Um percurso pela exposição de Eurico, com particular enfoque nos anos 40 e 50, patente no Palácio Galveias
Rocha de Sousa
14:57 Terça, 16 de Março de 2010
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Alguém, há muitos anos, deu-me a ver três ou quatro obras de pintura, designando-as como surrealistas. Eu disse: "parecem". E a meu lado: "não parecem, são. Foi o Eurico Gonçalves que as realizou, sensível à importante expansão do Surrealismo em França". Respondi que não estava negando a eventual qualidade das obras, apesar da sua timidez, mas o facto de me lembrarem mais o surrealismo pela tipificação formal e menos pela densidade dos conteúdos.
Ainda hoje, ao ver peças actuais do Eurico sinto que elas me convocam pelo que são em si e só raramente recordando o pintor surrealista de há muitos anos, incapaz de o nomear (hoje) como tal. Há títulos que se perdem com a transformação das coisas e da própria alma. Na exposição do Palácio Galveias, há uma sala dedicada ao Eurico do fim dos anos 40 e da década de cinquenta. Há duas ou três peças que mostram a coragem do artista ao assumi-las. Eurico fez mais, por discutível que seja: declarou-se surrealista.
E ele escreveu e ainda escreve: "Sou surrealista" Recordemos, a propósito, as palavras de Cesariny que Eurico republica no actual catálogo: "Li com espanto espantoso que em pleno Agosto de 1968 te afirmavas surrealista. Perguntara-se: "Que influência do surrealismo reconhece na sua obra e no seu modo de agir?" Resposta:"Sou surrealista". Afirmativa realmente única em toda a panorâmica nacional. A bem dizer, um monstro, numa época em que todo o parentesco com o surrealismo (e pululam) é cuidadosamente envidraçado pelos próprios e desinfectado pela crítica"
De facto, nessa altura e quem sabe se ainda hoje, eu pensava que o Surrealismo não acontecia por mera fixação no sentido moderno da ruptura, quer contra a tradição de certos modelos, quer na gíria da vontade anti-académica. Ao julgar saber o que não bastava para nomear e definir aquele movimento, lembrava-me também dos dadaístas e do seu aparente devaneio, em Zurique, tornando-se, de forma aleatória, um nome e um grupo. Gente que parecia abjurar, inclusive, toda a arte institucional a par das novidades trazidas por linhas criativas empenhadas na revolução técnica, na reformulação dos dados perceptivos, no empenho expressionista das formas comprometidas com o mundo e o pulsar das sociedades. O que me pareceu sempre curioso reside no facto dos dadaístas, procurando desconstruir modos, convenções, estilos, assim mais ou menos perto de se tornarem verdadeiros heróis do assassínio da arte, quase só lograram fazer arte, revelando-se exímios gráficos ou coladores, cortando e redescobrindo mais sentidos para as coisas do que alguns personagens da absoluta negação alternativa.
Tangencialmente ao surrealismo
Duchamp vem dessa corrida convulsiva que procurava matar a cultura nos seus aspectos conservadores ou canónicos. Ele usou, re-usou, um objecto sanitário, irrisório, colocando-o na sala das artes e em vez delas. Foi logo parar à história. Contudo, não nos devemos esquecer de um quadro que pintou com a maior das seriedades: Nu Descendo uma Escada. Trata-se de uma magistral lição de nova pintura, cuja ligação a montante nada exclui (da percepção do movimento) e cujo parecer conclusivo, a jusante, nos lega antecipações surreais, construtivistas, cubistas, além de algumas outras hipóteses que o espaço não deixa colar.
Quando procurei viajar pelo Surrealismo, li sínteses que o definiam como "movimento nascido na crise iconoclasta provocada pela guerra de 1914-18" e que implicava uma atitude não resumível ao seu aspecto estético ou forma pictural. Envolvia um pensamento ético associado à "total liberdade de imaginação por sobre os entraves psicológicos e sociais da civilização burguesa". Falava-se, necessariamente, de uma visão do mundo, de um saber e de um fazer oscilando entre a razão e o supra-sensível. Era mais outro salto no abismo a transformação das coisas e do homem, aprofundando o seu plano do Inconsciente, dos sonhos que afloravam ou inundavam a consciência e se coisificavam na tela, torturados e magníficos, sem a ordem quotidiana nem as morfologias habituais. A pintura era tecnicamente respeitada e respeitável, trazendo aos nossos olhos universos do subconsciente, ideias de Freud, a fim de mudar a vida, pela poética, pela coerência da forma, entre o maravilhoso e o absurdo. O espaço mais parece situar-se fora da terra, envolve as imagens do assombro que nos habita, a beleza inquietante, visceral também, cuja anunciação depois os espíritos mais simplistas misturou nos automatismos da escrita ou noutras desordens atrás da esquina.
Tudo isto, que é bem pouco, poderá reafirmar que as tais primeiras obras de Eurico Gonçalves mimetizam morfologias e coreografias do surrealismo naquela altura. Mas tem de se reconhecer que os caminhos posteriores deste artista, ainda que aspirem a posturas zen e vivam de uma profunda experiência grafológica, gestualista, entre o risco e a mancha, não podem, honestamente, ser conotados com o Surrealismo na sua acepção mais inovadora e complexa. Se um índice histórico incluir o trabalho inicial do Eurico, contextualizando-o, parece aceitável. Eurico precisa, contudo, de outras referências, espaços, nomes, mesmo que se reafirme surrealista: a sua obra mais extensa e coerente estabelece outros convívios que não o indicam como refém da história, mas como criador entre a mancha e o risco, num viver porventura perto do Surrealismo não institucional. l
Palácio Galveias, exposição patente até ao dia 21 de Março. Horário: dias úteis: 10 às 13 e 14 às 19 sábado: 14 às 19