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Algarve Selvagem

Calma e isolamento são palavras que não combinam com o Algarve nesta época do ano, mas longe do rebuliço do Sul, a costa ocidental algarvia permanece quase virgem. E onde é possível, mesmo no pino do Verão, encontrar praias desertas...

Miguel Judas (texto) e Nuno Veiga (fotos)
12:24 Sexta-feira, 15 de Mai de 2009
Algarve Selvagem
Nuno Veiga

É Verão!

Na auto-estrada para o Algarve, intensifica-se o corrupio de carros a rumar para sul, a alta velocidade. Perto da costa ocidental, junto à Ribeira de Odeceixe, também há trânsito, mas por razões diferentes: a ponte está em obras. A demora serve para apreciar a paisagem, com um extenso vale que se estende, por quilómetros, até ao mar. O Algarve está a poucas dezenas de metros. Fica na outra margem, mas ao contrário da imagem mais conhecida da região, não há luxuosos hotéis com vista para o mar, nem discotecas na praia ou campos de golfe. Até ao Cabo de São Vicente, é um outro Algarve que se apresenta ao visitante. Genuíno e preservado. A última fronteira por desbravar da costa portuguesa, que aqui se encontra no seu estado mais puro. A praia de Odeceixe é, mesmo assim, uma das mais concorridas da zona. Do cimo da falésia, junto à povoação, avistam-se algumas dezenas de pessoas, espalhadas pelo extenso areal - banhado de um lado pelo mar e do outro pelas águas da ribeira, que agora atingem o volume de um rio. Há espaço para todos (e muito), mas um pouco mais a sul, seguindo pela estrada municipal que liga Odeceixe à vizinha aldeia do Rogil, há poisos bem mais sossegados, como a Samouqueira (seguir placa no Rogil e depois pela estrada de terra) ou a Barradinha, apenas conhecida pelos locais, no final de uma estrada de terra sem qualquer indicação. À excepção de três amigos, que com esforço e entre gargalhadas, tentam descer a íngreme encosta para a Samouqueira com um bote insuflável às costas, estão ambas desertas. Um cenário parecido ao que é encontrado um pouco mais abaixo, nas Praias de Vale dos Homens e Carreagem, também paralelas ao Rogil e ambas com indicações a partir da localidade. O acesso é feito por estradas de terra, que atravessam campos agrícolas e pinhais. Têm ambas parque de estacionamento, mas Vale dos Homens é a única com acesso pedonal (em madeira) e por isso a mais concorrida, se é que a palavra pode ser utilizada. Ao olhar para os poucos veraneantes espalhados pelo extenso areal, o termo não é de facto o mais adequado.

 

Sabores do mundo

De regresso à estrada de alcatrão, quase à entrada para Aljezur, uma casa chama a atenção, com uma scooter pendurada do lado de fora da parede, junto a uma enorme malagueta vermelha. É o restaurante Chill In, um dos novos espaços abertos na região, pensados para agradar a uma clientela jovem e urbana que, nos últimos anos, encontrou nas praias do concelho de Aljezur e Vila do Bispo uma alternativa ao turismo de massas. A decoração, colorida, remete para um imaginário mexicano e a ementa, de fusão, mistura pratos de inspiração regional como a raia alhada, a tomatada de farinheira ou os camarões com gengibre, com outros de paragens mais
distantes: Chilli, enchiladas, fajitas, arroz tailandês. Tudo regado a caipirinhas e mojitos. Bruno Martins, 32 anos e Raquel Jesus, 29, são os proprietários. Ele cenógrafo, ela ceramista. Durante metade do ano vivem aqui, na casa ao lado do restaurante, onde cultivam uma pequena horta. A filha, a pequena Adriana, com três anos, já nasceu algarvia. É à volta de Aljezur que se concentram as praias mais conhecidas da região: Amoreira, Amado e Arrifana. Apesar de cheias durante o Verão, todas merecem uma visita. Vigiadas e com todo o tipo de equipamentos balneares, são uma boa alternativa para quem vai de férias em família, sem grande pachorra para aventurar-se por trilhos de terra à procura de praias desertas. Neste campo, a Amoreira faz o pleno. Para chegar é necessário seguir a indicação na entrada norte de Aljezur e avançar pela estrada que percorre, ao longo de sete quilómetros, a paisagem única do sapal da Amoreira, um extenso vale onde vivem espécies como a lontra, a galinha de água ou a garça-cinzenta. Quanto à praia, oferece duas alternativas: a praia de mar - com mais de um quilómetro de comprimento - e a praia fluvial, protegida por dunas, que faz as delícias das crianças durante a maré baixa, quando se formam no areal as famosas piscinas.
Para sul, do outro lado das rochas, fica Monte Clérigo, com a pequena aldeia a descer, quase praia adentro, pelas encostas do vale. Estamos no triângulo dourado da região, mas seguindo para Sul, pela estrada de terra que percorre a falésia desde Monte Clérigo, ainda é possível descobrir alguns tesouros, como areais junto à Ponta da Atalaia, apenas frequentados por pescadores da região e um ou outro surfista mais temerário. É um dos pontos mais ocidentais desta costa, de onde se avistam, em dias de sol, o Cabo de São Vicente (a sul) e o Cabo Sardão, já no Alentejo. Do lado sul da Ponta da Atalaia, fica a Arrifana. Com o seu casario encavalitado na falésia e a praia em unha, é outra das imagens de marca da região.

