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Exposição inaugura em Serralves

A luz sobre as sombras de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro

FOTOGALERIA Uma "ocasião única" para (re)ver o Teatro de sombras, de Lourdes de Castro e de Manuel Zimbro, numa exposição antológica, no Museu de Serralves, que reúne mais de duas centenas de trabalhos dos dois artistas, muitos apresentados pela primeira vez ao público

Maria Leonor Nunes
11:23 Sexta, 5 de Março de 2010
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Ele era a luz, ela a sombra. Era o que ela costumava dizer. Ele e ela estavam juntos "nos trabalhos e nos dias". E montaram e desmontaram repetidas vezes o seu Teatro de Sombras pelos palcos do mundo, nos idos anos 60. Uma performance que marcou o seu tempo pela natureza inovadora e que ficaria para a História da Arte. Levaram-no na bagagem quando se instalaram na Madeira, onde ela nascera, para juntos construírem uma casa, um lugar que ela diz ser uma grande pintura de um hectar. Ela sempre coleccionou e representou sombras, ele juntava sementes e pedras onde pintava palavras. Ele criava dispositivos e mecanismos, ela representações.
Ela é um nome dos mais luminosos da arte portuguesa contemporânea, Lourdes de Castro, nascida em 1930, migrada para Paris, na década de 1960, onde fundou com René Bertholo, José Escada, João Vieira, Gonçalo Duarte e depois Jan Voss e Christo, o grupo KWY. Ele foi um nome que se resguardou na sombra, Manuel Zimbro, nascido em 1944, que também demandou Paris, onde foi assistente de Bertholo e conheceu Lourdes de Castro. Juntaram-se no famoso Teatro de Sombras e ficaram em cena juntos, até que a morte dele os separou. É a primeira vez que as suas obras podem ser vistas numa exposição conjunta. À luz da sombra, que inaugura hoje, sexta-feira, 5, no Museu de Serralves, reúne mais de duas centenas de trabalhos de Lourdes de Castro e Manuel Zimbro, numa mostra que permite redescobrir antologicamente a arte de um e do outro, o seu processo criativo e a "extraordinária relação dos dois que se tornavam um, mantendo as suas especificidades".
É o que adianta João Fernandes, director do museu e comissário da exposição, primeira deste ano em Serralves: "Eles foram colaboradores em vários projectos. Manuel Zimbro criou dispositivos para a apresentação de obras de Lourdes de Castro como, por exemplo, O grande herbário de sombras e Sombras à volta de um centro. Mas o Teatro de Sombras foi o projecto em que se conheceram". E acrescenta ainda João Fernandes: "Esse foi um trabalho apresentado na Europa e na América Latina, em inúmeros países, e terá sido um dos momentos mais significativos da história da performance, no século XX. Lourdes de Castro começou, aliás, o seu Teatro de Sombras, com René Bertholo, continuando-o depois com Manuel Zimbro, que o diversificou extraordinariamente em termos das suas possibilidades técnicas e de soluções cénicas".
Será mostrado, pela primeira vez, um conjunto de documentação e de aspectos sobre a preparação desse Teatro de Sombras: "Infelizmente, é hoje impossível refazê-lo, no entanto esta exposição é um contributo importante para sabermos como foi feito e apresentado". E era meticulosa a preparação: "Um espectáculo levava por vezes mais de um ano a preparar. Tudo era escrito e desenhado, das situações que se representariam no palco aos detalhes dos projectores, do comando das luzes à construção do ecrã. Tudo isso era objecto de desenhos e de muito trabalho, invisíveis para quem via o Teatro de Sombras". Torna-se agora "visível o lado invisível", para além das próprias sombras.  
Todo esse "trabalho escondido" fascinou o comissário, na concepção de À luz da sombra, tanto quanto a singularidade da relação de criação e de vida dos dois artistas, que de resto pôde conhecer de perto." 
"A exposição é antológica em relação ao modo como junta o trabalho de ambos", sublinha ainda João Fernandes. "No caso de Lourdes de Castro incide sobretudo nos seus trabalhos sobre a sombra, de objectos, pessoas e plantas, o que constrói uma obra relevante e cria uma relação singular da obra de arte com o mundo". São nesse sentido desvendados os 34 volumes do álbum de família, onde Lourdes de Castro colige todo o seu conhecimento sobre sombras: "Trata-se de informação que encontra ou que é enviada por amigos e que ela organiza em colagens maravilhosas nesse albúm que tem feito desde a década de 60 até hoje", adianta o director de Serralves. "É a primeira vez que esses volumes saem da casa da artista". Serão também expostos alguns projectos publicados na revista KWY, de que foi uma das fundadoras, tal como os seus primeiros objectos e trabalhos de serigrafia, que a levaram à descoberta das sombras, a par da leitura d' A História Fabulosa de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso. "Além dessas primeiras serigrafias, apresentamos as sombras e contornos que fez sobre tela e uma selecção, com obras vindas de todo o mundo, das sombras que recortou num material que nessa altura foi utilizado pela primeira vez na arte, o plexiglass, que confere qualidades de transparência e projecção à própria sombra que daí se projecta para o espaço", explica o comissário.
À luz da sombra revela, igualmente, a obra praticamente desconhecida de Manuel Zimbro, que mostrou os seus trabalhos em não mais de duas exposições, que estão "documentadas" na mostra de Serralves. Trata-se dos seus Torrões de terra e da História secreta da aviação, em que apresenta um "conjunto de sementes voadoras que se fecundam através desses voos que desconhecemos". De Zimbro, apresentam-se também pela primeira vez ao público as suas pedras pintadas: "São seixos rolados que escolhia e pintava cuidadosamente com palavras ou caracteres japoneses".
Amanhã, sábado, 6, estreia, por outro lado, o filme Pelas sombras, que Catarina Mourão realizou com Lourdes de Castro. E com a cumplicidade da cineasta, foi feita também uma animação sobre o Teatro de Sombras, a partir de fotografias antigas. Pelas sombras será exibido posteriormente aos domingos durante o tempo da exposição que está patente até Junho.

 

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