por exemplo: eu sou português, frase como deve ser. Por exemplo: caminho da virtude alto e fragoso, adjectivos a mais, patetices. Mas não era nisto que eu estava, era nos sons à noite: um cão, junto ao horizonte, mesmo aqui ao lado, a queda do galho de uma árvore, a respiração da terra. A água no fundo do poço que não se aquieta, não se aquieta. A tua voz a dizer o meu nome. Já agora há quanto tempo não dizes o meu nome? Apagaste-me de vez? Nunca pensei que me apagasses de vez, tive esperança de ser, ao menos, uma luzinha vacilante mas teimosa em qualquer ponto da tua memória, que se pode ignorar mas não se esquece, uma silhueta, mesmo difusa, um fragmento de cara, a gente pensa
- Qual é este?
e depois um
- Ah
desiludido, só cá faltavas tu. Fui um chato, não fui, quezilento, desconfiado ou então ausente, noutro mundo? Se eu dividisse Os Lusíadas em orações, com rapidez e eficiência, correria melhor? Fiz-te a vida negra, ignorei-te, apareci-te maquilhado e com cinto de ligas? O que falhou, explica-me? Escrevo isto e o choro de uma criança, na rua de baixo, junto ao meu ouvido. Se por acaso o escutares não ligues: apenas um choro, mais um, o que não falta para aí são choros. Choros e pingos de torneira longínquos a tombarem-nos dentro da cabeça. Pelo menos na minha.
Queres tu ver que são lágrimas?
Daqui a nada vou-me deitar. Sozinho mas rodeado de ecos. Ecos de mim, de ti, das ondas de uma praia onde nunca estivemos e não sei onde fica, de um farol de nevoeiro a lastimar-se. A professora do primeiro e segundo anos acreditava no meu talento, tinha um sorriso bondoso. No último trimestre do liceu encontrei-a por acaso à saída:
- Ainda escreves, Antunes?
perguntou-me ela. E, em lugar de responder, fugi. Claro que escrevia mas às escondidas, com vergonha, cheio de incertezas. E, no entanto. E, no entanto, uma ova. Não quero falar disso. Foi mais ou menos por essa altura
(tinha dezasseis anos)
que te vi pela última vez. Nunca chegámos a conversar. Nem sequer tenho a certeza de como te chamavas. Nunca arranjei coragem para te esperar à saída do colégio de freiras. Se te encontrasse agora não te conhecia, mas não há perigo, não nos encontraremos: somos outros e de certeza que nem deste conta de um palerma de franja a espiar-te na outra ponta da sala num baptizado qualquer.
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3:25 Quarta feira, 2 de Jun de 2010
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"Quem nunca falhou uma lágrima levante o dedo e as adolescentes não cessavam de pensar, seríssimas. Pulseiras de baquelite e borracha, argolinhas de metal na asa do nariz. amo-te cláudia. A cláudia e o que a amava onde estarão agora? Numa das estações um cartaz a favor do casamento homossexual coberto de insultos: o maior a carvão, em maiúsculas imensas, morte aos paneleiros"
A preta velha no metropolitano, de saco de plástico nos joelhos, ao lado dela um senhor branco que tirou um lenço da algibeira e começou a chorar e de pé, agarrado ao varão, um rapaz com um estojo de saxofone e o cabelo pintado de azul. Os três tinham os olhos vazios. O meu reflexo na janela: olhos vazios também. O que via no saco de plástico eram legumes, pão. O senhor branco chorava de feições imóveis e de quando em quando limpava as bochechas com o lenço. O rapaz do saxofone estalava os dedos ao ritmo de uma música secreta. Numa das paragens entrou uma criatura de bengala, a caminhar aos sacões como se o chão da carruagem ondulasse. Num dos vidros, a spray cor de rosa, amo-te cláudia. Por baixo do amo-te cláudia um spray verde amas o tanas, e por baixo do amas o tanas, a spray amarelo, vão os dois à merda. A napa de um dos bancos rasgada a canivete. A preta velha usava uma espécie de turbante, o rapaz do saxofone um boné de pala para a nuca que tinha impresso NY Giants. A criatura de bengala respirava de boca aberta, preocupada com um adesivo, já cinzento, nas costas da mão. A aliança estrangulava-lhe o dedo: nem com o sabonete saía, havia de ser preciso cortá-la. Na paragem seguinte um par de adolescentes a cochicharem risinhos. Uma perguntou à outra
- Achas que sim?
calaram-se a pensar, de súbito sérias, a da pergunta insistiu
- Achas mesmo que sim?
