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Porno Estética

Antes boa pornografia que má poesia

Há muito em comum entre a pornografia caseira e a poesia caseira. São ambas más. Caseira, só a comida, e depende das casas. Em casa da Linda Lovelace não há bimbys e come-se bem.

Pastor Pelejão
1:02 Quinta, 15 de Julho de 2010
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O Central Park estava à pinha, parecia um refeitório colectivo de yuppies apressados e carrancudos. Desisti do sumo de melancia e da kiche de cogumelos e refugiei-me na Bulhosa. Gosto da Bulhosa por causa do nome. Soa bem, parece uma iguaria antiga, uma receita perdida de um molho - pato com pinhões e recheio à Bulhosa.
Bertand não gosto, tem nome de televisor ou transistor para ouvir o relato da bola.
Também gosto de Bucholz. Soa a filosofia séria, a santuário de amor aos livros; respeitável e com ressonância de negócio de família, como uma mercearia de serviço austero, mas atencioso.
Entrei na Bulhosa e fintei os escaparates com uma simulação de corpo à Garrincha, driblei depois as estantes dedicadas aos nados bestsellers de fabrico nacional. De fabrico nacional gosto do vinho, do queijo e das bolachas maria.
Parece que agora o romance histórico ou de inspiração histórica varreu os teclados dos escrivaninhas lusos. Bocage e D. Sebastião exibiam sorrisos amarelos e cúmplices, expunham-se lado-a-lado como temível e travessa duplas de centrais paraguaios.
Com uma revienga à Tostão, passei pelo meio de ambos sem lhes passar cavaco.
Confesso que hesitei na lateral direita, a estante da Tachen impunha-se como uma Tágide traiçoeira. Audrey Hepburn dissimulava aquele sorriso cândido capaz de desbaratar um império. Quase perdia a compostura de avançado mortífero quando fui barrado por "A History of breaths trough time", que é como quem diz "História de mamas através dos tempos".

Pin-ups de calendários dos anos 50 sussurravam com lascívia - leva-me contigo.
Foi por um triz. Felizmente o preço (quase 50 euros) impediu-me de ornamentar a minha estante onanista.
Que nem uma seta, apontei ao cantinho escondido da poesia. Respirei fundo e aliviado, folheei Sophia, cusquei Eugénio, fingi concentrar-me em Verlaine, até que por fim, lá estava ele, bonacheirão, velhinho e simpático.
Manuel Bandeira, brasileiro, pai do modernismo transantlântico, poeta grande, coração ainda maior. Sorri-lhe e pedi para me ler um poema. Ele pigarreou a cigarrilha turca e disse:

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha de horizonte.
O que eu vejo é o beco."

Encurralado, meti-o no bolso e fui-me embora para Pasárgada, "lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei".
Pelo caminho, raptei Zeus e seu panteão, os deuses celtas e até ugro-filandeses, levei-os todos empacotados por Félix Guirand na monumental "História das Mitologias".
Paguei e fui-me embora sem almoçar.

Em casa fiz sandes de queijo da serra para todos, abri uma garrafa de vinho. Foi uma paródia até às tantas. Manuel Bandeira a recitar poesia e os deuses gregos numa grande orgia.
Dionísio podre de bêbado a ver se levava para a cama Nijola, a sensual deusa da fertilidade lituana. Zeus ressonava e Apolo jogava canastra com Rá, um reputado batoteiro do Nilo. Sorte ao amor, azar ao jogo, pensou Apolo, enquanto arrotava mais uma notinha de vinte euricos. 

Foi um festão até de madrugada, mas por fim, lá corri com eles para a estante do Círculo de Leitores, depois de deitar Manuel Bandeira, exausto, ao lado do seu amigo Drummond.
Meti-me no edredão, apaguei a luz e num suspiro lembro-me de ter ficado a pensar que devia ter trazido a "história das mamas ao longo do tempo", que é toda a poesia que preciso. Antes boa pornografia que má poesia.

