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Pré-publicação Lourenço Mutarelli

A Arte de Produzir Efeito sem Causa

Leia na íntegra o segundo capítulo de A arte de produzir efeitos sem causa (Quetzal), o mais recente romance de  Lourenço Mutarelli, distinguido com o 3.º lugar na última edição do Prémio PT de Literatura

Lourenço Mutarelli
13:52 Sexta, 12 de Março de 2010
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A Arte de Produzir Efeito sem Causa

2

Júnior desperta com o cheiro do café. Há muito não acorda com esse perfume. Na sua ex-casa era ele quem fazia o ex-café pela manhã. O café de sua ex-esposa era horrível. Júnior ouve a água fervendo para escaldar a garrafa e o farfalhar do saco de pães. O som de torradas saltando e a pesada porta da velha geladeira batendo. O relógio do videocassete marca seis horas. Júnior tenta levantar, mas acaba pegando no sono de novo. Não é um sono profundo, é mais um transe. Imagens desconexas surgem enquanto ele segue identificando os sons matinais.
- Filho?
Júnior vê a imagem de seu filho.
- Filho.
Júnior vê Thiago, o filho de seu antigo patrão, brincando com Caio, seu menino.
- Filho.
- Pai?
- Eu vou precisar sair, vou levar a Lurdinha pra fazer uns exames.
- Quem é Lurdinha?
- A vizinha aí de cima, aquela que eu falei...
- Falou?
- É a que está gamadona em mim.
- Ah, sei.
Júnior começa uma série de espirros.
- Já vou levantar.
- É só pra você saber que tem uma cópia das chaves naquele vaso da estante onde guardo as canetas. Pode pegar pra você.
Júnior ainda espirra em série.
- Depois a gente vê como vai fazer com as refeições.
- Que refeições, pai?
- É que eu tenho comido na Lurdinha.
- Não se preocupe, eu me viro.
- Qualquer coisa, liga no meu celular.
- Pode deixar.
- Você está com o seu celular?
- Eu trouxe, mas esqueci o carregador.
- O meu não serve? Tenta o meu.
- Não serve.
O velho beija a face do filho e sai fazendo barulho com um molho de chaves e assobiando. O pai sempre assobia a mesma melodia. É quase um tema. Júnior desconfia que tal música nem exista, que se trate apenas de um pot-pourri de autoria dele próprio. Júnior aproveita e vai esvaziar a bexiga, mas o banheiro está trancado. 0227100142. Unidade de comando da ignição. Ouve o barulho do chuveiro e sente um perfume delicioso, provavelmente do shampoo. Só há um banheiro. Júnior se serve de café e acende um cigarro. Não encontra o jornal. Bruna sai enrolada numa toalha.
- Ai! Cigarro logo cedo!
- Desculpe, eu vou fumar na área de serviço.
Bruna bate a porta do quarto. Júnior tenta expelir a fumaça através do vitrô da minúscula área de serviço, mas o vento está contra. Quando termina o cigarro, arremessa a ponta pela janelinha. Bruna já está vestida e come apressada. Como se fosse tirar o pai da forca, diria o pai dele.
- Desculpe pelo cigarro.
- Estou atrasada.
- Você estuda de manhã?
- Não. Eu trabalho.
- É?
Ela enfia um pão quase inteiro na boca e olha para ele como se dissesse: não precisa ser simpático. Não precisa fingir interesse. Júnior apanha um pedaço de pão no saco pardo que agradece a preferência. Ela sai. Júnior enche o copo de novo e dessa vez vai fumar no sofá. A parte que lhe cabe no mundo. Não encontrando cinzeiro na sala, usa o copo em que estava o café. Uma imagem terrível faz seu coração disparar. Imagem recorrente. Pós-trauma. Precisa se distrair.
Sem ter o que fazer, começa a vagar pela casa e vasculhar as coisas. Embora nunca tenha morado nesse apartamento, tudo ali o remete à infância. A louça, o que sobrou do jogo. O filtro de gravidade, filtro de barro. A velha torradeira, os velhos LPs de Gardel, Goyeneche, Edmundo Rivero, Zitarrosa, Atahualpa Yupanqui... A vitrola, os quadros. Velhas reproduções desbotadas cobertas por camadas de poeira. O menino chorando é uma reprodução clássica que decorava as casas da classe média baixa. Uma lenda diz que no empanamento da blusa vermelha do garoto há, oculta, a cara do diabo. Júnior consegue ver o diabo. Sempre conseguiu. Em seguida encontra outro quadro que sempre o perturbou, uma pintura a óleo assinada por um tal de Natam. É uma paisagem marinha que, apesar da calma aparente, sempre lhe causou mal-estar. Talvez em virtude de uma enorme e cinzenta nuvem que parece guardar uma face demoníaca. Esse quadro sempre lhe causou