Visão - Homepage
Faça aqui o seu
Subscreva dos feeds RSS da visão.pt
RSS
Assinaturas: Papel | Tablets e Vouchers | Digital
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Actualidade  >  Mundo  >  À procura de milagres

A VISÃO no Haiti (c/ vídeo)

À procura de milagres

A Enviada Especial da VISÃO testemunhou e fimou as tentativas desesperadas de encontrar sobreviventes nos escombros de Port-au-Prince. LEIA MAIS UMA CRÓNICA E VEJA O VÍDEO

Patrícia Fonseca, Enviada Especial ao Haiti
10:32 Quinta, 21 de Janeiro de 2010
Partilhe este artigo:
Já será quase impossível encontrar sobreviventes do terramoto do passado dia 12 mas as cerca de 40 equipas de salvamento que chegaram ao Haiti, vindas de todo o mundo, ainda não baixaram os braços. "Sete dias é o limite teórico para encontrarmos gente com vida. Mas às vezes os milagres acontecem...", acredita Johann Viggo Jorsoon, que pertence a uma equipa islandesa, com 36 elementos, que aterrou no Haiti menos de 24 horas depois do sismo. A esperança é a última a morrer.

Na segunda-feira, 18, passaram o dia em busca de uma mulher que, segundo alguns familiares, teria conseguido fazer um telefonema nessa manhã, indicando estar presa debaixo de dois andares do prédio onde morava. "Disse que estava perto da torneira da água, estamos a tentar descobrir em que zona da casa seria", explica Johann, enquanto tenta comunicar, a custo, com os vizinhos que sobreviveram. As versões são contraditórias, é difícil perceber onde foram parar as divisões da casa, num prédio que parece ter sido implodido. A custo, vão escavando túneis de acesso a zonas de vácuo, criadas entre as placas de betão. Mas dali saem apenas tijolos, roupas, uma mala de outra senhora, com todos os seus documentos de identificação. "Essa está viva, é minha prima, está no campo de refugiados", explica um dos habitantes do bairro.

Ao final do dia, os islandeses, já exaustos, pedem reforços: a equipa K9 norte-americana, com um cão especializado a farejar sobreviventes. O cão mergulha veloz em todos os buracos existentes, regressando com o pelo preto coberto de poeira. Sempre que reaparece à superfície, instala-se um silêncio pesado, esperando para ver se ele faz a tão desejada marcação: sentar-se e ladrar. Mas fica impávido, olhando o seu treinador, uma e outra vez. "Talvez fique baralhado com a intensidade do cheiro dos cadáveres...", diz Johann, que também esteve no interior do edifício e sabe como o ambiente era irrespirável. "Não podemos fazer mais nada, revirámos tudo. Introduzimos também câmaras nos locais mais inacessíveis e não a encontrámos. Também é possível que ainda estivesse viva de manhã e agora [ao final do dia] já não esteja", explica, resignado.

O grupo abandona o local depois de marcar a parede do edifício com a assinatura do seu trabalho (ICE, de Islândia, e a data, 18-01), para que as outras equipas saibam que já não há nada a procurar ali. Saem todos com grande desânimo, perante uma multidão de gente que esperava, na rua em frente, por um milagre de vida, no meio de tanta mortandade. "Há dias assim, já ontem revirámos uma escola em busca de crianças sobreviventes e, infelizmente, das mais de 100 que sabíamos estar ali soterradas, não detectámos nenhum sinal de vida. Temos de nos agarrar aos momentos bons. No domingo salvámos três mulheres, num centro comercial. São esses rostos que temos de ter sempre presentes na nossa cabeça, para não desanimar."

Até quarta-feira, 20, foram resgatadas dos escombros 174 pessoas com vida. Aqueles que sobreviveram têm histórias incríveis para contar. Como o empresário que resistiu cinco dias preso debaixo dos destroços do requintado hotel Montana, graças a um pequeno chupa-chupa que guardara na sua pasta, para oferecer ao filho mais tarde - doce que ainda partilhou com outras duas pessoas, soterradas a seu lado. Todos foram salvos por uma equipa destes homens corajosos e obstinados, que arriscam a sua própria vida mergulhando nas entranhas dos escombros, determinados a fazer-nos acreditar em milagres.

MAIS CRÓNICAS - CLIQUE NOS LINKS PARA SABER MAIS DOSSIER MULTIMÉDIA - CLIQUE NOS LINKS PARA SABER MAIS
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
2 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Temos de nos agarrar aos momentos bons
a.dúvida (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 23:41 | Quinta, 21 de Janeiro de 2010
Patrícia,
É exactamente isso. Acreditar, ter esperança que todo o trabalho que tão bem descreve dessa equipa islandesa e de outras que empenham as suas forças ao limite por ainda encontrar uma vida... A capacidade humana é enorme, ultrapassando muitas vezes os limites "teóricos" dos sete dias de sobrevivência.
Claro que outros trabalhos se seguirão, dolorosos, remover todos os escombros e retirar os cadáveres para evitar epidemias... mas essa é uma tarefa demorada.
Diga-nos Patrícia, com o seu olhar humano e de jornalista, se a ajuda humanitária já está a chegar a toda a população, ou ainda há muitas dificuldades. Que clima se vive, além do medo e insegurança. Há olhares de esperança? Acha que os Haitianos estão empenhados em ver reconstruído o seu país? Ou isso não é perceptível ainda?
Para si o meu obrigado pelos trabalhos de reportagem que faz chegar à Visão.
Sara
Haiti
ERA 2000 (seguir utilizador), 1 ponto , 15:27 | Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Eu não sei se teria coragem para verificar com os meus próprios o estado em que o Haiti ficou.
Só pelas imagens da Televisão, fico horrorizado.
Um trabalho destes para um jornalista não deve ser um atarefa nada fácil.
Bom trabalho, Sra. Jornalista.
2 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Grupo ImpresaACAP