Nova crónica da secção Gestão de Fraude, assinada, esta semana, por Aurora A.C. Teixeira
Aurora A.C. Teixeira
10:45 Terça, 9 de Junho de 2009
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Os desaires financeiros da Enron, Tyco, WorlCom, bem como todo o alvoroço associado aos escândalos mais 'caseiros' do BPN e BPP, reflectem comportamentos altamente questionáveis, de um ponto de vista ético, de indivíduos com elevados níveis de escolaridade, desempenhando cargos de alta responsabilidade corporativa. Tais ocorrências têm atraído considerável atenção por parte da sociedade em geral e ampla cobertura dos meios de comunicação, colocando não só uma forte pressão sobre as entidades reguladoras mas, simultaneamente, questionando os valores que a Escola, em geral, e o ensino superior, em particular, transmite e incrusta nos nossos jovens, líderes, decisores e gestores do amanhã.
Neste contexto, o tema da fraude académica assume particular relevância, sendo diversos os estudiosos e organizações de ensino superior que se têm preocupado em aferir e divulgar o fenómeno. Ao contrário de muitas organizações do ensino superior em Portugal, as escolas de ensino superior mais reputadas em termos internacionais (e.g., California Institute of Technology; Carnegie Mellon University; Stanford University) têm efectuado frequentes e elucidativas campanhas de sensibilização e prevenção da fraude académica, criando centros de integridade académica, apresentando aos seus estudantes e docentes códigos de honra, políticas destinadas a promover a ética na educação e divulgação de práticas não éticas, quer por parte dos estudantes, quer por parte dos docentes e investigadores.
Martin Dick, Maja Hrabak e os respectivos co-autores sintetizaram os diversos tipos de fraude académica: 1) Copiar em exames (incluindo, utilizar grelhas de correcção, notas das aulas ou de livros num exame sem consulta; falar com o colega do lado durante o exame; utilizar a máquina de calcular para resolver um problema suposto ser resolvido no papel; olhar para o exame do colega do lado; roubar o exame do gabinete académico); 2) Plágio (que inclui actividades não éticas, e mesmo ilícitas, como copiar directamente da Web, partilhar o trabalho de alguém com outro estudante, apropriar-se de trabalho de outrem sem o referenciar, copiar do manual da disciplina ou do respectivo website, 'roubar' o trabalho de alguém); e 3) má conduta académica (alterar a lista da frequência nas aulas; pedir a um colega para assinar a folha de presenças pela pessoa; submeter um trabalho de outra pessoa como se fosse o do próprio; saber as questões de exame antes do exame ocorrer; utilizar ligações privadas para passar à disciplina; pagar ao examinador para passar no exame).
Num artigo recente (Março/Abril de 2009), publicado no Journal of Education for Business, Smith, Davis e Kroncke, assumindo que a fraude (académica) passada é um forte indicador da fraude futura, concluíram, para uma amostra de 786 estudantes de ensino superior norte-americanos, que os estudantes de cursos de economia e gestão eram, em média, menos éticos do que os estudantes de outros cursos. Concluíram também que a maior exposição a acções de sensibilização para as questões de ética nos negócios conduzia a menor incidência de comportamentos não éticos entre os referidos estudantes. Juntamente com Maria de Fátima Rocha, num estudo que envolveu 7213 estudantes das áreas de economia e gestão de 42 escolas de ensino superior localizadas em 21 países, concluí que a magnitude da fraude académica entre estudantes (avaliada em termos de cópia em exames) era bastante elevada (62%), apresentando uma grande heterogeneidade entre países. Os estudantes inscritos em escolas localizadas nos países nórdicos (em concreto, Dinamarca e Suécia) apresentavam uma probabilidade de cometer fraude académica significantemente mais baixa do que os seus homólogos dos países da Europa do Sul (e.g., Espanha, Itália ou Portugal). Os baixos níveis de cópia dos países Nórdicos em análise reflectem, em grande medida, a filosofia Nórdica de uma sociedade livre de corrupção (in Scandinavica.com Magazine, 2006), associada a uma cultura de ética onde a corrupção e a falsidade não são toleradas. Nestes países as regras são claras e tomadas de uma forma séria, sendo o preço de ser excluído dos círculos normais da sociedade excepcionalmente elevados.