 


Dormir no campo

A oferta hoteleira é escassa, mas compensada, nos últimos anos, pelo surgimento de várias unidades de turismo rural.
É o caso do Muxima, um "monte verde com preocupações ecológicas e ambientais", como o definem os proprietários Jorge Andrade e Sofi a Faustino, 42 e 37 anos. "Tínhamos necessidade de fugir à rotina de Lisboa", explica Jorge com um sorriso. Trabalhava numa organização humanitária e Sofia na área da comunicação social.
"Pensámos em ir para São Tomé, mas um dia passámos por aqui e descobrimos, em Portugal, o que estávamos à procura, uma região em estado quase puro. Para quê então ir para fora?". Compraram a propriedade em 2002, mudaram-se em 2005 e abriram ao público o ano passado. O monte fica a dois quilómetros de Aljezur e tem cerca de 28 hectares, salpicados de medronheiros, sobreiros e esteva. Os quartos, decorados com peças adquiridas em inúmeras viagens pelo mundo (Marrocos, México, Índia, Timor, Angola), estão distribuídos por duas casas de taipa: a do Monte e a da Eira. Cá fora, uma piscina ecológica, faz as delícias nos dias mais quentes. E não se assuste se der de caras com o Riscas ou a Oito, ele é um burro dócil e afável e ela uma porca arraçada de javali que, apesar do aspecto feroz, gosta de festas na cabeça.

Outra possibilidade, talvez a modalidade preferida nesta zona, é alugar uma casa. Como fez, durante muito tempo, o consultor de tecnologias de informação Nuno Guimarães, 33 anos, até ter decidido, com a mulher, Luísa, mudar-se do Porto para Aljezur, onde recuperou quatro casas tradicionais, que hoje aluga a visitantes. As casas são temáticas: Árabe (rústica), do Surfista (moderna), do Agricultor (colorida) e do Pescador (meditativa e monocromática).
Abriu o negócio há dois anos, com a empresa Carpe Vita, que para além do aluguer das casas, organiza ainda passeios pela região (a pé, de btt e em todo o terreno), tem escola de surf e serviço de massagens Nuno é guia de montanha e o sócio Pedro é professor de surf e massagista.
Uma das ofertas "mais apreciadas" pelos clientes, revela, "é o pacote de uma semana", que inclui um passeio a pé pela costa, desde a Amoreira ao cabo de São Vicente, por trilhos de pastores e pescadores.
"Sou adepto de um turismo responsável, que traga um impacto positivo para a região, não só a nível económico como social". As casas que recuperou estão todas situadas na zona velha.

O objectivo, explica, "foi devolver vida a estas ruas" e, ao mesmo tempo, "promover um encontro entre os que cá vivem e quem vem de visita".
Ao todo, vivem pouco mais de 10 mil pessoas nos concelhos de Aljezur e Vila do Bispo. A baixa densidade populacional ajuda a explicar a preservação do território, que se traduz, segundo Nuno Guimarães, numa "mistura entre mar e campo única em Portugal". Mas o que mais o atraiu foi "o aspecto humano" da região. "Existem tradições que já desapareceram no resto do Algarve. As pessoas ainda vivem em comunhão com a natureza e é um luxo sem preço poder comer um pão feito em forno comunitário ou comprar o peixe directamente ao pescador." Ainda comum é a apanha do percebe. Iguaria muito apreciada na região, este crustáceo é capturado nas rochas, junto à rebentação, num perigoso jogo de equilíbrio e paciência. "Temos de fazer pela vida e viver com o que a natureza nos dá", confirma a "perceveira" Lurdes Jesus, 39 anos, uma das poucas mulheres que se dedica a esta actividade. Nessa manhã, Lurdes e o companheiro Rui Freitas, 38 anos, foram até à praia da Carreagem. Escolhem o local no próprio dia, conforme esteja o mar. "Quando está mais manso, vamos a nado até algumas pedras ilhadas, que é onde está o melhor percebe", explica.

