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Sherwood Anderson

Aldeia global

Foi o mestre dos mestres da literatura norte-americana. E com Winesburg, Ohio assinou a sua obra-prima. Saúde-se, por isso, a primeira publicação entre nós deste clássico de Sherwood Anderson. Uma edição da Ahab

Luís Ricardo Duarte
12:03 Terça feira, 25 de Mai de 2010
Sherwood Anderson
Sherwood Anderson
Foi Eça de Queirós quem melhor descreveu a força das leis da emoção e da proximidade, que tanta importância têm no jornalismo. Num texto das Cartas de Paris, o escritor retrata uma família reunida numa sala onde alguém lê o jornal. Dois mil javaneses mortos por um terramoto, uma enorme inundação na Hungria, crianças assassinadas por soldados na Bélgica, um comboio descarrilado em França. Nada faz sobressaltar os presentes, que continuam impávidos e serenos. O alvoroço só chega quando se noticia que Luísa Carneiro, a vizinha de cima, da Bela Vista, ali ao lado, "desmanchou um pé". É também destas proximidades que se faz o livro de Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio. Só que, neste clássico da ficção norte-americana, o local toca a todos os leitores. Eis a força da grande literatura. Como dizia Tolstoi: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia". E aquela que Sherwood Anderson nos oferece neste extraordinário romance, publicado em 1919, muito antes da utopia da internet, é a verdadeira aldeia global.
Para falar deste livro, a metáfora do jornalismo não é despropositada. Ao longo das 21 histórias que compõem Winesburg, Ohio, uma para cada personagem, o fio condutor é precisamente o repórter do Winesburg Eagle, enviado especial a todas as ruas da aldeia. Aos seus ouvidos chegam as mais variadas histórias, que compõem um puzzle de vidas suspensas. São episódios de uma existência ligada à terra, com contornos quase mágicos. Homens com passados obscuros, padres atormentados pelo diabo, casamentos infelizes, futuros hipotecados, mulheres nuas que correm estrada fora, escritores em potência ou frustrados, solitários com muitos amigos imaginários ou bêbados reféns do quotidiano.
Com o seu estilo simples e depurado, Sherwood Anderson apresenta-se como um velho contador de histórias, que atrai a atenção pela invulgaridade do que narra. Mas, como nota John Updike no posfácio a esta edição portuguesa, "as muitas personagens de Winesburg, mais do que personalidades individuais, parecem, com os seus tiques repetitivos e a sua solidão uniforme, aspectos diferentes de uma personalidade". A coerência do romance está nessa unidade, que consegue extravasar as fronteiras da localidade imaginária (muito próxima da pequena Clyde onde o escritor cresceu), fixando ânsias e incertezas que procuram romper um mundo fechado e de horizontes cerrados. Esta mesma lição estimulou outros escritores a criarem os seus territórios literários, como o Michigan de Hemingway ou o Mississipi de Faulkner. Porque, a acreditar em Anderson, que deixou uma vida de sucesso financeiro para se dedicar à escrita, estas personagens são como as maças retorcidas de Winesburg que ninguém quer (as boas viajam em camiões rumo à cidade). Únicas e deliciosas. J
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