Dada a sua importância para o futuro político e económico de uma nação, espera-se que o sector da educação seja um sector particularmente 'justo' e ético. Não obstante, como sublinharam Meier e Griffin no seu livro Stealing the Future: Corruption in the Classroom, a corrupção na Escola é relativamente comum, originando uma educação de fraca qualidade e indo contra um dos principais objectivos da Educação: produzir cidadãos que respeitem a lei e os direitos humanos.
A evidência recolhida pelos diversos estudos nesta área indicia que diminuir a fraude académica não passa apenas por um conjunto de políticas (localizadas) ao nível do ensino superior mas de atitudes e comportamentos transversais a toda uma sociedade.
Seria muito mais interessante e importante que os investigadores académicos em vez de perderem tempo com estudos irrelevantes como estes investissem em perceber se o nosso modelo académico baseado em marrar coisas que se esqueçem no dia seguinte à prova e que é IMHO anti-pedagógico está ultrapassado e se nos tais países do norte mais civilizados não existem tantos testes/provas para atrasados mentais e marrões como os que por cá estes senhores professores doutores insistem em continuar a fazer...lá no norte da Europa aprende-se a trabalhar em equipa, fazer trabalhos em grupo, com experiências práticas...nada que ver com o bafio académico/teórico que pulula nas nossas universidades...e uma cultura de individualismo e de teoria empresarial antiquada...
O comentário levanta uma questão importante: organização do nosso ensino superior. Problema sempre relevante mas muito mais quando se adopta Bolonha e nos arriscamos todos a no futuro ainda estarmos mais na periferia do desenvolvimento. Há o processo de Bolonha e o processo de Bolonha à portuguesa. Naquele dá-se a tal autonomia e liberdade de criação aos alunos. Neste empacota-se cinco em três anos e serve-se em comprimidos.
Mais uma vez o digo: tem razão. A linguagem pode não ser a mais apropriada, mas tem razão.
Mas essa liberdade criativa tanto vale para alunos como para professores. Para sermos respeitados na nossa liberdade (reivindicada) temos que respeitar a dos outros.
Mais, é irrelevante formar dirigentes para este país, que é nosso, sem principios éticos, sem deontologia profissional, defensores do salve-se quem poder e da burla?
Não creio que defenda isso. Eu também não.
O ensino estar errado não justifica que eu actue erradamente.
O leitor que faz o comentário (1) parece ter passado ao lado da mensagem principal da crónica: independentemente da qualidade ou natureza do ensino, a ética deve ser um farol sempre aceso e a fraude não é, em caso algum, passível de justificação.
É de louvar o conteúdo do artigo por ter tocado nos pontos principais, muito em especial na responsabilidade da sociedade em que vivemos na existência (ou não) de fraude na escola. Se a sociedade é permissiva, como tende a acontecer com a Portuguesa e a dos países da Europa do Sul, a fraude na escola tende a prosperar, pois esta é sempre uma extensão do que se passa na dita sociedade. Relembro um caso com cerca de dois anos: um aluno português do programa Erasmus, passando um semestre numa universidade da Filândia. No exame de uma dada disciplina, ele tinha um código de leis com anotações a lápis (trivial nas universidades portuguesas, diga-se). Nem estava a copiar. Mas a constatação de tal facto por parte do vigilante colocou um ponto final no exame, levou ao recâmbio do aluno para Portugal e ao fim do acordo entre a universidade filandesa e a universidade portuguesa. O caso veio a público. Foi triste ver o tipo de comentários que se fizeram sobre o "radicalismo" dos filandeses. É por estas e por outras que o nosso devir futuro se apresenta com tons tão negros.