 


O peixe

A busca por praias desertas continua para sul, agora no troço entre a Arrifana e a Carrapeteira.
A primeira é o Canal, uma praia de calhau em que a areia apenas surge durante a maré baixa, com um prado quase até ao mar. Numa das pontas, perto da falésia, avista-se uma casa com uma pequena horta. "É do senhor Joaquim. Vai todos os dias de bicicleta a Aljezur, vender o peixe que pesca aqui na praia", desvenda Bruno Rosmaninho, 25 anos, DJ e um dos sócios do restaurante L-Colestrol, outro dos espaços trendy da zona, que neste dia desempenhou o papel de guia. Segue-se Penedo e Vale Figueira, a única com sinalização desde a estrada nacional e também a mais concorrida das três. Ainda assim, basta caminhar algumas centenas de metros para ficar de novo sem ninguém à volta.
Prosseguindo pelas estradas de terra paralelas ao mar, a paragem seguinte é na aldeia da Carrapateira, nome pelo qual também é chamada a praia da Bordeira, uma das mais conhecidas (e concorridas). Uma estrada de terra percorre a falésia até à praia do Amado, outro local frequentado durante o Verão, especialmente por surfistas.
A meio caminho, escondido numa escarpa da falésia, fica o pesqueiro da Zimbreirinha, dos mais ricos da região. Caminhando um pouco pela rocha, avistam-se numa encosta algumas toscas casas de cana, onde pescadores como Carlos Alberto, 46 anos, guardam os seus instrumentos de trabalho. A pesca é tradicional, com os "cofos" a serem lançados desde a falésia e içados depois por um sistema de roldanas. "Apanhamos um pouco de tudo. Moreia, polvo, sargo", revela Carlos. Mas já foi melhor. "Agora há dias em que já falta o peixe", desabafa.

 


Desertas e belas

Quem passa pela EN 268, em direcção a Vila do Bispo, dificilmente imagina que a poucos quilómetros fica uma das mais belas praias da região. A estrada de terra que parte em frente ao parque eólico, até pode despertar a curiosidade, mas o estado do piso é tão desencorajador que são muitos os que desistem.
Os buracos, as curvas e as pedras soltas são um verdadeiro teste aos nervos do condutor e à resistência dos automóveis, com excepção feita aos todo-o-terreno. A praia só se deixa ver no final do percurso, após uma última curva em cotovelo, numa descida a pique pela encosta. A visão, deslumbrante, é uma merecida recompensa para os que resistem à tentação de voltar para trás.
Outra paragem obrigatória, para quem procura isolamento, é a Barriga. O acesso faz-se por uma estrada de terra que percorre a costa, para norte, desde a Praia do Castelejo, com passagem pela Praia da Cordoama. Ao todo, são cerca de cinco quilómetros por vales e montes.
Com o Cabo de São Vicente cada vez mais próximo, falta visitar a Ponta Ruiva e o Telheiro, as últimas praias da costa ocidental. Quase selvagens e muito pouco frequentadas, a desolação e aridez da paisagem convida à contemplação. São ambas acessíveis a partir de Vila do Bispo, por um confuso emaranhado de caminhos rurais e trilhos de areia desaconselhável aos automóveis comuns.
O Sol já desapareceu entretanto no horizonte. É tempo de voltar a Aljezur, onde, nessa noite, Rosmaninho vai cozinhar uma caldeirada à pescador com peixe apanhado pelo próprio.