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The Almada cruising in the river
madre silva (seguir utilizador), 1 ponto , 12:57 | Sexta, 16 de Julho de 2010
Ficamos sideradas com o seu potlatch homérico, empanturradas de tanto conhecimento notável.
Subscrevemos a sua oração: “Há muito em comum entre a pornografia caseira e a poesia caseira. São ambas más.” Sem dúvida, a pornografia jamais poderá ser entregue a amadores. Ela exige estudo, pesquisa, monografias, teses, cientistas com formação em energia nuclear! Deve ficar nas mãos de multinacionais experientes. No máximo dos máximos pode ser franchisada, mas nunca por nunca cedida a quem não dedicou a vida a tão nobre causa.
Deus sabia da necessidade da Porno-especialização. Dai a expedita criação de Sodoma e Comorra, terras que infelizmente sucumbiram devido à negócios escusos, fruto de especulação imobiliária.
Vamos, por tanto, partir para uma partida de xadrez epistolar.
O caro Pastor não ornamentou a sua estante onanista com a “História de mamas através dos tempos". É aqui que reside a maior diferença entre a sua e a nossa Confraria. Mesmo que fosse entregue à porta, por alguma testemunha Jeová (juntamente com a revista Sentinela) a “História dos falos através dos tempos”- “Historia de pollas e huevos a través del tiempo” - nós não estaríamos minimamente interessadas.
Os homens e as mulheres no que toca ao culto onanista são completamente diferentes. Vocês são abstractos, nós racionalizamos os happenings masturbatorios.
Não duvidamos, que o Pastor Flores tenha um pínaculo inusitado perante um par de mangas bem luzidias. Calculamos que o Pastor Oliveira sofra de priapismo a ler Anais Nin. Quanto ao Pastor Pelejão é o que já se sabe, um fartar de vilanagem com a Diva Von Tess e Pin-ups de calendários dos anos 50. Infelizmente a nossa natureza não é essa, a mulher para o bem e para o mal, é mais complexa.
Vejamos o caso da Freira Assunção, resolveu prestar culto a Onan, apesar das diversas advertências da Confraria para se deixar de fantasias oníricas e passar antes aos finalmentes.
A nossa amiga concentrasse, pensou num ambiente romântico: Fazer sexo com um estranho no misterioso Expresso do Oriente; noite romântica num cruzeiro pelas ilhas das Caraíbas com cheirinho a maresia; fazer amor num alpendre de uma casa colonial em Goa…etc. As ideias são boas, mas não lhe parecem exequíveis. A freira levantasse e vai google, estuda os preços das viagens. O único destino do mundo que parece viável, é uma viagem de cacilheiro para a margem sul - The Almada cruising in the river Tagus 31 euricos.
Com o local definido, ela passa à etapa seguinte, a construção do seu parceiro. Tal exercício demora pelo menos uma hora.
Assunção, começa a árdua tarefa: o corpinho sarado do Brad Pitt, o ar charmoso de George Clooney, os olhos meigos de Paul Newman, a voz cavernosa de Sean Connery, a sabedoria do Ganhdi e as mãos de pianista de Liberace…Liberace??? …de um momento para o outro o pequeno e casto quarto é invadido por uma chuva de enormes pianos de cauda, lantejoulas, convettis, toneladas de roupa excêntrica, bolas de espelhos…do roupeiro surge uma parada Gay gritando entusiasticamente as palavras de ordem: “Sem homofobia, mais cidadania”. O cacilheiro é invadido por policiais, índios norte-americano, cowboys, operários, soldados e motociclistas dançando de rabo à mostra ao som de Candle in the Wind de Elton John…um pesadelo!!!! Resumindo após várias horas de barriga para o ar a nossa freirinha, com uma enxaqueca colossal, vai arrumar a cozinha e passar a roupa a ferro para refrear a libido.
Gratas pela sua fantástica homilia - e por este momento de enorme privacidade e intimismo (onde longe de outros olhares críticos fizemos um pequenito exercício de terapia de grupo) - oraremos por si e para que tenha muitas estadias em Pasárgada.

Um dois em um para o reverendíssimo pastor
madre silva (seguir utilizador), 1 ponto , 13:57 | Sexta, 16 de Julho de 2010
http://www.youtube.com/wa...
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