Faça aqui o seu
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Cinema  >  Estado Crítico  >  ÁGUAS AGITADAS, Respirar debaixo de água

Águas Agitadas, de Erik Poppe

ÁGUAS AGITADAS, Respirar debaixo de água

ÁGUAS AGITADAS, Respirar debaixo de água
Um filme psicologicamente violento, que nos faz sempre esbarrar com a perspectiva do outro, contra todas as certezas

Manuel Halpern4 olhos
0:10 Quarta, 18 de Agosto de 2010
Partilhe este artigo:

"Quem acredita fica a tona, quem tem dúvidas afunda-se", diz Jan Thomas, o protagonista de Águas Agitadas, a propósito do episódio de Jesus caminhando pelas Águas. E nós? de que lado é que ficamos? A água é o principal elemento do código semântico do filme norueguês, uma obra prima de Erik Poppe, que fecha a trilogia de Oslo (os outros dois filmes não passaram por cá). A água, já se sabe, é o maior símbolo de vida e purificação, na cultura judaico-cristã. A água converte, a água dá vida. Mas nós por cá, povo de navegadores e pescadores, temos, uma série de expressões que nos dão a ideia contrária, com "meter água" ou "ir por água abaixo". Porque sabemos que ela tanto nos faz mal como representa o bem. Esta contradição ou ironia extrema transforma-se facilmente em crueldade quando a água da vida provoca a morte. Afogamo-nos, na água das lágrimas, como neste filme, que nos põe dúvidas.

Jan é um jovem que sai da prisão após cumprir a longa pena pelo mais horrendo crime que se possa imaginar: a morte de uma criança. O que nós vemos já não é o potencial assassino, apenas um homem, que usa o nome Thomas (o seu segundo), e procura "uma vida normal", e tem o mundo inteiro, e talvez nós próprios, contra ele. Apesar de não acreditar em milagres, toca órgão nos cerimoniais religiosos da prisão e acaba por ser contratado como organicista de uma igreja protestante. É um grande intérprete. Entre os cânticos toca Bridge over Troubled Water, de Simon and Garfunkel.

Há pormenores dos hábitos protestantes dos escandinavos que nos parecem tão exóticos como um filme coreano. Ora esta Igreja é governada por um pastor e uma pastora, que não formam um casal. A pastora é mãe solteira. O seu filho, Isaac, da idade que o outro menino teria quando foi morto, funciona, de início, como uma assombração. Nova ironia: as crianças, o mais comum símbolo da inocência, são o terror de Thomas. Mas ele vence o medo, ajudado pela paixão que sente pela pastora e pelo filho. Estás prestes a tornar-se uma pessoa normal com uma vida normal. Só que, entretanto, entra em cena a mãe da criança morta, contorcida de dor, que ainda busca, se não a justiça, pelo menos a verdade. De tal forma obcecada que consegue inverter os papéis, irritada com a aparente normalidade.

Ficamos assim encurralados neste choque de perspetivas, sem qualquer fuga possível, nem sequer a nado. Partilhamos a dúvida da mãe: será que Jan o matou? E a angústia de Thomas na instintiva vontade de viver. A água não é cristalina, tudo é turvo e defeituoso, as forças opõem-se e contradizem-se, o bem não existe, o mal está longe de ser absoluto. A cena repetida, de Jan a largar o corpo do miúdo no rio, assemelha-se a um batismo, segundo a praxe dos primeiros cristãos. Mas é um batismo invertido. É também a água que o converte à verdade, no final do filme.

Águas Agitadas é um filme pela dúvida, contra as certezas, expõe a fragilidade das ideias feitas. Desenha de forma surpreendente personagens bidimensionais (ótimos atores), enquanto discute, de forma honesta, altos conceitos teológicos e filosóficos, sem que chegue a defender alguma tese. Vai muito mais longe do que mostrar a humanidade dos monstros, apenas sugere uma infinidade de tons entre o branco e o preto. Mais um grande filme vindo da Noruega, país que nos tem surpreendido, com estreias sucessivas de obras de grande qualidade nas salas portuguesas. Apesar de estar longe de ser um filme perfeito, Águas Agitadastalvez seja o melhor deles todos.

Palavras-chave  noruega, 4 olhos
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
PUB
 
O Artista, de Michel Hazanavicius
OS MARRETAS, de James Bobin
Os dois filmes com mais nomeações para os óscares
Attenberg, de Athina Rachel Tsangari
J. Edgar, de Clint Eastwood
Millennium OS Homens Que Odeiam as Mulheres, de David Fincher
A Gruta dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog
Apollonide - Memórias de um Bordel, de Bertrand Bonello
Sherlock Holmes - Jogo de Sombras, de Guy Ritchie
O Deus da Carnificina, de Roman Polanski
Grupo ImpresaACAP