É Verão!
Na auto-estrada para o Algarve, intensifica-se o corrupio de carros a rumar para sul, a alta velocidade. Perto da costa ocidental, junto à Ribeira de Odeceixe, também há trânsito, mas por razões diferentes: a ponte está em obras. A demora serve para apreciar a paisagem, com um extenso vale que se estende, por quilómetros, até ao mar. O Algarve está a poucas dezenas de metros. Fica na outra margem, mas ao contrário da imagem mais conhecida da região, não há luxuosos hotéis com vista para o mar, nem discotecas na praia ou campos de golfe. Até ao Cabo de São Vicente, é um outro Algarve que se apresenta ao visitante. Genuíno e preservado. A última fronteira por desbravar da costa portuguesa, que aqui se encontra no seu estado mais puro. A praia de Odeceixe é, mesmo assim, uma das mais concorridas da zona. Do cimo da falésia, junto à povoação, avistam-se algumas dezenas de pessoas, espalhadas pelo extenso areal - banhado de um lado pelo mar e do outro pelas águas da ribeira, que agora atingem o volume de um rio. Há espaço para todos (e muito), mas um pouco mais a sul, seguindo pela estrada municipal que liga Odeceixe à vizinha aldeia do Rogil, há poisos bem mais sossegados, como a Samouqueira (seguir placa no Rogil e depois pela estrada de terra) ou a Barradinha, apenas conhecida pelos locais, no final de uma estrada de terra sem qualquer indicação. À excepção de três amigos, que com esforço e entre gargalhadas, tentam descer a íngreme encosta para a Samouqueira com um bote insuflável às costas, estão ambas desertas. Um cenário parecido ao que é encontrado um pouco mais abaixo, nas Praias de Vale dos Homens e Carreagem, também paralelas ao Rogil e ambas com indicações a partir da localidade. O acesso é feito por estradas de terra, que atravessam campos agrícolas e pinhais. Têm ambas parque de estacionamento, mas Vale dos Homens é a única com acesso pedonal (em madeira) e por isso a mais concorrida, se é que a palavra pode ser utilizada. Ao olhar para os poucos veraneantes espalhados pelo extenso areal, o termo não é de facto o mais adequado.
Sabores do mundo
De regresso à estrada de alcatrão, quase à entrada para Aljezur, uma casa chama a atenção, com uma scooter pendurada do lado de fora da parede, junto a uma enorme malagueta vermelha. É o restaurante Chill In, um dos novos espaços abertos na região, pensados para agradar a uma clientela jovem e urbana que, nos últimos anos, encontrou nas praias do concelho de Aljezur e Vila do Bispo uma alternativa ao turismo de massas. A decoração, colorida, remete para um imaginário mexicano e a ementa, de fusão, mistura pratos de inspiração regional como a raia alhada, a tomatada de farinheira ou os camarões com gengibre, com outros de paragens mais
distantes: Chilli, enchiladas, fajitas, arroz tailandês. Tudo regado a caipirinhas e mojitos. Bruno Martins, 32 anos e Raquel Jesus, 29, são os proprietários. Ele cenógrafo, ela ceramista. Durante metade do ano vivem aqui, na casa ao lado do restaurante, onde cultivam uma pequena horta. A filha, a pequena Adriana, com três anos, já nasceu algarvia. É à volta de Aljezur que se concentram as praias mais conhecidas da região: Amoreira, Amado e Arrifana. Apesar de cheias durante o Verão, todas merecem uma visita. Vigiadas e com todo o tipo de equipamentos balneares, são uma boa alternativa para quem vai de férias em família, sem grande pachorra para aventurar-se por trilhos de terra à procura de praias desertas. Neste campo, a Amoreira faz o pleno. Para chegar é necessário seguir a indicação na entrada norte de Aljezur e avançar pela estrada que percorre, ao longo de sete quilómetros, a paisagem única do sapal da Amoreira, um extenso vale onde vivem espécies como a lontra, a galinha de água ou a garça-cinzenta. Quanto à praia, oferece duas alternativas: a praia de mar - com mais de um quilómetro de comprimento - e a praia fluvial, protegida por dunas, que faz as delícias das crianças durante a maré baixa, quando se formam no areal as famosas piscinas.
Para sul, do outro lado das rochas, fica Monte Clérigo, com a pequena aldeia a descer, quase praia adentro, pelas encostas do vale. Estamos no triângulo dourado da região, mas seguindo para Sul, pela estrada de terra que percorre a falésia desde Monte Clérigo, ainda é possível descobrir alguns tesouros, como areais junto à Ponta da Atalaia, apenas frequentados por pescadores da região e um ou outro surfista mais temerário. É um dos pontos mais ocidentais desta costa, de onde se avistam, em dias de sol, o Cabo de São Vicente (a sul) e o Cabo Sardão, já no Alentejo. Do lado sul da Ponta da Atalaia, fica a Arrifana. Com o seu casario encavalitado na falésia e a praia em unha, é outra das imagens de marca da região.
