Há um ruidoso silêncio de outros, tão lestos e certeiros a zurzir os poderes públicos e privados por razões de interesse pessoal ou pé de página
14:13 Sexta, 5 de Março de 2010
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MessageO grupo Leya mandou destruir milhares de livros. Edições de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade e outros foram na leva. Pelos vistos, é prática habitual da maioria das editoras, conforme nos esclareceu a Ministra da Cultura, vagamente escandalizada. Armazenar e distribuir tem custos - os custos, sempre eles - incomportáveis. E o Estado português, que continua a dispor de recursos para muitos negócios duvidosos e escorregadios, recusa-se, em nome do equilíbrio financeiro, a gastar papel...com papel.
Confesso: não sei onde está a novidade que o episódio encerra: políticos de capa mole e iletrados, obviamente não gastariam um euro a salvar livros. Nas suas biografias, não cabe índice nem prefácio. Nas suas manigâncias e esquemas são gente de título e contracapa e nem para enfeite de escritório servem.
Não são os únicos, note-se.
Uma resma de editores que por aí anda não destoa desta sinfonia da desgraça. Alguns, conheço-os bem: têm lombada de gente grande e esclarecida, mas tanto vendem livros como esticadores para os colarinhos. Ou a mãe, se preciso for. Reclamam-se, com orgulho e a desfaçatez dos livros que não leram, devedores e seguidores do negócio e do sacrossanto mercado, a única religião que conhecem. Com uns e outros, no Estado e nas empresas, está o livro bem servido.
Identificados os criminosos, passemos aos cúmplices.
Neste País de intelectuais serventes e por servir, poucos se levantaram ainda em nome da decência educativa e cultural de um País onde ler, estudar e reflectir ainda parece um comportamento desviante. É claro: não vamos agora começar a boicotar os livros da Leya e os seus autores. O facto de, por vezes, me zangar com o Público, não faz com que deixe de comprar atum no Continente, se é que me entendem. Eu, que não sou daqueles que consideram que só vale a pena entrar nas guerras ganhas à partida, admito que, neste caso, a luta até seria contraproducente. "Manifs" à porta da Leya não me convencem. Tal como deixar de ler o Mia Couto não me faria mais coerente.
Espera-se, contudo, uma palavra dos intelectuais de vários ramos - alguns bem famosos e de edições sucessivas. Miguel Esteves Cardoso já escolheu o seu lado da trincheira, caso raro. Mas há um ruidoso silêncio de outros, tão lestos e certeiros a zurzir os poderes públicos e privados por razões de interesse pessoal ou pé de página. Se esses não falarem em nome das escolas, das prisões, dos hospitais e bibliotecas onde os livros destruídos não tiveram sequer a oportunidade de criar hábitos, despertar sonhos e desbravar mundos, o País fica a saber, em definitivo, que estirpe de intelectuais acoberta. E aí, sim, quase apetece dizer: não os Leya!
Em vez da destruição, teria sido mais nobre... doar os livros a escolas, hospitais, prisões, bibliotecas, etc.
Mas parece que quem está à frente do grupo, escolheu outra solução. A pior!
Ouvi dizer que a Leya é uma Emprêsa espanhola cuja proprietária é
a Opus Dei,(Obra de Deus)sob direcção da Companhia de Jesus.
Estarei mal informado?Se estiver,peço que me digam para eu não
continuar enganado.
Um dia, acompanhado de um amigo, visitei uma exposição de arte aqui em Lisboa. Ao ver os intelectuais tão de nariz colado, expressões de extremo interesse sobre as obras, tive uma reacção esquisita, e pedi ao meu amigo se tinha um lenço.
– Tenho, Mas está muito sujo!
– Não faz mal!
– Estás maluco, Está todo ranhoso!
Não foi fácil sacar-lhe o lenço, que não se dão lenços ranhosos aos amigos, pois claro, ou não se é amigo. Peguei no lenço e coloquei-o sobre uma escultura, que era um cubo de acrílico, fechado, transparente, com papéis de lixo dentro. O meu amigo empalideceu ‘Estás maluco? ‘consegui acalmá-lo e ficámos de lado a apreciar o comportamento dos amantes de arte, intelectuais, no seu habitat natural.
Eles chegavam, ‘roçavam’ o nariz no lenço ranhoso do meu amigo, afastavam-se, semicerravam os olhos, inclinavam a cabeça, reflectiam sobre a expressão e o efeito, dois ou três mais atrevidos pegaram no lenço e levantaram-no, corando, repondo-o.
O lenço ranhoso passou a ser mais importante que a escultura do genial artista, enquanto eu me esforça por não soltar uma gargalhada, e o meu amigo corava com medo de sermos descobertos num canto da sala.
Este é o retrato da cultura real em Portugal, amigo, para além das belas frases de elogio, quando se entra na essência, pouco mais se sabe.
2010-03-05
... Miguel Carvalho, pela sua denúncia corajosa de "um certo estado das coisas"!
Houve um tempo em que os cidadãos gostavam de ler livros!
E, para os lerem, passavam-nos, clandestinamente, de mão-em-mão, como faziam com a capelinha da "Sagrada Família", que passavam de de casa-em-casa na época da Quaresma!
Era o tempo em que os avisos soavam temerosos: "pela boca morre o peixe", que é como quem diz, toma cuidado com o que falas e com quem ouve!
Hoje, quando supostamente todos os livros poderiam estar disponíveis para serem lidos e comentados sem "ouvidos indiscretos" por perto, eles, paradoxalmente, são "escondidos"!
Deu-se "liberdade(?)" às pessoas, mas "aprisionaram-se os livros"!
Ou seja, continuamos a ser pessoas, mas não somos mais cidadãos por isso!
E a intelectualidade continua amordaçada, talvez hoje mais do ontem, agora pelo poder económico!
É a valorização da lentilha para preços sem preço!
E quem disse que a Leya está interessada em Livros ou em Cultura, ou em Literatura? Está interessada em números muito, muito altos. A Literatura, a Cultura , os Livros que se lixem! (Perdoem-me a expressão). Também não está interessada nas pessoas, nos leitores ou no país. A Leya está interessada apenas nela própria. Mas não é só a Leya, infelizmente. Outros editores fazem o mesmo. É urgente e necessária uma revolução cultural. E quem tem de a começar são os escritores, tratados abaixo de cão pelos editores, e vergam-se a essa situação. Por mim, começava a Revolução JÁ! Abaixo os editores da incultura! A profissão de escritor nem sequer consta da lista das profissões. Somos uns biscateiros. Esta falta de consideração tem de acabar.
O livro hoje é descartável, usar e deitar fora.
Deitar fora os livros que pessoas escrevem e publicam, vá-se lá saber porquê, até acho bem, pois por muito que bradam e insultem os possíveis leitores, nunca serão escritores, porque esses são eternos.
Há quem diga com orgulho que nunca leu um livro mas tem, não um carro, mas um "bêem", o que faz a diferença!?...
Há quem pense que o importante é ler, mesmo que não seja literatura. Então porque não lêem a Lista Telefónica?
Hoje, em que não é politicamente correcto falar em classes sociais, existe uma profunda distinção entre quem lê e quem não lê.
O analfabetismo hoje não é tão fácil de definir. Saber ler não significa que perceba o que lê.
O livro aguça todos os nossos 5 sentidos e leva-nos a lugares e tempos inimagináveis. Viaja-se mais num livro que numa volta ao mundo, mau grado dos Srs. "Petit Larousse" .