e a seriedade aumentou. O rapaz do saxofone continuava a estalar os dedos. A da pergunta concluiu
- Não acredito
a raspar uma nódoa da manga com a unha sem que a nódoa saísse. Mostrou a nódoa à amiga, interessaram-se pela nódoa, desinteressaram-se da nódoa. Nas gengivas da criatura de bengala dentes postiços inseguros: às vezes é preciso atarrachar as placas. Qualquer mecânico faz isso com um alicate. O metropolitano dava ideia de rolar ao acaso, na direcção de nada. Umas voltas com o alicate nos arames e experimente lá agora se ficou bem. Ficou demais: desatarrachar um bocadinho
- Que tal?
e os dentes uns contra os outros, cautelosos, à experiência. O aspecto ameaçador dos dentes falsos, a impressão que se morderem a gente nos matam. Graças a Deus ficaram quietos
- Melhor
com a língua a tacteá-los, depois o mindinho, depois a língua outra vez. A preta velha ajustou as nádegas no assento, o homem branco procurou uma lágrima na bochecha, com o lenço, e falhou-a. Quem nunca falhou uma lágrima levante o dedo e as adolescentes não cessavam de pensar, seríssimas. Pulseiras de baquelite e borracha, argolinhas de metal na asa do nariz. amo-te cláudia. A cláudia e o que a amava onde estarão agora? Numa das estações um cartaz a favor do casamento homossexual coberto de insultos: o maior a carvão, em maiúsculas imensas, morte aos paneleiros. A criatura de bengala emitiu
- Há gostos para tudo
a segurar a opinião com os lábios, devido aos caprichos dos incisivos. No meu entendimento mostrou ser uma mulher de vistas largas, embora
- Há gostos para tudo
permita interpretações contraditórias. A preta velha tornou a ajustar as nádegas no banco, um vértice de cenoura despontou do saco de plástico e ficou para ali a competir com os sprays. amas o tanas. Quem garante que não amava o tanas, de facto? Isso do amor tem que se lhe diga, acho eu, há-de haver gente que sabe. Não afirmo que sim, não afirmo que não, no que me respeita a Nina talvez, pode ser, não juro, não entremos por aí, há sempre detalhes que magoam, nunca saio intacto da lembrança da Nina. Não vou chorar como o homem branco do lenço mas enfim, as coisas são o que são e acabou-se. Nina diminutivo de Saturnina, o nome da madrinha
- Cada vez que me chamam Saturnina dá-me ganas de matar a minha mãe
que não precisou da ajuda dela, faleceu por sua conta, atropelada. A rua quase a pique e um autocarro sem travões colaboraram, a mãe que por sua vez odiava ser Isméria e a Nina
- Se me dessem a escolher apesar de tudo ia pelo Isméria e tu?
O que se responde a isto? Silêncio, claro, e o resultado do silêncio invariável
- Nem um pio dás para amostra, raios te partam
prova que isso do amor tem que se lhe diga, há-de haver gente que sabe. O rapaz do saxofone estalou os dedos com força, apeteceu-me dar uma trincadela no vértice da cenoura, por timidez não dei e o metropolitano cada vez mais depressa, por túneis onde nunca tinha estado antes, na direcção de nada. As estações foram rareando, lâmpadas ocasionais que desapareceram igualmente, uma escuridão imensa lá fora a tornar o amo-te cláudia mais nítido. Afigurou-se-me que alguém me cochichava na orelha
- Cada vez que me chamam Saturnina
mas engano meu, não cochichavam. A única coisa que se ouvia era o som das rodas nas calhas e o estalar dos dedos do rapaz do saxofone. Tal como a preta velha e o senhor branco que tirou o lenço da algibeira tinha os olhos vazios. Os meus vazios também no reflexo do vidro mas não me preocupei: desde que a Nina se foi embora fiquei assim.
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17:30 Quarta feira, 19 de Mai de 2010
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Que tenho eu no armário para além do sobretudo e de revistas velhas?