Dormir no campo
A oferta hoteleira é escassa, mas compensada, nos últimos anos, pelo surgimento de várias unidades de turismo rural.
É o caso do Muxima, um "monte verde com preocupações ecológicas e ambientais", como o definem os proprietários Jorge Andrade e Sofi a Faustino, 42 e 37 anos. "Tínhamos necessidade de fugir à rotina de Lisboa", explica Jorge com um sorriso. Trabalhava numa organização humanitária e Sofia na área da comunicação social.
"Pensámos em ir para São Tomé, mas um dia passámos por aqui e descobrimos, em Portugal, o que estávamos à procura, uma região em estado quase puro. Para quê então ir para fora?". Compraram a propriedade em 2002, mudaram-se em 2005 e abriram ao público o ano passado. O monte fica a dois quilómetros de Aljezur e tem cerca de 28 hectares, salpicados de medronheiros, sobreiros e esteva. Os quartos, decorados com peças adquiridas em inúmeras viagens pelo mundo (Marrocos, México, Índia, Timor, Angola), estão distribuídos por duas casas de taipa: a do Monte e a da Eira. Cá fora, uma piscina ecológica, faz as delícias nos dias mais quentes. E não se assuste se der de caras com o Riscas ou a Oito, ele é um burro dócil e afável e ela uma porca arraçada de javali que, apesar do aspecto feroz, gosta de festas na cabeça.
Outra possibilidade, talvez a modalidade preferida nesta zona, é alugar uma casa. Como fez, durante muito tempo, o consultor de tecnologias de informação Nuno Guimarães, 33 anos, até ter decidido, com a mulher, Luísa, mudar-se do Porto para Aljezur, onde recuperou quatro casas tradicionais, que hoje aluga a visitantes. As casas são temáticas: Árabe (rústica), do Surfista (moderna), do Agricultor (colorida) e do Pescador (meditativa e monocromática).
Abriu o negócio há dois anos, com a empresa Carpe Vita, que para além do aluguer das casas, organiza ainda passeios pela região (a pé, de btt e em todo o terreno), tem escola de surf e serviço de massagens Nuno é guia de montanha e o sócio Pedro é professor de surf e massagista.
Uma das ofertas "mais apreciadas" pelos clientes, revela, "é o pacote de uma semana", que inclui um passeio a pé pela costa, desde a Amoreira ao cabo de São Vicente, por trilhos de pastores e pescadores.
"Sou adepto de um turismo responsável, que traga um impacto positivo para a região, não só a nível económico como social". As casas que recuperou estão todas situadas na zona velha.
O objectivo, explica, "foi devolver vida a estas ruas" e, ao mesmo tempo, "promover um encontro entre os que cá vivem e quem vem de visita".
Ao todo, vivem pouco mais de 10 mil pessoas nos concelhos de Aljezur e Vila do Bispo. A baixa densidade populacional ajuda a explicar a preservação do território, que se traduz, segundo Nuno Guimarães, numa "mistura entre mar e campo única em Portugal". Mas o que mais o atraiu foi "o aspecto humano" da região. "Existem tradições que já desapareceram no resto do Algarve. As pessoas ainda vivem em comunhão com a natureza e é um luxo sem preço poder comer um pão feito em forno comunitário ou comprar o peixe directamente ao pescador." Ainda comum é a apanha do percebe. Iguaria muito apreciada na região, este crustáceo é capturado nas rochas, junto à rebentação, num perigoso jogo de equilíbrio e paciência. "Temos de fazer pela vida e viver com o que a natureza nos dá", confirma a "perceveira" Lurdes Jesus, 39 anos, uma das poucas mulheres que se dedica a esta actividade. Nessa manhã, Lurdes e o companheiro Rui Freitas, 38 anos, foram até à praia da Carreagem. Escolhem o local no próprio dia, conforme esteja o mar. "Quando está mais manso, vamos a nado até algumas pedras ilhadas, que é onde está o melhor percebe", explica.
O peixe
A busca por praias desertas continua para sul, agora no troço entre a Arrifana e a Carrapeteira.
A primeira é o Canal, uma praia de calhau em que a areia apenas surge durante a maré baixa, com um prado quase até ao mar. Numa das pontas, perto da falésia, avista-se uma casa com uma pequena horta. "É do senhor Joaquim. Vai todos os dias de bicicleta a Aljezur, vender o peixe que pesca aqui na praia", desvenda Bruno Rosmaninho, 25 anos, DJ e um dos sócios do restaurante L-Colestrol, outro dos espaços trendy da zona, que neste dia desempenhou o papel de guia. Segue-se Penedo e Vale Figueira, a única com sinalização desde a estrada nacional e também a mais concorrida das três. Ainda assim, basta caminhar algumas centenas de metros para ficar de novo sem ninguém à volta.