um frio na espinha. Talvez, um prenúncio do horror que se esconde na praia. Ele segue as imagens penduradas na parede. Uma série de quatro gravuras representando ruas de Parati. Uma camponesa ceifando um ensolarado campo de trigo. Feito a morte. Começa então a tocar os enfeites que decoram a sala. A miniatura de um bassê de plástico marrom translúcido foi na verdade um frasco de perfume da Avon antes de virar enfeite. Uma pequena cesta com grãos de arroz, feijão e milho envernizados. Sobre os grãos um papelzinho com os dizeres: "Nada te faltará", escritos à mão numa letra melindrosa. Um troféu de um latão que imita o bronze com inscrições do campeonato de futebol de 1972 do Clube de Campo Itapevi. Uma flâmula de um time de beisebol americano. O poderoso chefão, do Mario Puzo, e vários volumes do Morris West. O advogado do diabo, A salamandra e As sandálias do pescador. Livros que Júnior nunca leu. Um velho catálogo McMaster 65. Um porta-retratos com a família completa, no colorido das antigas fotografias. O abajur de haste longa ao lado da velha poltrona. A colcha verde da cama de casal. Com losangos em detalhes brancos. A geladeira, a estante, o rádio de pilha ao lado do pingüim. Júnior vaga pelos poucos cômodos fazendo o inventário emotivo desses objetos. No fundo do guarda-roupa há colado um pôster com a foto de Carlos Gardel. Caixas de papelão repletas de artigos de escritório de quando Sênior estava na ativa e mantinha a firma de despachante com o sócio. Pilhas de cadernos-brochura sem pauta que o casal costumava usar para anotar os pontos das partidas de buraco. Não jogavam a dinheiro. A era pré-bingo. Passavam as noites de sábado jogando com outro casal. Júnior era menino e sentava-se à mesa e brincava com as fichas de apostas. Júnior formava figuras com aquelas fichas azuis. Até a hora de dormir.
Como um garoto, vasculha cuidadosamente as gavetas do velho repletas de objetos estranhos. Numa delas encontra o traje negro e o pequeno avental com a imagem de uma cabeça decepada sendo erguida pelos cabelos por uma mão misteriosa. Vestes do tempo em que seu pai era ligado à maçonaria. Sob as vestes algumas publicações da tal sociedade. No umbral do mistério, de Stanislas de Guaita, ABC do ocultismo, de Papus, História da magia, de Eliphas Levi, e várias apostilas mal datilografadas. No criado-mudo, uma estranha peça com três gavetas, um Buda de orelhas imensas ri com as mãos na barriga. A seu lado está alinhada uma Nossa Senhora negra, de gesso, coroada e com um manto de tecido trabalhado. Uma lasca fez surgir um nariz branco. Nas gavetas do criado-mudo há uma série de pequenas caixas desbotadas pelo tempo e pelo desuso. A primeira gaveta guarda coisas mais imediatas, mais recentes. Uma lanterna de pilha, algumas caixas de remédios, um Novo Testamento de bolso. As outras protegem os pertences que o pai selecionou nos quase setenta anos de vida. Uma caixa de papel com uma gaita enferrujada que Júnior soprava quando era menino, um binóculo que se abre quando um botão é acionado, uma caixa plástica com um jogo de cinco minúsculas chaves de fenda. Uma caixinha de laca japonesa abriga um par de abotoaduras de ouro, duas peças de madeira de um antigo jogo de damas, um bispo preto também em madeira, dois slides de uma desconhecida mulher nua que Júnior usou inúmeras vezes para se iniciar nas artes do vício solitário. Sempre alimentou uma imensa curiosidade em saber quem era aquela figura. Sua mãe dizia que era uma "vagabunda" que andava com seu pai antes de eles se casarem. Talvez fosse ela própria.
Olga, sua mãe, foi uma professora de história que nunca viajou. Dava aulas numa escola pública. Era uma mulher muito fria, de olhos escuros e com um olhar de reprovação constante. Obcecada por antigas civilizações.
Uma lupa, um baralho, uma velha prótese dentária, duas balas calibre 38. Algumas cartas presas por um elástico. Tudo como era antes. Exceto o pôster colado no fundo do guarda-roupa.
Passado o interesse, Júnior volta para o sofá e apaga.

Lourenço Mutarelli, nascido em 1964, é escritor, actor, dramaturgo e autor de bandas desenhas. Antes de A Arte de Produzir Efeito sem Causa, publicou os romances Miguel e os DemôniosJesus KidO NatimortoO Cheiro do Ralo.

 

 

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