A declaração de Cavaco Silva ao País sobre o chamado "caso das escutas" torna-o definitivamente mortal aos olhos de quem o julgava com dotes divinos
0:27 Quarta, 30 de Setembro de 2009
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Nunca percebi as razões para o endeusamento sustentado da figura de Cavaco. Nem, confesso, a especial deferência pelas supostas qualidades excepcionais do professor. De resto, basta olhar para o actual estado do PSD para perceber que o partido ainda paga o facto de algumas cabeças pensantes da social-democracia à portuguesa se terem anulado constantemente perante tão esfíngica figura ao longo de anos. Os resultados estão à vista.
Cavaco foi Primeiro-Ministro em anos de vacas gordas.
Mudou Portugal? Mudou. Tornamo-nos um País de patos bravos sem saber ler nem escrever. De horizonte e de futuro, os seus governos deixaram menos que zero. Mas o cavaquismo fez escola: um crescimento pensado a betão e asfalto, liberalismo sem freio e uma certa modernidade tecnocrática. E, já agora, um dos períodos de maior descrédito da política portuguesa. Os seus rapazes, aliás, ainda hoje fazem estragos. E não precisamos de ir mais longe do que o caso BPN.
Mas, vá lá saber-se porquê, o homem foi sempre tratado como se tivesse capacidades invulgares e um pensamento brilhante. À esquerda e à direita, o País elogiou-lhe méritos de monta e amiúde reviu-se naquele ar distante, quase sebastiânico. Os silêncios e vãs reflexões mereceram enternecedoras e laudatórias referências, na tentativa de lhe adivinhar uma genialidade escondida. O PSD, de resto, ainda suspira pelo seu afecto e carícias e amua quando não os tem.
Muitos discursos lidos e ouvidos e confesso-me incapaz - defeito meu, certamente - de descobrir nas palavras do Presidente da República um desígnio, um sobressalto cívico ou um olhar verdadeiramente redentor sobre o País. Cavaco, Primeiro-Ministro e Presidente da República, é um esforçado português, mediano de qualidades, saberes e capacidades, sem virtude nem alento que nos livrem da morrinha.
Agora, a sua declaração ao País sobre o chamado "caso das escutas" torna-o definitivamente mortal aos olhos de quem o julgava com dotes divinos. Atira a pedra e esconde a mão. Lança novas interpretações e mistérios. Não confirma nem desmente coisa nenhuma, antes pelo contrário: junta ainda mais suspeitas às teses conspirativas e mais lama à chafurdice. Já tínhamos pântano, disfarçado de cinismo e hipocrisia institucional. Agora temos, com uma clareza meridional, a fractura exposta da nossa vulgaridade.
"Nunca percebi as razões para o endeusamento sustentado da figura de Cavaco. Nem, confesso, a especial deferência pelas supostas qualidades excepcionais do professor."
Então... está-nos na massa do sangue. Repare: origem rural modesta, subir na vida a pulso, fé inabalável na divina providência. Não vimos já este filme?
Pois, pelos vistos, continua a ser um verdadeiro sucesso de bilheteira na nossa terra de toscos.
Um jornalista, mesmo quando veste a pele de comentador (e são todos comentadores hoje em dia) deveria ter o cuidado de ser imparcial e não misturar realidade com gostos pessoais. Como demonstra pura e simplesmente não gostar de PR. Como tal, tem credibilidade zero.
O Rogeiro (o sabe tudo) é o tal que ganhou protagonismo aquando da guerra do Iraque, em que dizia que iria haver uma guerra mundial tal o poderio do Iraque com o nuclear, os scuds, etc. Depois foi ver os iraquianos de espingardas da 1ª guerra e panos brancos.
Ontem na sic notícias notou-se um ódio ao PS e em particular a Sócrates, dizendo sempre que Sócrates poderia não tomar posse como primeiro Ministro, chegando ao ponto (pasme-se!) de dizer que era possível até, os partidos da oposição juntarem-se todos e formar governo. Será algum trauma em relação a Sócrates? Quereria ele ser o mais sexy de Portugal?
Excelentes textos os dos três jornalistas sobre o discurso do Presidente e a resposta do PS.
Deixam bem à vista, e de forma serena, a fragilidade da figura presidencial que temos, a sua limitação retórica, que acaba sendo política e ideológica, e a vulnerabilidade de um retrato público que é puramente artificial.
Do lado do PS resta-nos esperar que haja mais lucidez, porque de Belém não creio que nada de bom esteja para acontecer no terreno da elevação institucional.
