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A guerra dos mundos

A bola presta-se a implacáveis metáforas. Serão só coincidências?

3:25 Quinta, 1 de Julho de 2010
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Vão desculpar-me mas hoje deu-me para a bola. Para escrever sobre bola. Mais estimulante ainda, deu-me para perorar sobre as estatísticas da bola que, como bem se sabe, são a marca verdadeiramente distintiva de um intelectual dos relvados. Pois bem, das 32 seleções que iniciaram o grande jogo do Mundo, 13 eram europeias, 6 eram africanas, 3 eram asiáticas, 2 representavam a Oceânia e 8 o continente americano.  

Fast Forward: oitavos de final. A Oceânia desapareceu do globo sem que ninguém tivesse reparado que alguma vez lá tinha estado. A África, continente eternamente esquecido, quase deixou de existir. Mas é na Europa que o panorama é mais deprimente. Porque se revelaram largamente infundadas as expectativas dos profissionais das casas de apostas e porque se revelou cruelmente ilusória a riqueza de um futebol que descobriu, do dia para a noite, que importa muito mais estrangeiros do que deveria. Mas tristezas não pagam dívidas e o que é certo é que mais de metade das seleções ficou pelo caminho. A Grécia, por exemplo, naufragou miseravelmente depois de ter passado os últimos anos a enganar meio mundo com o seu antijogo patrocinado por um selecionador alemão. A França recusou-se a perceber que nada lhe restava da grandeza de outros tempos e, à primeira dificuldade, dedicou-se a fazer aquilo em que verdadeiramente é especialista: greve ao trabalho. O resultado foi o que se viu. Um estrepitoso fracasso do seu modelo de jogo com direito a honras de Estado e cimeira no Eliseu. Já a Alemanha, depois das hesitações do costume, lá fez o que lhe competia para evitar um risco sistémico e acabou na liderança do grupo. A Inglaterra, que não vai em euros, passou a ronda de braço dado com os aliados de sempre, os Estados Unidos. Portugal foi igual a si mesmo e oscilou entre a depressão e a euforia no espaço de poucos dias. E a Espanha, para ser sincero, estraga-me a estatística porque, a fazer fé nos economistas, era suposto ter implodido depois da euforia do Euro.

E se dúvidas existissem quanto ao futuro do mundo, ter-se-iam dissipado de vez. Até mais ver (escrevo-vos na segunda feira, 28), nesta guerra implacável da globalização os grandes campeões são mesmo a Ásia (2 das 3 selecções apuradas para os oitavos) e a América (7 das 8 selecções continuaram em prova). A Oriente só destoou mesmo a Coreia do Norte. Três derrotas em três jogos e doze golos sofridos são, convenhamos, um grande embaraço ideológico para a nossa Odete e não podem deixar de merecer uma leitura politica. A Ocidente, nada de verdadeiramente novo. Dos Estados Unidos continuam a chegar sinais de retoma, a América latina cresce a olhos vistos, o Brasil que desconfiava de Dunga mais ainda do que desconfiou de Lula, voltou a ser a promessa do momento e da crise Argentina já ninguém fala. 

Dir-me-ão que é só bola. E eu respondo que sim. Que é só bola. Mas a verdade é que a bola se presta a implacáveis metáforas. Serão só coincidências? 

 
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não há coincidências!
vera bgs. (seguir utilizador), 1 ponto , 11:28 | Quinta, 1 de Julho de 2010
Caro Pedro Norton,
O seu texto é brilhante e tão importante aquilo que escreve, como aquilo que deixa sub entender ao leitor nas entrelinhas.
Dizem que não há coincidências... (não sei se é verdade).
Mesmo a Espanha que lhe estragou as estatísticas do futebol... pode revelar-se uma surpresa em outros relvados. De facto estabeler um paralelismo entre economia e futebol ... é quase uma sincronia perfeita.
Como nós já saimos de campo, resta-nos observar o que se irá passar nos relvados e colher daí as lições que cada um por si for capaz.
Cumprimentos.
    Re: não há coincidências!   
pnorton (seguir utilizador), 1 ponto , 11:08 | Sexta, 2 de Julho de 2010
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