Prosseguindo pelas estradas de terra paralelas ao mar, a paragem seguinte é na aldeia da Carrapateira, nome pelo qual também é chamada a praia da Bordeira, uma das mais conhecidas (e concorridas). Uma estrada de terra percorre a falésia até à praia do Amado, outro local frequentado durante o Verão, especialmente por surfistas.
A meio caminho, escondido numa escarpa da falésia, fica o pesqueiro da Zimbreirinha, dos mais ricos da região. Caminhando um pouco pela rocha, avistam-se numa encosta algumas toscas casas de cana, onde pescadores como Carlos Alberto, 46 anos, guardam os seus instrumentos de trabalho. A pesca é tradicional, com os "cofos" a serem lançados desde a falésia e içados depois por um sistema de roldanas. "Apanhamos um pouco de tudo. Moreia, polvo, sargo", revela Carlos. Mas já foi melhor. "Agora há dias em que já falta o peixe", desabafa.
Desertas e belas
Quem passa pela EN 268, em direcção a Vila do Bispo, dificilmente imagina que a poucos quilómetros fica uma das mais belas praias da região. A estrada de terra que parte em frente ao parque eólico, até pode despertar a curiosidade, mas o estado do piso é tão desencorajador que são muitos os que desistem.
Os buracos, as curvas e as pedras soltas são um verdadeiro teste aos nervos do condutor e à resistência dos automóveis, com excepção feita aos todo-o-terreno. A praia só se deixa ver no final do percurso, após uma última curva em cotovelo, numa descida a pique pela encosta. A visão, deslumbrante, é uma merecida recompensa para os que resistem à tentação de voltar para trás.
Outra paragem obrigatória, para quem procura isolamento, é a Barriga. O acesso faz-se por uma estrada de terra que percorre a costa, para norte, desde a Praia do Castelejo, com passagem pela Praia da Cordoama. Ao todo, são cerca de cinco quilómetros por vales e montes.
Com o Cabo de São Vicente cada vez mais próximo, falta visitar a Ponta Ruiva e o Telheiro, as últimas praias da costa ocidental. Quase selvagens e muito pouco frequentadas, a desolação e aridez da paisagem convida à contemplação. São ambas acessíveis a partir de Vila do Bispo, por um confuso emaranhado de caminhos rurais e trilhos de areia desaconselhável aos automóveis comuns.
O Sol já desapareceu entretanto no horizonte. É tempo de voltar a Aljezur, onde, nessa noite, Rosmaninho vai cozinhar uma caldeirada à pescador com peixe apanhado pelo próprio.
PLANEAR A VIAGEM
FICAR
Monte Velho - Herdade do Monte Velho, Carrapateira. Tel. 96 600 7950, Habitações de €120 a €160
Muxima - Montes Ferreiros, Aljezur. Tel. 282 995 420, 91 601 2830 e 91 705 9969, Habitações de €95 a €140
Carpe Vita - Rua Serro do Mosqueiro, Aljezur. Tel. 96 325 6581, T1 para máximo de 2 pessoas de €60 a €85
Memmo Baleeira - Hotel Sítio da Baleeira, Sagres. Tel. 282 624 212, Quartos a partir de €150
COMER
Com Alma - Rua da Escola, 13, Igreja Nova, Aljezur. Tel. 91 855 1174, € 15 por refeição
Ruth, O Ivo - Rua 25 de Abril, 14, Aljezur. Tel. 282 998 534, €20
L-Colestrol - E.N. 120, Santa Susana, Aljezur. Tel. 282 998 147, €20
Sítio do Rio - Estrada da Praia da Carrapateira, Carrapateira. Tel. 282 973 119, € 15 por refeição
Café Correia - Rua 1.º de Maio, n.º 4, Vila do Bispo. Tel. 282 639 127, € 15 por refeição
Chill In - EN120, Aldeia Velha, Aljezur. Tel. 919193850, €15
RECEITA
Caldeirada à Pescador
(Sargo, dourada, robalo, safio e raia; cebola, pimento e batata)
Confecção: Colocam-se na panela duas camadas sobrepostas de cebola, pimento, batata e peixe. Rega-se tudo com "azeite com fartura" e tempera-se com "algumas folhas de louro", pimenta, coentros, sal "a gosto" e vinho branco "para dar gosto". Vai ao lume durante mais ou menos 40 minutos, "até cozer a batata". É servido com tiras de pãozinho quente fritas em azeite.