Cavaco ainda se lê a si próprio como omnipotente ministro das Finanças ou primeiro ministro. Não percebeu o seu papel e não o perceberá até sair. Já não vai a tempo, perdeu de uma vez por todas a chance de se elevar.
Talvez tenha, pelo menos, perdido a hipótese de ser reeleito. Que os Portugueses tenham o bom senso de não esquecer este tremendo "flop". E que o PS tenha aprendido a sua própria lição em matéria de candidatos presidenciais.
Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velho
(85anos)devido à distância no tempo e no espaço,resta-me dizer que penso que o Presidente Cavaco,saberá com quem cavaquear de modo a evitar que tudo se escavaque e portanto para que não hajam cavacos espalhados por todos os cantos dêste rectângulo à
beira-mar plantado.Não interessa a todo o português bem intencionado,que o País seja escavacado,nem mesmo a mim,apesar
de estar distante da terra que me viu nascer.
De Boliqueime também sou eu,
mas não alinho com Cavaco,
sou filho da Plebe,sou plebeu,
sou um algarvio de pataco.
A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta,
empurrou-me p'rà emigração,
e maldita seja a Governação,
que Portugal p'rà miséria arrasta.
Não vou aqui defender, nem denegrir, argumentadamente,a intervenção do Presidente. Ainda não formei opinião sobre o assunto. A propósito simplesmente da sugestão de que descai para a baixa e reles condição de mero ser humano, esquecendo-se de continuar a ser o deus que devia ser custasse o que custasse, recordei-me de um facto espantoso que aconteceu pouco depois de aqui ter chegado à Bélgica, há vinte anos, o qual referiria aqui: o rei Balduíno II devia assinar o decreto que liberalizava o aborto. Na véspera da data marcada para a assinatura abdicou provisoriamente da sua condição de rei dos belgas e entregou a tarefa da assinatura ao governo. O governo assinou e repôs o rei no trono. O escândalo e a celeuma foram grandes: o rei não se comportara como tal mas sim como mero ser humano, que, muitos o diziam, ele não podia ser. Independentemente do bem-fundado das razões invocadas para tal abdicação, admirei e ainda hoje admiro o gesto do rei Balduíno. Não digo que admire especialmente o gesto do nosso Presidente, no entanto compreendo-o. Um presidente não é certamente um ser humano qualquer, mas não deixa por isso de poder conhecer determinadas situações em que a sua humanidade, com tudo o que essa condição possa ter de grande ou pelo contrário de frágil, vem ao de cima.
Concordo que alguem se engane.
Mas é estranho que o PR fale, e certos juizes afirmam que os telemoveis andam estranhos com desvios de chamadas, não recebem mensagens, etc.
Á qualquer coisa que não esta a funcionar?
Caro Ricardo,
A política do simples dizer mal deixa-me doente. Comente o que quiser, e agradecemos, sobre as escutas telefónicas e os seus intervenientes, sobre as várias opiniões que por aí circulam, etc.
Mas, a bem de um jornalismo sério que há muito deixou de se ver, ao lançar comentários sobre o actual PR enquanto PM, faça-o numa análise verdadeira, com o seu bom e mau. Perca o mesmo tempo que perdeu enumerando o mau, procurando o bom. Garantidamente encontrará algo. Digo eu, ou então não, porque olhos há que apenas vêem o que sabem dar volume à sua opinião pessoal.
Fiquei, seriamente, curiosa em ler a sua opinião respeitante a outros intervenientes da nossa história / vida política e em perceber onde termina a opinião pessoal e começo o jornalismo factual.
Tenho o maior respeito pelo Prof. Cavaco Silva. É um mito dentro do PSD. Governou em tempos de vacas gordas, e alguma coisa de bom fez. No entanto, e mesmo dispondo de todos os meios, o que nenhum outro governo ( PS e PSD ) voltou/voltará a ter, não consegiu pôr Portugal no trilho do sucesso. Pois os resultados estão à vista, e contra factos não há argumentos. Quanto ao facto de ser brilhante, para algumas pessoas ligadas ao seu partido, o que digo atrás demonstra precisamente o contrário. Mas tem um mérito, e louvo-o por isso, pois de facto "é um esforçado português, mediano de qualidades, saberes e capacidades, embora sem virtude nem alento que nos livrem da morrinha", como diz. Mas o esforço tem que ser reconhecido, e o respeito tem que lhe ser prestado, pois acima de tudo é o presidente de todos os portugueses.