Quem está lá dentro a mexer-me nas coisas tentando não fazer barulho, em bicos de pés para aqui e para ali? Há alturas em que me parece ouvir assobiar, há alturas em que me parece ouvir rir para a palma da mão, baixinho, a troçar de mim. Se calhar mete-me os instrumentos da barba num saco e desaparece pela janela das traseiras, se calhar leva-me roupa, o despertador, o pratinho da mesa de cabeceira com chaves e moedas. Não me atrevo a levantar-me, não me atrevo a ir ver. Será melhor fechar à chave a porta da sala, bater a chávena do café na mesa para o assustar ou permanecer assim, como se nada fosse, transidinho de medo? Escolho permanecer assim, transidinho de medo, à escrita, e lá anda o assobio, lá anda o riso, os gongos do armário a darem sinal num gemido comprido. Que tenho eu no armário para além do sobretudo e de revistas velhas? O álbum de retratos da minha mãe cheio de defuntos pouco nítidos, um cestinho de verga com violetas de pano, almanaques antigos e sobretudo a agenda em que escrevia versos que nunca me atrevi a mostrar. Alguns são bonitos, acho eu, falam de piqueniques e procissões. E o soneto de quando melhorei da ciática, dedicado a São Teotónio porque cá em baixo, em letras miúdas, era dia de São Teotónio, e visto ser São Teotónio quem estava de serviço foi ele, mais as injecções, que me livraram das dores. Acho bem que os santos façam turnos como os enfermeiros e os polícias, deve ser cansativo gastar o tempo todo em milagres, meter empenhos a Nossa Senhora, convencer Deus que já está velho e teimoso, estender a caneta para Ele assinar a autorização, levar a autorização ao carimbo, mandá-la para a Terra, essas maçadas. Repartições lentas de anjos preguiçosos, o bengaleiro cheio de asas penduradas, pó de nuvens por todo o lado que as onze mil viagens não limpam, mas quem está lá dentro a mexer-me nas coisas tentando não fazer barulho, em bicos de pés para aqui e para ali, quem me parece ouvir assobiar, quem me parece ouvir rir para a palma da mão, a troçar de mim? Desde pequeno tenho a mania que troçam de mim, me observam à socapa, me criticam. Os colegas da escola, por exemplo, o professor
- Onde nasce o Mondego ó tu que fumas?
a telefonista do emprego, de aparelho entalado entre o ombro e a bochecha, a corrigir o verniz das unhas com o pincelzinho. Chama-se Fernanda, é mais alta que eu, no outro dia apanhei-a a murmurar
- Fofinho
no bocal, numa espécie de gemido que me levantou a alma, e eu envergonhadíssimo por a alma se levantar assim, de garfo no bolso das calças a disfarçar-lhe os arroubos. Há alturas em que o espírito se manifesta de maneira inoportuna. Gostava de poder dizer
- Fernanda
cá de baixo, derivado ao seu tamanho e ela, em resposta
- Fofinho
no bojo do casaco de peles sintéticas que lhe fica a matar, desprendendo o cabelo da gola. Usa brincos compridos com sininhos que tilintam, um anel no polegar, um diamante
(deve ser um diamante)
um diamante minúsculo entre as sobrancelhas. Às quintas há um sujeito de bigode à espera num automóvel de dois lugares, achatado como uma cigarreira. Nem sei como consegue enfiar-se naquilo, nem sei como o bigode lá cabe. Será ele o Fofinho ou haverá outros Fofinhos escondidos por aí, maiores do que eu, a darem-lhe beliscões na bochecha
- Sua má, sua mazona
num parque de estacionamento discreto, os sininhos dos brincos tilintam como loucos e o tu que fumas nem sequer com ciúmes, resignado. Uma das escriturárias dá ares de ter pena de mim, de se interessar pela minha pessoa mas nem casaco de peles nem anel no polegar, uma roupita triste, uns olhos que pingam. Tratamo-la por Dulce, que é um nome que não vai bem com a sua magreza nem com os sapatos que lembram caixas de violino. Olho-a e a alma permanece num repouso distraído, inamovível. Não acredito que seja capaz de um
- Fofinho
porque rói as unhas, quando muito solta um
- Bichaneco
que gela o mundo e acabou-se. Se calhar é a Dulce quem está lá dentro, a mexer-me nas coisas com os dedinhos tortos, só que não a imagino a assobiar nem a rir. Abraçou uma seita religiosa qualquer e aposto que foi o único abraço que deu na vida. Pode ser que encontre a agenda dos versos no armário, pode ser que simpatize comigo. O melhor é continuar assim quietinho, na esperança que se vá embora, na esperança de não escutar nenhum
- Bichaneco
através da porta fechada. O melhor é não tentar sequer um
- Dulce
sumido: oxalá salte a janela depressa, levando tudo o que me pertence.
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4:29 Quinta feira, 6 de Mai de 2010
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Agora habita uma gavetinha de ferro, entre dúzias de gavetinhas de ferro, no muro do cemitério da terra dele, Abrantes
A minha vida é trabalho-casa, disse ela. Aos fins de semana vai ao supermercado, depois engoma, passa a ferro, limpa. Uma manhã por mês consulta no médico para regular os diabetes. Suspiro:
- Se fossem só os diabetes
e não são só os diabetes, é o colesterol, a tensão, o problema dos ossos.