 

PLANEAR A VIAGEM

FICAR
Monte Velho - Herdade do Monte Velho, Carrapateira. Tel. 96 600 7950, Habitações de €120 a €160
Muxima - Montes Ferreiros, Aljezur. Tel. 282 995 420, 91 601 2830 e 91 705 9969, Habitações de €95 a €140
Carpe Vita - Rua Serro do Mosqueiro, Aljezur. Tel. 96 325 6581, T1 para máximo de 2 pessoas de €60 a €85
Memmo Baleeira - Hotel Sítio da Baleeira, Sagres. Tel. 282 624 212, Quartos a partir de €150

 

COMER
Com Alma - Rua da Escola, 13, Igreja Nova, Aljezur. Tel. 91 855 1174, € 15 por refeição
Ruth, O Ivo - Rua 25 de Abril, 14, Aljezur. Tel. 282 998 534, €20
L-Colestrol - E.N. 120, Santa Susana, Aljezur. Tel. 282 998 147, €20
Sítio do Rio - Estrada da Praia da Carrapateira, Carrapateira. Tel. 282 973 119, € 15 por refeição
Café Correia - Rua 1.º de Maio, n.º 4, Vila do Bispo. Tel. 282 639 127, € 15 por refeição
Chill In - EN120, Aldeia Velha, Aljezur. Tel. 919193850, €15

 

RECEITA
Caldeirada à Pescador

(Sargo, dourada, robalo, safio e raia; cebola, pimento e batata)

Confecção: Colocam-se na panela duas camadas sobrepostas de cebola, pimento, batata e peixe. Rega-se tudo com "azeite com fartura" e tempera-se com "algumas folhas de louro", pimenta, coentros, sal "a gosto" e vinho branco "para dar gosto". Vai ao lume durante mais ou menos 40 minutos, "até cozer a batata". É servido com tiras de pãozinho quente fritas em azeite.

 

 

Palavras-chave   Algarve   Arrifana   Carrapeteira   Aljezur   Vila do Bispo   Odeceixe  
 
 
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COMUNICAÇÃO É ASSIM!
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 15:38 | Terça-feira, 18 de Ago de 2009
Ora aqui está alguém que sabe fazer uso da comunicação social, oferecendo o outro lado da medalha. E que medalha!... Excelente, Muguel e Nuno. Bem hajam pelo vosso trabalho de divulgação.
O Algarve a evitar-Praia do Cabeço-Castro Marim
makiavel (seguir utilizador), 1 ponto , 13:45 | Segunda-feira, 17 de Ago de 2009
Presenciado hoje numa praia algarvia : um banheiro ameaçou fisicamente uma mãe e filha porque a sombra do chapéu de sol caía na área concessionada!

Perante a estupefacção da senhora que perguntou "Mas tenho de sair?", o rapazeco, nadador-salvador, "Ou fecha o chapéu, ou sai da praia! E não me olhe com essa cara que ainda leva!"

"Vou ser agredida?" - Pergunta a incrédula mãe, perante a aterrorizada filha.
"Se não sair, vai de certeza!" . E acto contínuo, o brutamontes investe contra o chapéu de sol, e seguir-se-ia a infeliz turista lusa, se um colega não o agarrasse.

Afinal, no Algarve há praias públicas, onde uma senhora e a filha podem ser agredidas pelo banheiro de serviço, se não tomarem conta da rotação do sol em areias mal demarcados.
Se tivessem alugado um toldo (a preços escandalosos), nada tinha acontecido.

E não há autoridade que vigie os vigilantes das praias?
Um banheiro tem ele próprio autoridade para mandar sair uma pessoa de uma praia pública mediante ameaças de agressão ?

Isto foi uma vergonha para portugueses e espanhóis que viram o chapéu da pobre senhora ser pontapeado até o ferro torcer e ouviram as ameaças do oxigenado banheiro - que se recusou a dar o nome a quem lho pediu.

Cena presenciada esta tarde na praia do Cabeço, Castro Marim.

Da minha pessoa, parentes, amigos e conhecidos este concessionário de praia, restaurantes e hotéis à volta não apanham 1 cêntimo até que aprendam a tratar as pessoas com educação - e até com respeito pela integridade física!

Algarve de brutamontes que agridem mães, não obrigada!
Lindo Allgarve, sim senhor!
opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 1 ponto , 9:06 | Terça-feira, 18 de Ago de 2009
Muito bem denunciado êste acto criminoso do banheiro.Tudo isto é fruto da bandalhice,da Política do salve-se quem puder dos Partidos
que usam o rótulo de socialista e de social democrata que permite
todas as liberdades aos pulhas e traficantes,tanto os de colarinho
branco como os da Plebe.É a política do Liberalismo selvagem,em que
os espertalhões,os velhacos se sentem àvontade.Conceder uma
licença de comércio da praia,não implica privatizar essa praia que
deve ser um lugar público.
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