O trabalho, esse, é na contabilidade de um escritório: duas horas de transportes para cá, duas horas de transportes para lá. Em tempos teve um carro mas o preço da gasolina, mas o preço do seguro, mas o preço da oficina, de modo que o carro está à porta, quer dizer um bocadinho adiante da porta: um sem abrigo dorme no banco de trás, embrulhado em jornais, na companhia de umas garrafitas, a cobrir-lhe os estofos de cascas de laranja. Ultimamente um gato acompanha-o. O sem abrigo chama-se Senhor Peixoto, andou anos a penar na construção até que o joelho deu de si e largou os andaimes. Falta-lhe um dedo e meio na mão esquerda
- Falta-me um dedo e meio na mão esquerda
anuncia a exibir a manga. A mãe do Senhor Peixoto dá ideia que teve instrução
- Até piano havia
mas o senhor Peixoto dava-se mais à moinice
- As mulheres, compreende
ainda foi angariador de seguros mas enfiou as unhas na caixa
- Sem dinheiro não querem saber da gente
de modo que se mudou para os andaimes até o joelho dar de si. À terceira queda o patrão substituiu-o por um preto qualquer
- Um preto qualquer, veja bem
e nem mulheres nem seguros, fominha.
A do trabalho-casa compreende
- É a vida
e aceita-o nos estofos. No inverno entrega-lhe umas serapilheiras para enganar o frio
- Tome lá, Senhor Peixoto
o Senhor Peixoto, que não perdeu a galanteria
- Obrigadinho, madame
a coçar-se
- Não leve a mal, madame
porque o drama dele sempre foi a pele, herdou de um tio das classes altas, sargento, a delicadeza da epiderme
- Os ricos, já se sabe, parecem forrados a seda
e o Senhor Peixoto seda também, que se dá mal com trapos e estofos:
- Nasci para lençóis em condições mas o que se há-de fazer?
A do trabalho-casa está a par, o marido também foi niquento: a questão não era a pele, era a asma, tudo lhe dava asma até que uma primavera com mais pólenes o apagou como um passarinho
- Disse-me adeus com as pestanas
passou do pijama para o fato dos domingos, numa urna quase de mogno, não bem mogno, que o mogno é caro, mas praticamente mogno, nem de perto se notava a diferença, e agora habita uma gavetinha de ferro, entre dúzias de gavetinhas de ferro, no muro do cemitério da terra dele, Abrantes, a fim de os parenteso acompanharem, cada qual a espirrar para seu lado o que sobeja da asma: umas cinzas sobressaltadas, visto que o mundo inteiro sabe que as alergias não descansam. O senhor Peixoto, a quem os cromossomas do tio sargento forneceram cultura e sensibilidade, apoia
- Um tormento
a alastrar nos estofos, pede-me que lhe confirme as noções
- Explique lá você, senhor Antunes, que foi médico
garanto que sim, as asmas são tenazes, pulam a eternidade inteira, a do trabalho-casa ajuda-me
- Quando está tudo calado juro que lhe oiço os soluços
e ficamos os três à espera, em silêncio, mas por embirração o defunto não se manifesta:
- Sempre fez só que o quis
suspira a do trabalho-casa deixando subentendidos séculos de teimosia aborrecida pontuados por
- Não me apetece
insuportáveis. Que idade terão ambos, o vagabundo e ela? Por mim sugeria-lhe que o levasse para o seu rés-do-chão: podia limpá-lo e engomá-lo aos domingos, juntamente com os lençóis e as toalhas, ficar a vê-lo andar à roda no óculo da máquina: talvez que, do meio da espuma, lhe piscasse o olho.
Vontade de perguntar
- Há quantos milénios não lhe piscam o olho, minha senhora?
mas embora sem um tio sargento possuo algum decoro e calei-me. A do trabalho-casa vislumbrou qualquer coisa
- Ia fazer uma pergunta, senhor Antunes?
esperta como um alho o raio da velha, mas apressei-me a girar a caveira horizontalmente
- Nenhuma pergunta, minha senhora, já me chamaram a atenção que volta e meia tenho um ar esquisito
e a do trabalho-casa, subitamente maternal, aconselhou-me
- Devia casar-se, sabia?
E talvez devesse casar-me, realmente, arranjar uma criatura em condições que me tirasse, em simultâneo, as espinhas do peixe e as da alma, me pusesse a pasta na escova e me tratasse por Biju. Quando eu era pequeno a mulher sumptuosa do farmacêutico tinha um cão chamado Biju. Ficava à janela, de Biju ao colo, a fumar cigarros lentos, inacessível, e eu cheio de formigueiros na planta dos pés. A propósito de casamento, e já que estamos nisso, a mulher do farmacêutico será uma criatura livre agora?
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21:49 Quinta feira, 15 de Abr de 2010
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Na minha família não se fala de mariquices mas, de vez em quando, há gestos destes, de ternura escondida, como quem não quer a coisa
O João trouxe-me um Santo António pequenino de Pádua: comoveu-me que se tivesse lembrado de mim. Na minha família não se fala de mariquices mas, de vez em quando, há gestos destes, de ternura escondida, como quem não quer a coisa. Deve-se gostar das pessoas sem lhes mostrar. Deve-se gostar das pessoas sem lhes mostrar? Pelo menos entre nós é assim: não há elogios, não há censuras, raramente há perguntas. Para quê? Há um estar ali que é já tanto. Diz-se sem as palavras e percebe-se que se diz e o que se diz porque o clima, não sei explicar de outra maneira, se torna diferente. Não falamos do que cada um faz: a gente sabe. Do que cada um sente: a gente sabe. Não se fala do sofrimento, não se fala da alegria: a gente conhece. É melhor desta forma. Uma única ocasião o meu pai fez-me uma confidência, sacudiu-a logo com a mão
- Chega de pieguices
e alegrou-me que se penitenciasse por transgredir as regras. Não há efusões, não há gestos e, no entanto, as efusões e os gestos estão lá. Quem souber ver que veja, quem não souber é porque não pertence à tribo. Não há lamentos: porque é que hei-de lamentar a minha sorte, interrogava o grego. Não há censuras, não há críticas, salvo em ocasiões muito, mas mesmo muito, especiais. O Zé Cardoso Pires percebia isto
- Vocês estão muito ligados
disse-me um dia, e mudou logo de paleio.
- Nenhum escritor gosta de falar do que escreve
afirmava ele. E, realmente, nunca falámos um ao outro do que escrevíamos. Quase todos os dias conversávamos mas não se tocava nesse assunto. Quando muito
- Estás a trabalhar?
e acabou-se. Ou
- Não estou a trabalhar
e acabou-se. Uma tarde telefonou-me
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
desviou logo o assunto e isto é o cúmulo da amizade. Foram os parabéns que, até hoje, mais prazer me deram. Até as nossas dedicatórias mútuas eram secas: Para o António do Zé, Para o Zé do António e um rectângulo à volta, a cercar as palavras, a fechá-las lá dentro. O rectângulo, claro, era o mais importante, e o que estava naqueles quatro riscos, meu Deus. Maior elogio mútuo
- Belo livro
maior crítica mútua: silêncio dentro de um soslaio breve. Não, maior elogio:
- Posso ser amigo de um médico, de um engenheiro, de um pedreiro. Para ser amigo de um artista tenho que admirá-lo.
Passeávamos de braço dado na rua. Com o meu irmão Pedro, por exemplo, darmos o braço é fazermos chichi juntos, no escuro, junto à cascata do jardim dos meus pais, com um comentário sobre o jacto respectivo. Depois sacudirmos os pingos ao mesmo tempo porque a pila não sabe fungar. Então abotoamo-nos e cada um vai para o seu lado, em silêncio. Deve ser difícil as mulheres entenderem isto mas, para os homens, fazer chichi lado a lado, ao ar livre, é sinal de amizade, a olharmos para baixo, cheios de duplos queixos. Tanto che che che nesta frase. Fazer chichi na rua é um dos meus prazeres, devo ter sido cachorro noutra encarnação. Detesto urinóis, retretes: haverá alguma coisa que se compare à exaltação de mijar contra uma parede? Às vezes, a seguir ao jantar, digo ao Pedro
- Já mijaste?
sabendo que ele estava à minha espera para essa celebração da cumplicidade. Nem que sejam três gotas faz-se um esforço. Vemos as árvores, vemos o muro, não nos vemos um ao outro mas estamos ali. Nem quero pensar na ideia de fazer chichi sozinho. No fim pergunta-se
- Como é que estás?
sabendo que o parceiro se cala. Depois cada um no seu carro, sem mais palavras. Um atrás do outro e, a certa altura, separamo-nos, com um sentimentozito de despedida que custa. Quer dizer não custa assim tanto, custa um bocadinho e passa. Eu vou fazer redacções, ele vai fazer não sei o quê: pouco importa. Importa que durante uns momentos estivemos juntos. Agora interrompi esta crónica porque fui lá dentro espreitar o Santo António antes de lhe pôr o ponto final. Que pena um ponto final ser tão pequenino.
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5:51 Quarta feira, 31 de Mar de 2010
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